Os meus 50 melhores discos de 2019
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Os meus 50 melhores discos de 2019

Os álbuns brasileiros e internacionais que estiveram em alta rotação por aqui neste ano da graça de 2019

Guilherme Sobota

23 de dezembro de 2019 | 18h05

Esse é o meu post preferido do ano. Os discos que ouvi ao longo de 2019 e mais gostei, mais salvei nas plataformas de streaming, etc. Este ano ouvi menos música do que em 2018, quando acho que fiz uma lista mais compreensiva.

Mas como sempre, listas são muito pessoais, e nesta tentei equilibrar um pouco de tudo (ausências mais notáveis: o sertanejo no Brasil; qualquer música que não seja de origem anglo-saxônica na parte internacional). Mas é isso. Bom fim de ano a todos!

Melhores discos de 2019 — internacional

25 — Nilüfer Yanya – Miss Universe (ATO Records / Fontana North)

Conjurando um mundo de texturas, musical e liricamente, a cantora e compositora britânica faz uma exploração única nos caminhos do indie rock, do pop rock, do house e do gospel, tudo isso sublinhado por uma voz poderosa.

Ouça: Angels, Heavyweight Champion of the Year

24 — The Dandy Warhols – Why You So Crazy (Dine Alone Music)

Num dos álbuns de rock do ano, numa época em que é difícil fazer rock relevante, a banda de Portland conseguiu encaixar letras malucas numa produção que lembra o psych-rock alternativo do início da carreira, mergulhados em experimentações ecléticas muito interessantes para uma banda que completa 25 anos de estrada em 2019.

Ouça: Terraform, Motor City Steel

23 — Boogie – Everything’s For Sale (Shady Records)

Assinado na gravadora de Eminem, o jovem rapper de Compton (a terra de Kendrick Lamar e do NWA) faz um retrato potente de um jovem romântico e inteligente com participações eletrizantes de 6LACK e JID.

Ouça: Lolsmh – Interlude, Soho (feat JID)

22 — Jenny Lewis – On the Line (Warner Bros. Records)

Caminhando entre o indie rock e o folk contemporâneo, a cantora e compositora acumula influências de Beck, Ryan Adams e tem na sua equipe o produtor Don Was, conhecido pelo trabalho com Iggy Pop e grandes outros gênios da música pop do século 20. Grandes histórias em uma ambientação sedutora.

Ouça: Heads Gonna Roll, Little White Dove

21 — Maxo Kream – Brandon Banks (RCA Records)

O jovem de 27 anos faz sua incrível estreia numa major com um disco que tem histórias dignas do melhor gangsta rap dos anos 1990 mas com uma produção na maior parte do minimalista que traz o álbum direto para o presente e faz jus ao seu lugar entre os melhores do ano.

Ouça: Meet Again, The Relays (feat. Travis Scott)

20 — FKA twigs – MAGDALENE (Young Turks Recordings)

A artista inglesa é uma das mais criativas mentes em atividade do pop global, caminhando por uma linha equilibrada entre a vanguarda artística e passeios ousados pelo contemporâneo.

Ouça: home with you, holy terrain (feat. Future), cellophane

19 — Michael Kiwanuka – Kiwanuka (Polydor)

Michael Kiwanuka é um artista que cresce a cada projeto, e é pouco arriscado dizer que este disco seja o seu melhor até agora. Experimentações que nunca parecem forçadas viajam por ritmos da música pop contemporânea com um estilo de composição próprio, sempre partindo do retro-soul, aqui reforçados por uma produção rica e colorida.

Ouça: You Ain’t the Problem, Piano Joint (This Kind of Love), Light

18 — Megan Thee Stallion – Fever (1501)

Um “banger” atrás do outro no disco mais sexualmente divertido do ano. Trap puro e um time de participações respeitável para a artista de apenas 24 anos.

Ouça: Pimpin, Cash Shit (feat. DaBaby), Best You Ever Had, Simon Says (feat. Juicy J)

17 — Bon Iver – i,i (Jagjaguwar)

Demonstração impressionante de técnica do produtor Justin Vernon, o álbum talvez não tenha a mesma potência de alguns dos seus antecessores, mas muito dos seus pontos altos são tão altos quanto ele consegue chegar. Folk e eletrônica numa combinação vibrante.

Ouça: iMi, Naeem, Marion

16 — Lizzo – Cuz I Love You (Nice Life/Atlantic)

É curioso o caso de Lizzo. Em seu terceiro álbum na carreira, a rapper-flautista atingiu seu maior sucesso meses depois do lançamento de Cuz I Love You, mas quando ele veio, veio com tudo. Recordes na parada americana em 2019, que enfim reconheceu a energia sem fim da artista. Sem medo de ser retrô, seu delivery é um dos melhores do ano.

Ouça: Cuz I Love You, Tempo (feat. Missy Elliott)

15 — Polo G – Die a Legend (Columbia Records)

Com apenas 20 anos de idade, o rapper de Chicago faz um dos discos mais instigantes do ano, misturando com coragem incomum produções extrovertidas com reflexões agudas sobre a vida conturbada de um jovem afro-americano. Tudo aqui brilha: flow, rimas, produção. Uma beleza.

