Música hoje: o poder criativo do intérprete

Música hoje: o poder criativo do intérprete

João Luiz Sampaio

26 de agosto de 2013 | 00h00

“Rua Quinze de Novembro”, de Peter Ablinger

CURITIBA

Na noite de sábado, da Capela Santa Maria o público segue para o Teatro da Reitoria da UFPR, onde a orquestra jovem da universidade, com a participação dos integrantes do Ensemble Platypus, de Viena, faz um programa inteiramente dedicado a obras criadas nos últimos quatros anos. Na primeira peça, “Ring”, de Georg Nussbaumer, a música é feita de toques de celulares – os músicos da orquestra ligam uns para os outros ao longo de um minuto. Em seguida, com “Hommage à Kafka”, Fernando Riederer simula o universo absurdo descrito por livros do compositor. Público e orquestra, então, seguem para a rua, para a estreia mundial de “Rua Quinze de Novembro”, de Peter Ablinger – o mote aqui é a nossa capacidade de ouvir e reagir aos sons, com os músicos precisando dialogar com os barulhos da cidade. De volta ao interior do teatro, “Eterna III”, de Jaime Wolfson, segue na investigação da relação entre percepção, espaço e som, com os músicos caminhando e tocando pela plateia escura. E, para encerrar a noite, “Silence Without Audience”, de Nussbaumer – mas agora é o público que liga para os números de celulares dos músicos (projetados em uma tela no fundo do palco) e, a cada vez que o telefone toca, eles precisam mudar a maneira de tocar.

Além das obras em si, dois outros aspectos me chamaram a atenção. O primeiro deles foi a presença do curador e dos diretores da bienal internacional de artes plásticas de Curitiba – e o discurso que reafirma a necessidade de diálogo da criação contemporânea em suas mais diferentes formas. E o segundo foi a reação dos intérpretes. Wolfson, na conversa na manhã de sábado e na rápida explanação que fez ao público antes da apresentação, explicou como foi a semana de ensaios com os jovens músicos da orquestra da UFPR. Disse a eles, logo no primeiro dia: não queria saber se concordavam com os compositores, se consideravam aquilo música. O que pedia era uma oportunidade, comprometimento. “Vamos nos dedicar ao longo da semana a estas obras, respeitar as intenções dos autores, montar o programa com o melhor de nossas capacidades. E, ao fim, sentaremos e vocês me dirão o que acharam, se valeu a pena, se fez sentido, se algo na percepção deles se alterou”.

“Eterna III”, de Jaime Wolfson

Os músicos da orquestra jovem da universidade não são estranhos ao universo contemporâneo – seu diretor artístico é o compositor Harry Crowl, seu regente titular é Márcio Steuernagel. Mas aquele era um programa particularmente difícil e atípico: cerca de uma hora de música que, a todo instante, nos faz questionar a própria definição de música. Conversei rapidamente com alguns músicos na saída da apresentação. E a opinião de um deles me pareceu especialmente interessante: aquelas obras ganharam muito sentido não durante os ensaios mas sim ao longo da apresentação. O exemplo maior: a peça de Ablinger, executada na rua. “Você fica perdido no começo, não consegue se ouvir, tudo parece fora do lugar mas, de repente, o público vai ficando mais calmo, vai prestando mais atenção, você começa a ouvir seu colegas, que estão tocando do outro lado da rua, parece que vai para outro mundo.” Esse outro mundo talvez seja o de uma percepção aumentada – e não está nesse aumento do mundo do intérprete um caminho para a conquista de um espaço maior para a nova música? Na hora, me veio à mente a figura de Johannes Haase. O Myotis Kollektiv, do qual faz parte, prega a abertura estética e a improvisação dentro da criação contemporânea – e isso incluiu até uma sessão de jazz em um bar de Curitiba ao longo da semana. Ele me contou, no entanto, que nas semanas anteriores à ida a Curitiba, integrou o naipe de violinos da Kammerphilarmonie de Bremen, que fez no Teatro Municipal e na Sala São Paulo uma inesquecível integral das sinfonias de Beethoven, regidos por Paavo Järvi. A permeabilidade e o diálogo, que estão no cerne da temática oficial da Bienal Música Hoje, pode assumir diversas facetas – não se limita à criação, mas fala também do poder criativo do intérprete.

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