Zuza foi quem poderia ter sido, e isso foi muito
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Zuza foi quem poderia ter sido, e isso foi muito

Nas fotos, Zuza aparece sempre sorrindo, mas, talvez mais importante, fazendo sorrir os outros

Guilherme Sobota

05 de outubro de 2020 | 18h12

Não cheguei a conhecer pessoalmente Zuza Homem de Mello, mas o vi em diversos eventos de música em São Paulo. O que sei é que em todas as reuniões de pauta — quando os jornalistas de uma equipe, como a do Caderno 2, se reúnem para decidir o que deve sair no jornal nos próximos dias —, quando havia a ideia de “pedir um texto para o Zuza”, minha alma de estudante se alegrava, porque qualquer que fosse o assunto era um prazer ler o que ele escrevia.

Envaidecido, considerava inacreditável que eu mesmo ia colocar umas palavras nas mesmas páginas que o Zuza, sobre assuntos que ele não apenas dominava, mas sobre os quais teve influência decisiva na formação cultural brasileira.

Zuza Homem de Mello (1933-2020), sorrindo. Foto: Daniel Teixeira/Estadão - 13/8/2015

Zuza Homem de Mello (1933-2020), sorrindo. Foto: Daniel Teixeira/Estadão – 13/8/2015

Sempre foi emocionante, também, ouvir Zuza Homem de Mello conversar com o meu colega Julio Maria em lives nos canais do Estadão, e mais recentemente, acompanhar os passos finais de uma biografia de João Gilberto em que ele trabalhava. Era o jornalista musical mais importante do País escrevendo um livro — aos 87 anos! — sobre aquela outra entidade da música popular brasileira, um real encontro de gigantes, um livro ainda inédito que, certamente, vai transformar em palavras o conhecimento que em Zuza era sempre revestido de simpatia.

Na imensa maioria das fotos de Zuza que temos no acervo do jornal, ele aparece sorrindo e quase nunca está só — mas é a reação das outras pessoas, seja sua companheira Ercília, sejam músicos e produtores, da MPB e da música internacional, que chama atenção. Elas também sempre estão ou sorrindo, ou profundamente compenetradas no que o jornalista, pesquisador, técnico de som — um intelectual, sem qualquer das parcelas negativas da palavra — está falando ou contando.

Julio Maria, outro colega de profissão com quem aprendo diariamente e de quem tenho a sorte de ser, ao mesmo tempo, contemporâneo e aprendiz, já escreveu: “Como escrever a primeira matéria que Zuza não vai ler?”. Zuza lia as matérias dos jornais e neste domingo, o dia em que ele se foi, dormindo, como merecem enfrentar a morte todos os gigantes, se multiplicaram na rede relatos de jornalistas (mais velhos e mais jovens, de diversos veículos). Todos contaram uma história de quando Zuza escreveu um email ou fez uma ligação, falando sobre uma matéria do dia.

Numa vez que abri minha caixa de e-mails e seu nome apareceu na tela, primeiro não acreditei, achei que ele tinha errado o destinatário. Mas após alguns comentários sobre um texto meu — palavras que guardarei para sempre e que estimo como a um prêmio — ele compartilhou uma história sobre a vez em que recebeu Little Richard no Brasil, a qual, com a licença que não pude pedir ao autor mas como uma forma de homenagem, compartilho aqui com quem trombar nesse texto na internet.

Contou Zuza: “Nos primeiros programas de rock nacional no Teatro Record, as dublagens estavam em voga e os discos dele eram os campeões. Tive a felicidade de assistir um inesquecível show dele em New York e ainda recebê-lo quando veio ao nosso Free Jazz Festival e reclamou veementemente por não ter à disposição uma limousine daquelas compridas no aeroporto. Fui encarregado de acalmá-lo, o que fiz com o maior prazer por ser seu fã incondicional. Nada do que foi o rock na Inglaterra seria sem Little Richard. Tanto na ousadia musical francamente voltada para os blues/gospel quanto na instauração aberta da androginia na arte performática. Por tudo isso tenho tamanha admiração por esse King. Procure ouvi-lo em Milky White Way que dá a pista para se entender porque ele poderia ser quem foi”.

Zuza foi quem poderia ter sido, e isso foi muito.

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