Ouça: Lost Files, Through Da Storm, Pop Out Again (feat. Lil Baby, Gunna)

14 — Mavis Staples – We Get By (Anti-)

A incrível história de vida de Mavis Staples, de apoiadora próxima de Martin Luther King Jr. a estrela incontestável do gospel e do soul, ganhou nos últimos anos um empurrãozinho de gente como Jeff Tweedy, Gorillaz e Pusha T. Aos 80 anos, sua voz ainda alcança regiões pouco exploradas por gente mais jovem, e a produção pop de Ben Harper passeia pela música negra americana com leveza.

Ouça: Change, Never Needed Anyone

13 — James Blake – Assume Form (Polydor)

O alcance de James Blake, do jazz ao dub ao hip hop, é ilustrado em toda sua forma aqui, com um time de convidados do calibre de Andre 3000, Travis Scott e Rosalía — é verdade que é ao redor deles que o produtor se sente melhor, mas seu poder de curadoria é tão bom quanto sua habilidade nos sintetizadores.

Ouça: Mile High (feat. Travis Scott, Metro Boomin), Where’s the Catch (feat. Andre 3000), Don’t Miss It

12 — Flying Lotus – Flamagra (Warp Records)

Hoje em dia é difícil (pelo menos para mim) gostar muito de álbuns muito grandes. Aqui são 27 canções, 1h17min. Mas se alguém consegue fazer isso com algum tipo de graça, o nome dele é Flying Lotus. Com um time de colaboradores como Anderson Paak, Thundercat e Denzel Curry, Flylo viaja pelo melhor do hip hop, do jazz e do R&B.

Ouça: More (feat. Anderson .Paak), Takashi, Black Balloons Reprise (feat. Denzel Curry), The Climb (feat. Thundercat)

11 — DaBaby – Kirk (Interscope)

O artista teve um dos anos mais interessantes do hip hop americano, e uma carreira consistente se vislumbra à sua frente (só em 2019 foram três projetos, e Kirk talvez seja o mais consistente). DaBaby pega o tipo de produção lo-fi do “Soundcloud rap” (estilo surgido na plataforma e que teve, talvez, em XXXTentacion seu maior expoente), mas acrescenta um tipo de flow denso e uma estrutura de rimas espertas.

Ouça: INTRO, GOSPEL (feat. Chance The Rapper, Gucci Mane e YK Osiris)

10 — Charli XCX – Charli (Asylum Records/Warner)

Gone, a segunda faixa desse álbum da artista britânica, talvez tenha a melhor produção do ano em uma faixa. Mas é só um exemplo do caldeirão de influências e temperos que ela coloca no esforço desse álbum, sua empreitada artística mais ambiciosa até aqui.

Ouça: Gone (feat. Christine and the Queens), 1999 (feat. Troye Sivan), Shake It (feat. Pabllo Vittar, etc)

9 — 2 Chainz – Rap or Go The League (Gamebread/Def Jam Recordings)

O melhor álbum da carreira já consolidada de 2 Chainz mostra que o trap não precisa ser apenas superficial e divertido, mas que também tem espaço para reflexões inteligentes — sempre fazendo música boa.

Ouça: Forgiven (feat. Marsha Ambrosius), High Top Versace (feat. Young Thug), Momma I Hit A Lick (feat. Kendrick Lamar), Girl’s Best Friend (feat. Ty Dolla $ign), 2 Dollar Bill (feat. Lil Wayne, E-40)

8 — Nick Cave – Ghosteen (independente)

Nick Cave presenteia o fã com o fecho da trilogia que iniciou em 2013, com o incrível Push the Sky Away. Sempre com a rede de segurança que a composição etérea mas firme de Warren Ellis lhe dá, Cave oferece uma conclusão para a trágica história de sua vida nesse período (ele perdeu um filho adolescente em um acidente). Em Ghosteen, a presença do filho está mais forte do que antes, mas com uma elegância incomum no mundo da música, Cave reflete sobre a morte, sobre amor e sobre outros temas inesgotáveis de forma criativa e poderosa.

Ouça: Spinning Song, Bright Horses, Galleon Shop, Leviathan

7 — Little Simz – GREY Area (AGE 101 MUSIC/AWAL Recordings)

A jovem rapper britânica apresenta um dos projetos mais dinâmicos do ano com um flow poderoso, produções que passeiam entre o jazz e o soul, refrões grudentos e muito atenta a temas contemporâneos. Uma beleza.

Ouça: Offence, Selfish (feat. Cleo Sol), Wounds (feat. Chronixx), Venom

6 — Tyler, The Creator – IGOR (Columbia Records)

Um dos artistas mais interessantes da sua geração, Tyler, The Creator cria em IGOR um verdadeiro romance de formação americano, uma declaração de amor, enviesada às vezes, é verdade, à própria ideia do amor. Grande disco.

