‘Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band’ 50 anos: faixa a faixa
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‘Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band’ 50 anos: faixa a faixa

Disco clássico dos Beatles ganha remixagem e é cercado por histórias interessantes

Guilherme Sobota

01 de junho de 2017 | 11h30

Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band está de aniversário e ganhou uma nova remixagem, que talvez seja a definitiva – produzida por Giles Martin, filho do produtor George Martin. Giles explicou um pouco do processo de produção do novo mix em entrevista ao Estado.

“Não existe truque ou milagre, lamento dizer, senão rodar matrizes de qualidade”, disse Martin a Marcelo Fróes. “A tecnologia atual nos permite voltar aos multicanais de cada sessão original. Em 1967, a banda, meu pai e o engenheiro Geoff Emerick só tinham 4 canais para trabalhar. Eles preenchiam os quatro primeiros canais e aí os mixavam num único canal de uma segunda fita, liberando três canais para mais gravações, num processo que às ocorreu até três ou quatro vezes. Cada mixagem de canais desse tipo gerava uma certa perda na qualidade de áudio, já que eram cópias analógicas. Hoje eu e Sam Okell conseguimos remixar a partir de cada canal, diretamente da fita original, e de repente a gente ouve sons que sempre estiveram lá, mas que agora soam mais claramente.”

ARQUIVO 31/05/2017 CADERNO2 / CADERNO 2 / C2 / USO EDITORIAL RESTRITO / Disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, ganha nova versão para a comemoração dos 50 anos de lançamento Crédito: Universal Music

Beatles em sessão de fotos do Sgt. Pepper’s. Crédito: Universal Music

Sgt Pepper’s é considerado por muita gente o álbum fundamental de rock de todos os tempos, mas hoje já é comum encontrar furos na história de que seria o primeiro disco conceitual da música popular. O próprio Ringo Starr disse uma vez que o álbum era “um punhado de canções, uma pitada de pimenta e é um álbum conceito. Funcionou porque nós dissemos que funcionou”.

A nova remixagem tem sido bastante elogiada pela crítica de língua inglesa, e numa primeira audição aqui a impressão é a mesma: o álbum está mais vívido, ainda mais colorido, os sons mais distinguíveis. E numa obra de 50 anos de idade isso é realmente espantoso.

Com ajuda do livro The Beatles: Todas as Músicas. Todas as Letras. Todas as Histórias, de Steve Turner, que a Sextante lançou no fim de 2016 aqui, fiz um faixa a faixa do Sgt. Pepper’s.

1) Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band

Paul desenvolve o personagem para tentar desprender a imagem dos Beatles da própria banda, e assim criar uma música mais livre. Ajudou a definir a ideia de o álbum ser conceitual, também por ser executada novamente antes de A Day in the Life, mas os historiadores da música já acreditam que o conceito para por aí.

2) With a Little Help From My Friends

A música foi feita por Lennon/McCartney para Ringo. “Eles sabiam que teria que ser para crianças, que desse para cantar junto. Era o que achavam que faltava ao álbum”, diz o jornalista Hunter Davies – um dos primeiros a testemunhar o processo de composição da dupla, justamente dessa música, na tarde de 29 de março de 1967 na casa de Paul, na Cavendish Avenue.

3) Lucy In The Sky With Diamonds

A frase é de Julian Lennon, que no início de 1967 mostrou a John um desenho de sua amiga Lucy O’Donnell, então com 4 anos, no céu com diamantes. Trechos da canção foram inspirados em Alice no País das Maravilhas (um dos livros favoritos de Lennon) e no programa de rádio The Goon Show, clássico do humor britânico nos anos 1960. Lennon sempre negou que o título tivesse a ver com o LSD.

4) Getting Better

A canção tem a ver com o baterista Jimmy Nicol, que em junho de 1964 substituiu Ringo em alguns shows dos Beatles pela Europa. Segundo as histórias, tudo que Nicol dizia quando Paul e John iam perguntá-lo como estavam as coisas era “it’s getting better”. A letra equilibra o entusiasmo de Paul pelo sentimento de “tudo estar melhorando” por conta do amor e a violência reprimida de John.

