Philip Roth: trechos
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Philip Roth: trechos

Obra do escritor americano compõe verdadeiro painel sobre humanidade, história do ocidente, sexualidade e relações familiares

Guilherme Sobota

23 Maio 2018 | 09h56

Philip Roth morreu no dia 22 de maio de 2018. Como os grandes humanistas de seu tempo, provavelmente ele estava pronto (“I’m ready, my Lord”, disse Leonard Cohen 15 dias antes de partir). Roth se aposentou da ficção em 2010, mas no início de 2018 deu uma entrevista ao The New York Times provando que continuava o que sempre foi: um gênio de raciocínio claro e proposições inteligentes.

RETRANSMISSION TO DELETE REFERENCE TO STORY AND OFFER AS STAND-ALONE PHOTO -- Seen in reflection, the author Philip Roth, at home in Manhattan?s Upper West Side, Jan. 5, 2018. Roth stopped writing about seven years ago, and now reads, mainly American history and modern European history. ?Reading has taken the place of writing, and constitutes the major part, the stimulus, of my thinking life,? Roth said. (Philip Montgomery/The New York Times)

Philip Roth no seu apartamento no Upper West Side, Manhattan, em 5 de janeiro de 2018. Foto: Philip Montgomery/The New York Times

Separei alguns trechos da sua ficção (são seus narradores falando, portanto). Porque, ao menos, teremos sua obra para nos acompanhar, também, até o fim.

Doutor, qual é o nome dessa doença que eu tenho? Será o tal sofrimento judaico de que tanto falam? Foi isso que sobrou para mim em consequência dos pogroms e das perseguições? dos deboches e xingamentos que os góis despejaram sobre nós nesses dois maravilhosos milênios? Ah, meus segredos, minha vergonha, minhas palpitações, meus rubores, meus suores! A maneira como eu reajo às vicissitudes mais simples da vida humana! Doutor, não aguento mais viver desse jeito, com medo de tudo e de nada! Me conceda a virilidade! Me faça ficar corajoso! Me faça ficar forte! Me faça ficar completo! Chega de ser um bom menino judeu, agradando meus pais em público e esfolando o ganso no meu quarto! Chega! (O Complexo de Portnoy, Companhia das Letras, 2004, tradução Paulo Henriques Britto)

Será que as pessoas têm todo o equipamento, cérebro, medula espinhal, os quatro buracos nos ouvidos e olhos — um equipamento, sra. Nimkin, quase tão impressionante quanto uma televisão a cores — e mesmo assim vivem a vida inteira sem entender absolutamente nada sobre os sentimentos e anseios de pessoas que não sejam elas mesmas? (O Complexo de Portnoy, Companhia das Letras, 2004, tradução Paulo Henriques Britto)

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Vida e arte são coisas distintas, pensou Zuckerman; o que pode ser mais óbvio que isso? Mas a distinção é para lá de elusiva. O fato de uma narrativa ser obra da imaginação é algo que parece surpreender e irritar a todos. (Zuckerman Acorrentado, Companhia das Letras, 2011, tradução Alexandre Hubner)

As revistas masculinas, somadas, têm trinta milhões de leitores. É mais do que o total de votos do McGovern na eleição de 1972. Se as revistas masculinas tivessem se reunido e feito uma convenção e lançado um candidato, o cara teria ficado na frente do George McGovern. Tem mais homens comprando revistas para bater punheta do que pessoas vivendo na Holanda, na Bélgica, na Suécia, na Finlândia e na Noruega juntas. (Zuckerman Acorrentado, Companhia das Letras, 2011, Alexandre Hubner)

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Sempre fui sensível à beleza física das mulheres, mas, com Helen, não fico apenas intrigado e estimulado: sinto-me também alarmado e profundamente incerto, completamente subjugado pela autoridade com que ela faz jus à sua beleza, tornando-a singular […] (O Professor de Desejo, Círculo do livro, Tradução: Gabriella de Mendonça Taylor)

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Persiste o fato de que entender direito as pessoas não é uma coisa própria da vida, nem um pouco. Viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estando errados. Talvez a melhor coisa fosse esquecer se estamos certos ou errados a respeito das pessoas e simplesmente ir vivendo do jeito que der. Mas se você é capaz de fazer isso… bem, boa sorte. (Pastoral Americana, Companhia das Letras, 1998, tradução: Rubens Figueiredo)

