‘Pastoral Americana’ enterrou a ideia de sonho americano do século 20
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‘Pastoral Americana’ enterrou a ideia de sonho americano do século 20

Não é exagero dizer que o livro de Philip Roth concluiu o século 20 na ficção literária mundial

Guilherme Sobota

23 Maio 2018 | 13h50

Pastoral Americana, de Philip Roth, me deixou com insônia quando o li pela primeira vez, em 2013.

No livro, o narrador é Nathan Zuckerman, a essa altura conhecido de todos. Na primeira das três partes, ele narra em primeira pessoa sua experiência com Seymour Levov, o Sueco.

A convivência entre os dois se dá na escola secundária, quando Sueco era um atleta excepcional e ídolo secreto de Zuckerman. Nathan era amigo de Jerry, irmão do Sueco (Jerry, mais tarde, é o máximo).

Muitos anos depois, Sueco e Zuckerman se encontram novamente, duas vezes. É a partir do segundo que Zuckerman escreve o que escreve, as duas partes finais do Pastoral Americana (que junto com A Marca Humana e Casei com um Comunista formam a Trilogia Americana).

(FILES) This file photo taken on March 02, 2011 shows US novelist Philip Roth during a ceremony at the White House in Washington DC, where he recieved the National Humanities Medal.      American author Philip Roth has died at the age of 85, according to May 22, 2018 US media reports.  / AFP PHOTO / Jim WATSON

Philip Roth na cerimônia na Casa Branca na qual ele recebeu a National Humanities Medal, em 2 de março de 2011. Foto: Jim Watson / AFP Photo

Aí o desgosto que o livro provoca é proporcional àquela impressionante habilidade literária que Roth tinha aos 64 anos, em 1997. A história do cara bonitão, que herda a fábrica de luvas do pai, se casa, vai morar em uma região rural de New Jersey e tem uma filha que se revolta contra a Guerra do Vietnã — abastecendo uma série de confusões, explosões e mal-entendidos — é emocionante, espetacular, trágica e inesquecível.

A narração de Zuckerman (na tradução de Rubens Figueiredo) mistura a terceira pessoa, reflexões, pensamentos e suposições do Sueco, e faz o livro de 500 páginas voar. Os temas, sempre presentes na obra de Roth, são igualmente irresistíveis: conflitos familiares levados ao extremo, dificuldade com a sexualidade, judaísmo, e, claro, a América.

O “narratário” desse livro, no conceito de Vincent Jouve, é o leitor americano de Zuckermann (“Pelos temas que aborda e pela linguagem que usa, cada texto desenha no vazio um leitor específico. Assim, o narratário (esse leitor ideal), da mesma forma que o narrador, só existe dentro da narrativa: é apenas a soma dos signos que o constroem”, explica Jouve).

Esse pensamento nos leva para uma reflexão de Rubens Figueiredo (anotada por mim):

“Ao ler com atenção os livros deles (Susan Sontag e Paul Auster, mas supõe-se que outros grandes americanos), você não encontra críticas a respeito da distribuição desigual de poder no mundo. O postulado desses autores pode ser entendido como ‘os Estados Unidos dominam e é bom que seja assim’. […] Estou traduzindo um livro que, a cada dez páginas, o autor fala em povo americano, democracia americana, sociedade americana, os Estados Unidos. É impressionante. E nós lemos e não percebemos isso. Não percebemos porque o nosso pressuposto é que isso é normal. Mas isso não é normal”.

“Eu quero viver de verdade”, dizia Leminski, “eu fico com o cinema americano”.

Parte do imaginário ocidental (e brasileiro, em específico) é moldada pela indústria americana, então não é surpresa que um livro como esse tenha tanta ressonância por aqui, também.

Diz Roth (Zuckermann):

A ruptura do futuro americano previsto, que consistia simplesmente no desenrolar do consistente passado americano, no fato de cada geração se tornar mais esperta que a anterior — mais esperta por conhecer as inadequações e limitações das gerações precedentes — , […] no desejo de ir até o limite na América apoiados nos nossos direitos, […] de forma a levar a vida sem ter de pedir desculpas, como um igual entre iguais.

E então a perda […] — iniciando o Sueco no desajuste de uma América completamente distinta, a filha e a década fazendo picadinho da sua forma particular de pensamento utópico, a América da peste se infiltrando no castelo do Sueco e, ali, infectando todo mundo. A filha que o transporta para fora da sonhada pastoral americana […].

A Pastoral é o sonho americano, the american dream, the american way of life, the wellfare state, the motherfucking Thanksgiving, com seu “peru gigante que alimenta 250 milhões de almas atormentadas” (“É a pastoral americana por excelência, e dura vinte e quatro horas”). O sonho é viver dentro da Pastoral, ser consumido pela Pastoral, está tudo ali, ela nos alimenta, nos fornece o football, nos enriquece, por que alguém em sã consciência gostaria de mudá-la?

Mas o Sueco é transportado para fora da Pastoral — pela filha.

E por que não deveria estar onde eu queria? Por que não deveria estar com quem eu queria? Não é esse o espírito desse país? Quero ficar onde quero ficar e não quero ficar onde não quero ficar. É isso o que significa ser americano… não é?

 

Ao acompanhar o personagem em busca das respostas a essas perguntas, Roth concluiu o século 20 na ficção mundial — no qual sua obra ressoou, tanto quanto a dos maiores, de sempre, de todos os tempos.

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