‘É transcendental o que acontece com o público nos shows do Bad Seeds’, diz Warren Ellis
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‘É transcendental o que acontece com o público nos shows do Bad Seeds’, diz Warren Ellis

Principal parceiro de Nick Cave e destaque no palco com os Bad Seeds, Ellis diz que esta turnê é a melhor que já fizeram; leia a entrevista com o músico

Guilherme Sobota

13 Outubro 2018 | 06h00

Warren Ellis em show de sua banda alternativa, Dirty Three. Foto: Karsten Moran/The New York Times

Warren Ellis – o multi-instrumentista e compositor parceiro de Nick Cave há 25 anos – me deu uma entrevista alguns dias antes de chegar ao Brasil (a transcrição da íntegra vai abaixo).

Os Bad Seeds tocam em São Paulo no domingo, 14, e a ordem é não perder o show de jeito nenhum.

— Olá. Warren?

— Sim.

— Meu nome é Guilherme, sou jornalista aqui de São Paulo, Brasil.

— Que estranho. Eu peguei o telefone sem ele tocar e você estava aí. Como você está?

— (o jornalista não entende o que ele disse de primeira) Como você está?

— Estou bem, obrigado. Como você está?

— Estou bem também, obrigado. Então, você está em Santiago, é isso?

— Sim, sim. Onde você está?

— Em São Paulo.

— Ah, São Paulo. Fabuloso.

— Essa é sua primeira vez na América do Sul?

— Não, os Bad Seeds vieram em 1996. Tocamos 22 anos atrás aqui (risos).

— Que países, você lembra?

— Em Buenos Aires, Argentina e… Santiago, também. Não fomos ao Brasil. Foram esses dois países. É um pouco nebuloso.

— É?

— Sim, é. Era um tempo diferente.

— Você conheceu Nick logo depois do tempo que ele passou aqui em São Paulo, em 1993, é isso?

— Acho que sim. Ele estava vivendo em Londres quando o conheci, acho que ele deve ter se mudado para lá de São Paulo. Conheci ele no começo dos anos 1990 em Melbourne. Não tenho certeza de quando ele viveu em São Paulo, na verdade.

— Acho que foi entre 1991 e 1993, algo assim.

— Então foi logo depois, quando ele já estava em Londres.

— Certo, então vamos falar dos Bad Seeds. Todo álbum dos Bad Seeds tem sua própria atmosfera, embora eles, claro, sejam da mesma banda. Você tem essa sensação?

— Eu acho que sempre há uma tentativa, nas músicas e nas letras, de não se repetir. Mas eles vêm da mesma fonte. Eles se extraem do mesmo lugar, mas você quer que as coisas se movam de jeitos distintos em cada disco. O pior é quando soa como o anterior. Isso é o que você não quer que aconteça. Somos uma banda que não quer que esse seja o caso. Então, algumas bandas gostam disso, e os fãs querem que seja assim, porque se sentem seguros. O AC/DC faz os discos deles, e é fabuloso porque as pessoas gostam disso. E é demais. Nós somos uma banda que prefere tentar se mover com ideais e mudanças. Acho que isso faz parte das pessoas que somos. Então há uma atmosfera diferente. A formação da banda também muda, o que traz coisas diferentes. Mas o fio principal é Nick, ele é quem está ali desde o começo. Embora outros ali estejam há bastante tempo também. O line-up foi bem estável até recentemente. Temos Martyn, Jim, Thomy, Nick e eu que estamos na banda por 25 anos. É uma banda consistente. Mas certamente há uma tentativa de honrar as músicas. Não há uma resposta simples para essa pergunta.

— (começa a fazer outra pergunta, Warren fala algo). Vá em frente.

— Não, não, não. Diga.

— O que eu queria perguntar é como vocês montam o show a partir dessa ideia. Porque há algumas mudanças no clima.

— Como você monta um show? Acho que nós planejamos como apresentar as músicas ao vivo. O momento do show é muito diferente, e ele está diferente do que já foi. O show está incrivelmente extático, muito inspirador. É meio transcendental, algo acontece entre a audiência e a música que estamos tocando.Isso nunca aconteceu assim conosco antes. É um tipo de mudança realmente extraordinária. Há algo muito envolvente, o público é uma parte grande do show agora. Isso não era o caso no passado. Quer dizer, você estava consciente da audiência ali, mas agora há uma transação acontecendo. Uma troca de energia, que está conosco desde que começamos a turnê do Skeleton Tree.