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Em matéria de encantamento, o sexo por si só já basta. Será que os homens acham as mulheres tão encantadoras quando o sexo é omitido? Será que alguém, qualquer que seja o sexo, acha alguém encantador se não houver nada de sexual entre eles? Tem alguém que encanta você sem ser por isso? Não tem. (O Animal Agonizante, Companhia das Letras, 2006, tradução Paulo Henriques Britto)

Pois no sexo não há um ponto de equilíbrio absoluto. Não existe igualdade sexual, não pode haver igualdade sexual, uma igualdade em que as duas partes sejam iguais, em que o quociente masculino e o quociente feminino estejam perfeitamente equilibrados. Não há como negociar de modo medido essa loucura. (…) O que está em jogo aqui é o caos de eros. (…) Na hora do sexo, todos nós voltamos para a selva. Voltamos para o pântano. (O Animal Agonizante, Companhia das Letras, 2006, tradução Paulo Henriques Britto)

Porque é só quando você fode que tudo aquilo de que você não gosta na vida, tudo aquilo que derrota você na vida, é vingado da maneira mais pura, ainda que efêmera. É só nesse momento que você está vivo do modo mais limpo, que você é você mesmo do modo mais limpo. Não é o sexo que é corrupção – é o resto. Sexo não é só atrito e diversão superficial. É também a maneira como nos vingamos da morte. Não se esqueça da morte. Não se esqueça da morte jamais. É verdade, também o sexo tem um poder limitado. (…) Mas me diga uma coisa: existe poder maior? (O Animal Agonizante, Companhia das Letras, 2006, tradução Paulo Henriques Britto)

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A morte intervém para simplificar tudo. Todas as dúvidas, todas as hesitações, todas as incertezas são varridas pelo fator que reduz tudo isso a nada — a morte. (A Marca Humana, Companhia das Letras, 2002, tradução: Paulo Henriques Britto)

O que as putas lhe ensinaram, a grande sabedoria das putas: ‘Os homens não pagam a gente pra dormir com eles. Eles pagam pra gente ir embora’. (A Marca Humana, Companhia das Letras, 2002, tradução: Paulo Henriques Britto)

Um pequeno símbolo, se fosse necessário, de todas as milhões de circunstâncias da vida daquele outro indivíduo, daquela enxurrada de detalhes que constituem a confusão de uma biografia humana — um pequenino símbolo que chamava a minha atenção para o motivo pelo qual nossa compreensão das pessoas é sempre, na melhor das hipóteses, ligeiramente equivocada. (A Marca Humana, Companhia das Letras, 2002, tradução: Paulo Henriques Britto)

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Para o menino que a via se debatendo naquela dúvida angustiada (e que estava ele próprio tremendo de medo), tudo aquilo representava uma descoberta: eu descobrira que não havia como fazer uma coisa certa sem também fazer algo errado, tão errado que, especialmente numa situação de caos em que tudo estava em jogo, o melhor a fazer talvez fosse esperar e não agir — só que não fazer nada também era fazer alguma coisa… em circunstâncias como aquela, não fazer nada era fazer muita coisa —, e descobrira também que, até mesmo para uma mãe que a cada dia combatia de modo metódico o fluxo desornado da vida, não havia sistema que desse jeito numa trapalhada sinistra como aquela. (Complô Contra a América, Companhia das Letras, 2015, tradução: Paulo Henriques Britto)

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Qual o propósito da evolução ao fazer que apenas um em um milhão tivesse a aparência do rapaz que estava diante de mim? Qual a função de tal beleza, se não chamar a atenção para as imperfeições dos demais? Embora eu não tivesse sido abandonado pelo deus da aparência, o padrão brutal estabelecido por aquele modelo de excelência me transformava, quando comparado a ele, em monstruosa mediocridade. Ao falar com ele eu tinha de afastar os olhos porque seus traços eram perfeitos demais, sua aparência tão humilhante, tão insultuosa — tão relevante. (Indignação, Companhia das Letras, 2009, tradução Jorio Dauster)

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