À espera do Teatro Municipal de São Paulo

À espera do Teatro Municipal de São Paulo

Escolher um novo maestro, seja ele quem for, não resolve todos os problemas que a instituição vive hoje. É preciso discutir o modelo de gestão.

João Luiz Sampaio

23 de novembro de 2016 | 12h25

 

A cidade de São Paulo já tem um novo secretário de Cultura: André Sturm, que estava à frente do Museu da Imagem e do Som, foi confirmado na quinta pelo prefeito eleito João Dória. Paralelamente a isso, no entanto, desde a eleição, têm existido discussões em meio à equipe de transição a respeito do futuro do Teatro Municipal de São Paulo. A importância do teatro, assim como os episódios do último ano, justifica a atenção específica. Mas as decisões que se desenham, ao menos por enquanto, não enfrentam a questão central: o modelo de gestão do teatro, que esteve no centro de tantas polêmicas.

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Não é preciso aqui relembrar todo o imbróglio que assaltou a fundação e o Instituto Brasileiro de Gestão Cultural, organização social responsável por sua gestão, desde o final de 2015. Tudo isso já foi amplamente divulgado pela imprensa e há sinalizações de ajustes importantes no modo como são conduzidos agora os negócios da entidade, após intervenções da prefeitura. Resta, de qualquer forma, um rombo, em torno de R$ 10 milhões, reconhecido por todos, mas sobre o qual não parece haver ainda algum plano.

Falar do Municipal neste momento carrega uma especificidade: a troca na prefeitura, com a derrota de Fernando Haddad para João Dória nas últimas eleições. Isso significa que o que temos hoje é uma fase de transição. Se não cabe à atual gestão ditar sozinha os caminhos do próximo ano, também é verdade que é cedo para se saber quais os planos da gestão que assume no dia 1º de janeiro. Mas o que se tem falado até agora dá conta de um investimento grande na escolha de um novo maestro titular – e o nome de Roberto Minczuk, ao menos por enquanto, é o que mais se ouve nos corredores do próprio teatro.

Esse é assunto para depois da nomeação, obviamente. Mas a escolha do maestro é apenas parte de um problema muito maior. O fato é que não se equacionou ainda a relação entre fundação e OS. É um formato complicado, que talvez exija ajustes. Não se trata de novidade: eu mesmo já toquei nessa tecla diversas vezes aqui mesmo neste espaço. Seja como for, seria interessante que, nesse momento, ao mesmo tempo em que se discute a contratação de um maestro, haja a preocupação de ter, na fundação e no IBGC (ou em qualquer outra OS que seja contratada), pessoas responsáveis por estudar essa relação de maneira profunda, conceitual, capaz de estabelecer um paradigma de gestão pública que permita o estabelecimento de um projeto a longo prazo.

Se isso não acontecer, o que teremos, mais uma vez, é um jeitinho aqui, outro ali. E isso, a essa altura do campeonato, é inaceitável. Em especial em uma instituição complexa como o Municipal, que abriga escolas e vários grupos e funções além da temporada artística, acreditar que a nomeação de um maestro – seja ele quem for – resolve todos os problemas de uma instituição é uma ideia ultrapassada. Além do mais, já temos diversas provas na nossa história recente de que isso simplesmente não funciona. Todo o personalismo, essa experiência nos mostra, acaba sequestrando o valor em si dos projetos. E, quando isso acontece, não há futuro consistente possível, apenas mais do mesmo.

 

Atualizado às 17h55 de 25/11/2016

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