Patti Smith, 70 anos
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Patti Smith, 70 anos

Guilherme Sobota

30 Dezembro 2016 | 07h00

Patricia Lee Smith completa nesta sexta-feira, 30, 70 anos de idade, e com tudo que aconteceu em 2016, ela segue sendo alívio e fonte de inspiração no meio do caos.

Hoje, 30, e sábado, 31, ela faz dois shows comemorativos em Chicago, onde nasceu. Para 2017, há shows já marcados em Detroit e na Austrália. Ela nunca tocou em São Paulo, mas em abril deste ano, prometeu que viria…

Patti Smith performs on the Pyramid stage at Worthy Farm in Somerset during the Glastonbury Festival in Britain, June 28, 2015. REUTERS/Dylan Martinez

Patti Smith no palco do Glastonbury, em junho de 2015. Foto: REUTERS/Dylan Martinez

Em 2016, Patti protagonizou um dos momentos mais tocantes do ano quando se apresentou na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de Literatura, em Estocolmo. Naturalmente, ela escolheu uma canção de Bob Dylan, e a sua interpretação deu nova vida para A Hard Rain’s A Gonna-Fall, uma poesia folk que Dylan escreveu em 1962 inspirada em baladas antigas.

Quando lembrarmos do oceano de lodo que lavou 2016, podemos também reviver esses 8 minutos e 23 e tentar encontrar alguma redenção.

Em setembro desse ano, Patti lançou um álbum com o Soundwalk Collective, grupo eletrônico de Nova York, e com sua filha Jesse Paris Smith. Killer Road usa letras de Nico (Christa Päffgen, 1938-1988), narradas por Patti em cima da ambiência criada pelo coletivo, que foi buscar sons in loco em Ibiza, praia espanhola em que Nico morreu.

O álbum é estranho e passou mais ou menos despercebido, mas tirem suas próprias conclusões. A questão é que é Patti fazendo uma das coisas que ela faz bem, recitar.

Patti Smith nasceu no dia 30 de dezembro de 1946 em Chicago, mas viveu sua infância primeiro na Filadélfia, e depois em Nova Jersei, e em 1967 se mudou para Nova York, onde se estabeleceria como uma das mais criativas e agressivas poetas do rock ‘n roll.

Seu álbum Horses, de 1975, é um marco em que ela cavou suas diversas influências, como Jim Morrison e o Velvet Underground, para misturar o spoken word com o punk rock que testemunhava surgir nas ruas de Manhattan.

Desde Horses, foram outros 10 discos de estúdio numa carreira irregular em lançamentos — ela passou um longo período isolada com a família e o marido, Fred Sonic Smith, morto repentinamente em 1994 aos 45 anos. A perda do amor de sua vida é uma chaga que perpassou todo o trabalho de Smith nos últimos 20 anos, incluindo seus dois livros de prosa, Só Garotos (vencedor do importantíssimo National Book Award) e Linha M, especialmente este último.

TIM34 RJ 28/10/2006 - TIM FESTIVAL 2006/RIO - CADERNO 2/VARIEDADES OE JT - Patti Smith se apresenta na tenda TIM-Stage, Quarta edição do TIM Festival com mais de 30 atrações do melhor cenário musical e internacional realizado na Marina da Glória no Aterro do Flamengo zona sul do Rio. Foto: FABIO MOTTA/AGENCIA ESTADO/AE

Patti Smith e Lenny Kaye, em show na Marina da Glória, no Rio, em outubro de 2006. Foto: Fábio Motta/Estadão

Dia desses, um amigo, fã de Smith, disse que estava decepcionado com ela este ano, por três razões principais — as mesmas três que me fazem admirá-la a ponto de lhe considerar uma tia querida distante: Linha M, ela ter dito que Bob Dylan não deveria ter levado o Nobel de Literatura e o seu erro na performance de A Hard Rain, na cerimônia em Estocolmo.

Linha M, que ganhou edição brasileira em 2016, é um livro inclassificável, que vai de um diário de viagem a um delicado memorial de seus parentes mortos (as passagens sobre Fred são comoventes, e guardam um potencial que Patti deve explorar em um livro futuro). O acerto de M Train é diametralmente oposto ao de Só Garotos – e é nessa busca contínua pelo diferente em que residem os grandes artistas.

A escolha de Bob Dylan para o Nobel foi sem dúvida interessante, mas há mais de um milhão de maneiras de abordá-la; considerar que o Prêmio poderia ter sido entregue a um prosador, como ela se refere a Murakami, é, acredito, uma das mais justas.

E o erro na cerimônia… Vou deixar Patti falar (numa tradução tacanha, perdão por isso): “Os acordes iniciais da canção foram introduzidos, e eu me escutei cantando. A primeira estrofe foi passável, um pouco tremida, mas eu estava certa que me acomodaria. Mas ao invés disso fui atingida por uma pletora de emoções, crescendo com tanta intensidade que fui incapaz de negociá-las. Do canto meu olho, eu via o grande suporte do boom da câmera de televisão, e todos os dignatários no palco e as pessoas além. Desacostumada a casos nervosos tão extremos, fui incapaz de continuar. Eu não havia esquecido as letras que agora eram parte de mim. Eu estava simplesmente incapaz de colocá-las para fora.

“Esse fenômeno estranho não diminuiu ou passou mas ficou, cruelmente, comigo. Fui obrigada a parar e pedir perdão e depois tentar de novo e cantar com todo o meu ser, ainda que tropeçando. Não estava perdido em mim que a narrativa da canção começa com ‘Eu tropecei ao longo de doze montanhas enevoadas’ e termina com o verso ‘E eu vou saber minha canção bem antes de começar a cantar’. Quando sentei no meu lugar, eu senti a ferroada humilhante do fracasso, mas também tive a estranha realização de que havia de algum modo entrado e vivido verdadeiramente o mundo das letras.” (O restante desse texto está na The New Yorker).

É isso que Patti nos faz experimentar nesses anos todos: entrar e viver, verdadeiramente, num mundo de palavras e canções.

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