— E o que aconteceu?

— Vem de uma empatia incrível do público. Skeleton Tree, dadas as circunstâncias do que aconteceu com Nick e sua família, foi um tempo muito emocional. Não sei. Mudanças aconteceram. Os shows subiram para outro nível. Os Bad Seeds sempre foram sobre “o que está funcionando agora”. Não é uma banda que se apoia nos louros do passado (você sabe o que isso significa?). É uma coisa que está se movendo continuamente. O fabuloso do que está acontecendo é que as pessoas querem as coisas novas tanto quanto Tupelo, Red Right Hand, o material antigo. As pessoas querem ouvir Jubilee Street, Distant Sky e… é muito encorajador para nós que as pessoas não estão esperando pelas canções antigas. É um sentimento maravilhoso para um artista

— Sim, sim. Eu acho que Push The…

— (interrompendo) Então na verdade quando sentamos para planejar os shows, estamos trabalhando em como apresentar o novo material, e saber como tocar o material antigo num jeito diferente. Ou pegar canções antigas que não tocamos há algum tempo. O foco está sempre no novo. O antigo cuida de si mesmo de alguma forma. O material velho é encaixado no jeito de pensar do novo material. Quando apresentamos uma turnê, sempre começamos com as músicas novas. Nunca fizemos uma turnê de greatest hits.

— Sim, isso é bom.

— A coisa realmente fabulosa no público do Bad Seeds é que eles querem embarcar com a gente. Eles querem vir junto aonde estamos indo. Eles estão realmente interessados, mais do que nunca, em ver aonde a banda está indo, para onde está se movendo, e onde Nick está indo, nas letras… Ele é uma das poucas pessoas com mais de 40 anos escrevendo letras e músicas.

— É bastante tempo.

— Ele é um dos grandes, cara. Um dos grandes.

— (risos) Eu também acho. E como isso func…

— (interrompendo) Ele realmente é, um dos grandes. Digo isso como alguém que trabalha muito próximo a ele.

— Bom, e que tal essa amizade? Como ela se consolida ao longo do tempo?

— Bem, há uma confiança mútua, desenvolvida com muitos projetos: os Bad Seeds, Grinderman, as trilhas sonoras. Há uma confiança de que podemos ir a qualquer lugar, sem vergonha de cometer erros. Um sentimento de você pode ir em qualquer direção. E isso é uma grande base para um relacionamento musical. Isso foi crescendo com o tempo, já tocamos juntos há mais de 20 anos.

— A maioria dos casamentos não dura tanto, certo?

— Não, acho que não. Relacionamentos antigos tem seus problemas, claro, mas o jeito que o nosso relacionamento criativo se desenvolveu tem sido de maneira lenta… mas ele acelerou e no momento está meio que no auge. Me sinto assim. A gente trabalha e faz as coisas sem conversar muito. Acontece de maneira natural e orgânica. Não consigo explicar bem. Espero que continue assim… é sobre confiança, sobre encorajamento, também sobre a banda. Saber que quando você entra em território desconhecido, isso pode ser meio assustador, mas é um bom lugar para ir.

— Legal. Como isso funciona no palco? É dito que os Stones no palco seguem Keith; os Bad Seeds seguem você ou seguem o Nick?

