Por que diabos os personagens de ‘Chernobyl’ falam em inglês?
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Por que diabos os personagens de ‘Chernobyl’ falam em inglês?

Propósito da série era reconstituição fiel, mas 'adaptações' como essa a transformam apenas num brilhante entretenimento

Guilherme Sobota

11 de junho de 2019 | 12h00

Nas primeiras imagens de Chernobyl, a série da HBO mais bem avaliada na história do iMDB, a voz inconfundível de Jared Harris começa a narrar alguns acontecimentos, mas a princípio o espectador desavisado não sabe bem quem ele é. Ele fala no seu inglês britânico pausado, preocupado.

Na cena seguinte, Jessie Buckley e Adam Nagaitis, um casal comum em Prypiat, a cidade a 3 km da usina, testemunha o acidente pela janela. Não há diálogos, ainda.

Na cena seguinte, já estamos dentro da sala de controle da usina de Chernobyl, onde os trabalhadores aos poucos vão tentando entender o que se passa. A primeira palavra que se ouve é: “comrade“.

Eu não sei nada de russo, mas sei que comrade é uma palavra inglesa (“товарищ” é a palavra em russo, segundo o Google Tradutor, tovarishch).

Então é o seguinte: a série que se propôs a reconstituir de maneira fundamentalmente fiel o episódio nuclear mais grave da história, ocorrido em solo soviético, decidiu que os soviéticos falam inglês.

Cena de ‘Chernobyl’. Escritos aparecem em russo. Atores falam inglês. Foto: HBO

Em um tom mais pessoal, confesso que essa constatação quase me fez desligar o computador e continuar a ler o incrível O Mundo da Escrita, de Martin Puchner (um livro, veja bem, traduzido do inglês).

A intensa repercussão global, o dever do ofício e uma certa teimosia me fizeram continuar: e a série, é claro, é muito boa, ultrapassa em muitos níveis qualquer coisa feita sobre a Rússia em matéria audiovisual hollywoodiana nos últimos anos.

“É meio inevitável”, me disse o jornalista e tradutor Irineu Franco Perpétuo, num papo sobre o assunto por telefone. Ele ainda não tinha visto a série, portanto, falamos em tese. “Só numa série feita na Rússia daria para fazer com todos os atores falando em russo. Mesmo com alguns filmes grandes de guerra, como Bastardos Inglórios, em que eles põem os nazistas falando alemão, é muito raro.”

Ele cita também o belo Filho de Saul — falado em alemão, húngaro, polonês, iídiche, russo, eslovaco, checo e grego. A diversidade linguística é uma força artística poderosa, que afinal levou o filme ao Oscar de melhor estrangeiro.

“Mas numa produção americana? É muito difícil”, diz Irineu, e tem razão. Os exemplos são milhares, mas basta lembrar do papelão por qual a boa série Billions passou ao escalar John Malkovich no papel do bilionário russo Grigor Andolov, falando inglês com um sotaque russo caricatural. “Gera um efeito Skavurska”, brinca Irineu.

A resolução de Chernobyl, nesse cenário, é melhor: todos os atores, na maioria britânicos, falam com seus sotaques comuns. Sem forçar. E sem atores americanos, numa mínima deferência à história do mundo.

Qual é a solução? Nem eu nem Irineu chegamos a um acordo, mas uma coisa é certa: TV, meio de massa, feito exclusivamente para atingir o número máximo de pessoas, nos EUA, inglês. O cálculo é irritantemente simples.

Mas fica ainda mais irritante na voz de Craig Mazin, o roteirista de Se Beber Não Case 2 e 3, showrunner de Chernobyl. “Para mim, não é uma questão de jingoísmo ou nacionalismo porque você quer ser autêntico. Mas se fizermos em uma língua diferente, estamos restringindo para as pessoas que falam aquela língua, e não fizemos, então há uma desconexão aí”, disse ele numa entrevista na Inglaterra.

Não vou nem começar a explicar como isso não faz o menor sentido. Legendas existem há muitas décadas.

“Mesmo falando sobre sotaques, não queríamos mexer com isso também, apenas falar numa maneira natural, porque, no final, a linguagem deveria desaparecer. É por isso que colocamos algumas coisas em russo na série e esperamos que, de um jeito, isso apenas desapareça”, falou Mazin.

Aí estamos falando de uma visão de mundo diametralmente oposta. Linguagem desaparecer? Que horror.

E em comparação com a tradução literária? O paralelo é injusto, porque qualquer paradigma é diferente entre um livro de não-ficção, por exemplo, e uma série de TV, ficcional. Mesmo assim, é interesse pensar nesse conceito.

“Nós somos mediadores na tradução”, explica Irineu. “Não só da língua, mas de culturas também. O tradutor adapta conceitos culturais. O que determina uma nota de rodapé, por exemplo, é quando a palavra simplesmente não se transpõe para outra cultura.”

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Falando nisso, Svetlana Aleksiévitch não é citada nos créditos da série, apesar de ter cedido, via contrato, histórias para a HBO. Fale em apropriação cultural…

Vozes de Tchernóbil é um livro muito poderoso.

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Uma matéria da New Yorker explica como Chernobyl erra em diversos aspectos da cultura soviética, embora a maioria das críticas, mesmo de russos e de pessoas que cresceram lá, admita que a série captou o ambiente político do lugar.

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Os cinco episódios de Chernobyl estão disponíveis no HBO Go.

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