‘Transpassar’: quatro poemas para comemorar o aniversário de São Paulo
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‘Transpassar’: quatro poemas para comemorar o aniversário de São Paulo

Guilherme Sobota

25 Janeiro 2017 | 10h43

TQ SÃO PAULO 17.01.2017 METRÓPOLE ESPECIAL ANIVERSÁRIO SP EXCLUSIVO EMBARGADO Destaque para a Praça da Sé. Fotos da cidade de São Paulo produzidas com celular Motorola. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO - TIRADA COM MOTO Z PLAY + HASSELBLAD TRUE ZOOM

Centro de SP, Praça da Sé. O fotógrafo Tiago Queiroz fez um ensaio especial para comemorar o aniversário da cidade (veja mais fotos abaixo). Foto: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO – TIRADA COM MOTO Z PLAY + HASSELBLAD TRUE ZOOM

São Paulo comemora nesta quarta-feira, 25, 463 anos, e um passeio pelo centro histórico da cidade comprova o potencial literário que qualquer urbanidade guarda, mas esta em específico.

Para comemorar a data, a editora SESI-SP está lançando Transpassar, uma interessante coletânea de poemas organizada por Carlos Felipe Moisés e Victor Del Franco. No livro há textos (incluindo alguns inéditos) de Glauco Mattoso, Tarso de Melo, Fernando Paixão, Elisa Andrade Buzzo e Leila Guenther, entre outros.

O lançamento ocorre ainda nesta quarta-feira, 25, às 17h, na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37) e contará com a presença de alguns dos autores. Após o evento, às 20h, será exibido o filme São Paulo, Simphonia da Metrópole (1929), com execução ao vivo da trilha sonora pelo maestro Livio Tragtenberg.

Selecionei alguns poemas de Transpassar para comemorar a data e ironizar e dar uma colorida na São Paulo de janeiro de 2017.

REAL GRANDEZA (de Carlos Machado)

A rua Real Grandeza
abriu mão
da fidalguia
e passou a se chamar
austera e burguesa
avenida Paulista.

Mas na periferia
da cidade
restaurou-se a antiga
pompa: surgiu
outra rua Real Grandeza
na Vila Brasilândia.

Lá o esplendor
real assenta-se
triunfante
junto à Favela do Inverno
e o Morro do Piolho.

*

SONNETO PARA UM VERDE QUE SE PERDE [SONNETO 2336] (de Glauco Mattoso)

O cheiro de xixi, pela cidade,
attinge o poncto maximo no centro,
logar onde, faz tempo, ja nem entro,
pois nada alli resiste que me aggrade.

“Havia, na avenida juncto à grade
do parque, a ilha verde. Hoje, concentro
o olhar e, cada vez mais para dentro
da grade, até ao gramado o asphalto invade…”

Me disse assim o amigo que visita
São Paulo raramente, e melhor nota
as más transformações, como a descripta.

Si nada vejo e perco minha quota
de verde, eu me lamento. Mais se irrita
quem vê como a cidade se desbota!

*

CAUSANDO NA CITY (de Paulo César de Carvalho)

fui pra farra
caí de napa
na lapa
mostrei a bunda
me livrei de uma barra
na barra funda
tomei uma birita
no bixiga
arrumei uma briga
entrei na contramão
no carrão
me perdi
em perdizes
perdi a direção
na vila aída
e o juízo
na joaniza
vi o inferno
no paraíso
fui preso
na liberdade

melhor mudar
ou mudar de cidade

*

SPAZZIO PIRANDELLO (de Rodolfo Guttilla)

 “ao chão real onde todos os sonhos se reúnem”

Carlos Felipe Moisés

 

sonho de uma noite de verão

em sampaulo

onde mais?

rua Augusta

esse lugar comum

e inesperado

 

você queria beijar

todas as meninas

da cidade (

não se preocupe

com as rejeições

ó meu

você já foi esnobado antes

)

 

sua divisa

era um grafite

rabiscado

no prédio novo da PUC

 

“para curar um amor

platônico

só mesmo

uma trepada

homérica”

 

comandado pelo baixo ventre

você não sabia

que o amor

é apenas

uma ideia

e o que se ama

é aquilo que não se tem

você tomou umas cervejas

no Spazzio Pirandello

e foi à luta

 

na manhã seguinte

saiu de fininho

pisando o chão real

onde todos os sonhos se reúnem

sem saudar

o entregador de jornal

em suspeitoso solilóquio

pequeno burguês (

 

esse papo era tão chato

você se lembra?)

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