— Não, a banda é a banda, cada um segue o outro. Nick é, claro, o cantor, ele pode orquestrar as coisas de onde ele está. Ele pode fazer sinais, e a banda está tocando junta há algum tempo que simplesmente descobre o que fazer. É uma coisa mútua. Nick e a banda estão sempre trabalhando juntos. Provavelmente Martyn é o cara que seguimos, o baixista. Ele é o cara que arranja. Dependendo da música, o sentimento é mútuo entre a banda. Os Bad Seeds sempre foram uma banda interessante, porque é muito a soma de suas partes. Ela vai ganhando momentum conforme a batida, e uma vez que começa a se mover, é imparável. Estar no palco com os Bad Seeds é uma experiência extraordinária. São duas horas e meia que você simplesmente não tem na sua vida em qualquer outro lugar. Atualmente, a audiência é realmente uma parte disso. Estamos tocando em salas maiores, é simplesmente fantástico. Fez o show maior, o público sente que tem algo acontecendo no show. Então todos na banda sentimos um tipo de experiência enriquecedora. Todos fizemos muitos shows antes, mas esses têm sido simplesmente fora da curva. Eu não falo normalmente sobre coisas como essa, mas simplesmente foi para um novo nível. As audiências tem sido incríveis em todo o mundo. Sempre há um sentimento caloroso, um engajamento. A gente não sente só que as pessoas estão lá sentadas ouvindo, elas dão um passo a frente, para dentro de todo o evento. Há uma imersão real nessa turnê. Melhor emprego que eu já tive, cara.

— O quê (sem entender)?

— Melhor emprego que eu já tive.

— (risos) É legal ouvir você falar disso.

— To te dizendo. De várias maneiras, parece que estamos começando. É um relacionamento muito diferente, um tipo de energia diferente. É extraordinário. Eu toco por quase 30 anos e nunca vi nada parecido com isso.

— É mais comum uma banda estourar nos primeiros álbuns e depois disso tentar manter a forma. Com vocês é diferente.

— Sim. Estamos todos chegando nos 60 anos. Mas gente cada vez mais nova vem aos shows. É muito misturado. O público realmente mudou. Há os seguidores fiéis, mas gente nova que se conecta com os álbuns novos, depois conhece o material antigo. Eu não sei, são 35 anos de banda. Metade da audiência provavelmente não era nem nascida quando a banda começou. É maravilhoso que as pessoas queiram ouvir, você sabe, tudo, de todo o catálogo. Você sente isso quando vai ver uma banda antiga e as pessoas esperam as canções velhas. Não é o caso com a gente. É uma posição muito única.

— Push The Sky Away começa um novo ciclo, talvez mais pessoal, nas letras e na música. Skeleton Tree é também tão poderoso quanto. Você acha que há mais para ser dito nesse sentido?

— Eu sei que há mais.

— Tem?

— Sempre tem. Sentimos que Push The Sky Away começou um ciclo. Há algo de diferente naquele disco, no sentido de abrir mais as coisas. Há mais para ser dito.

— Você pode dizer se vocês estão trabalhando em novas canções?

— Sim, estamos.

— Uhum. Ok. Eu acho que poderia ficar aqui ouvindo você falar dos Bad Seeds por um tempo ainda, mas não quero tomar muito seu tempo.

— Pode perguntar.

— É legal porque você parece realmente comovido, bastante animado sobre o trabalho.

— Sim, eu estou. Estou sendo muito honesto sobre isso. Sempre amei tocar música ao vivo, foi por isso que comecei a fazer. Eu não curtia muito o estúdio no começo, mas durante o tempo fui ficando mais interessado. Gosto da ideia de viver o momento ao vivo, a energia. E recentemente mudou.

— São quase dois anos com essa turnê, agora.

— Sim, normalmente as turnês começam bem, e ao longo do tempo você vai cansando, elas se desgastam. Nessa turnê, desde o começo, ela só evoluiu, só cresceu. Os shows que estamos fazendo agora são tão bons e ainda mais evoluídos do que quando começamos. Isso é muito incomum para turnês. Toda noite algo acontece. As pessoas querem sentir algo, ver algo que signifique alguma coisa, se engajar em algo que tenha significado. Você sente isso no palco. O amor… a energia extraordinária.

— Acho que vocês vão sentir muito isso aqui…

— Oh, cara…

— Porque as pessoas aqui guardam com carinho o fato de Nick ter vivido aqui por alguns anos (risos).

— Tenho certeza que será assim. Será uma boa despedida da América do Sul.

— Você vai passar uns dias no Brasil, em São Paulo?

— Acredito que sim.

— Legal, aproveite. Vi que você tem postado fotos da turnê no Twitter. Acho que é isso, Warren.

— Certo, cara, se cuida.

— Obrigado pelo tempo e pela atenção.

— O prazer foi meu. Obrigado. Tchau.

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