5) Fixing a Hole

Muito se supõe que a canção tenha a ver com heroína, mas Paul jura que é sobre pintar um buraco numa parede rachada – num sentido metafórico, sobre consertar a própria vida e tapar rachaduras pelas quais “os inimigos da criatividade se infiltram”.

6) She’s Leaving Home

A canção é baseada numa reportagem que Paul leu sobre uma garota que fugiu de casa – Melanie Coe, um caso clássico do conflito de gerações que marcou o fim dos anos 1960. Numa incrível coincidência, ela havia ganhado um prêmio do programa de TV Ready Steady Go!, bem no dia em que os Beatles se apresentaram – há uma foto dos quatro tocando com a garota ao fundo.

7) Being for the Benefit of Mr. Kite!

Lennon comprou um cartaz antigo de uma apresentação circense que seria “em benefício do Sr. Kite”. Ele a princípio não gostou da canção, mas em 1980 disse a um repórter da Playboy que “ela é tão cosmicamente linda…a canção é pura, como uma pintura, a mais pura aquarela”.

8) Within You Without You

George se interessava pelo pensamento oriental desde 1965, quando descobriu a cítara, e essa é sua primeira declaração explícita sobre esse conhecimento. Nenhum outro Beatle estava presente na gravação, e George Martin teve que escrever partituras para músicos ingleses e indianos. A risada no fim é do próprio Harrison.

9) When I’m Sixty-Four

Paul diz ter feito esta melodia quando tinha uns 15 anos, por volta de 1957. Com influência do pai, ele escreveu uma letra levemente sarcástica na música mais solar do disco. John dizia que nunca escreveria algo assim.

10) Lovely Rita

“Meter maid” quer dizer guarda de trânsito que fiscaliza carros estacionados – algo estranho para os ingleses acostumados com parquímetros. Paul então teve a ideia de imaginar um funcionário de escritório que ao receber uma multa tenta seduzir a moça.

11) Good Morning, Good Morning

Paul dominou a produção do disco justamente porque John passava tempos alojado na vida doméstica – seja cuidando da família ou se chapando. Supostamente, a frase título foi inspirada em um comercial de cereais que John viu na TV nesse período.

12) A Day in the Life

Essa é considerada a faixa mais ambiciosa do disco. Na verdade, eram duas canções. Uma de Lennon, inspirada em eventos reais lidos nos jornais (um acidente de carro envolvendo Tara Browne, jovem rapaz londrino que introduziu Paul McCartney ao LSD; o filme Como Ganhei a Guerra, do qual John participa como ator; uma pesquisa sobre os buracos nas ruas de Blackburn), e uma de McCartney, uma reflexão mais ou menos inocente sobre uma manhã na vida de um jovem estudante em Liverpool.

Nas palavras de Turner, “a genialidade da produção se encontrava na costura das duas canções para criar movimentos distintos e o uso de uma orquestra entre as duas sessões e no final. Este arranjo a transformou em uma peça sobre dois níveis de consciência ou duas formas de se enxergar o mundo, em que observações mundanas sobre acidentes e a rotina matinal são interrompidas pelo som da transcendência que se aproxima”.

THE BEATLES. TODAS AS MÚSICAS. TODAS AS LETRAS. TODAS AS HISTÓRIAS

Autor: Steve Turner

Trad.: Jaime Biaggio

Ed.: Sextante (352 págs., R$69,90, capa dura)

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A nova remixagem de Giles Martin está sendo lançada em diversas versões (do LP ao digital), e algumas incluem takes de gravação, como este:

ARQUIVO 31/05/2017 CADERNO2 / CADERNO 2 / C2 / USO EDITORIAL RESTRITO / Disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, ganha nova versão para a comemoração dos 50 anos de lançamento Crédito: Universal Music

A clássica capa de ‘Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band’

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O blog entra em férias. Volto em julho.

 

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