Ouça: EARFQUAKE, A BOY IS A GUN, GONE, GONE / THANK YOU

5 — Purple Mountains – Purple Mountains (Drag City)

Joia escondida do indie americano, o cantor, compositor e guitarrista David Berman morreu este ano, aos 52 anos, depois de deixar esse disco (o primeiro com o nome Purple Mountains; ele era o fundador do Silver Jews), uma espécie de presságio para o seu futuro trágico. Ninguém nunca emitiu sinais tão claros sobre o destino sombrio com tanto humor, inteligência e poesia. O melhor conjunto de letras do ano.

Ouça: That’s Just the Way That I Feel, I Loved Being My Mother’s Son, Storyline Fever

4 — Wilco – Ode To Joy (dBpm Records)

A exemplo do que Emicida fez na música brasileiro, os heróis indies do Wilco soltaram em um sombrio 2019 um disco solar, convidando a afetividade para dentro do cotidiano duro de um sistema global cruel. Com algumas das melhores canções desde 2009, a banda de Chicago dá um valioso acréscimo à sua poderosa discografia.

Ouça: Everyone Hides, White Wooden Cross, Love Is Everywhere (Beware)

3 — Solange – When I Get Home (Columbia Records)

O trabalho seguinte a A Seat at the Table, de 2016, era muito aguardado pelos fãs de uma das maiores estrelas do R&B contemporâneo, mas o talento de Solange Knowles é imenso: como também é imensa sua imersão na experimentação das faixas de When I Get Home.

Ouça: Things I Imagined, Almeda, Binz, Stay Flo

2 — Kevin Morby – Oh My God (Dead Oceans)

Criminosamente ignorado nas listas de melhores das publicações estrangeiras, o disco do cantor e compositor texano de 31 anos e carreira consistente é a coroação de uma trajetória no underground americano que mistura as influências mais óbvias de Bob Dylan, Bruce Springsteen e Nina Simone com o som etéreo de bandas como The War On Drugs e Spiritualized. O que ele faz com esse disco é estender a mão para um tipo de divindade sonora, onde cada música parece estar no lugar certo, com o tom adequado, respeitosamente olhando para trás, bem posicionada no presente e com muita força acenando para o futuro. Uma beleza.

Ouça: Oh My God, No Halo, Nothing Sacred / All Things Wild, OMG Rock n Roll, Savannah, Congratulations

1 — billie eilish – When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (Darkroom/ Interscope Records)

A sensação do pop global em 2019 deixou ao mesmo tempo uma marca no ano e abriu o caminho para uma imensa promessa. Não é de se duvidar que billie eilish vai ditar os rumos da música contemporânea pelos próximos 40 anos, sem exagero. A incrível produção electropop do seu irmão Finneas O’Connel se soma às suas letras em que ela explora com vigor temas muito caros aos jovens do século 21, como vício em drogas, romance, mudança climática e saúde mental. A entrega vocal da cantora de apenas 17 anos é outro destaque positivo do disco, uma coleção de canções que vai ficar na história.

Ouça: bad guy. bury a friend, when the party’s over, all the good girls go to hell

Melhores discos brasileiros de 2019

25 — Anitta – Kisses (Warner)

Apesar de o disco às vezes cair em estruturas pré-formuladas e ser praticamente internacional, é preciso reconhecer a ambição de Anitta no cenário da música pop brasileira. Muitos questionam seus métodos, ela é acusada de muitas coisas por muitas pessoas, mas o misto de voz poderosa, postura no palco e firmeza no rumo da própria carreira faz dela uma das grandes artistas da nossa geração.

Ouça: Onda Diferente (feat. Ludmilla, Snoop Dogg, Papatinho), Banana (feat. Becky G), Você Mentiu (feat. Caetano Veloso)

24 —Marcelo Jeneci – Guaia (Slap)

O cantor e compositor dá mais um passo na consolidação de sua trajetória como voz instigante da música contemporânea nacional. Com um time de parceiros que inclui Arnaldo Antunes, Chico César e Zé Miguel Wisnik, o disco tem nove faixas que viajam entre ritmos nordestinos e texturas eletrônicas.

Ouça: Oxente, Vem Vem (feat. Maya)

23 — Ludmilla – Hello Mundo (Warner)

Há anos no jogo, em 2019 Ludmilla alcançou um novo patamar em alcance no cenário da música pop brasileira. Assinada com a mesma major de Anitta, as duas tiveram um ano cheio de diferenças entre si, mas o fato é que não é necessário brigar por um “topo” fictício do funk brasileiro — certamente existe espaço para as duas. No disco, além do gênero carioca, acenos ao pop melódico e ao R&B. Como o funk é mais afeito aos singles, vale ouvir o restante da produção da artista em 2019, como a especial Verdinha.

Ouça: Favela Chegou (feat. Anitta), Desce com Maldade, Sobe com Autoridade (feat. Simone e Simaria)

22 — Livia Nery – Estranha Melodia (Máquina de Louco/Universal)

O título do álbum, produzido por Curumin e lançado pela gravadora do BaianaSystem, já entrega alguns pontos. As faixas conversam com os artistas citados, mas a presença vocal de Livia Nery garante uma marca própria para este disco de MPB recheado de sintetizadores.

Ouça: Estranha Melodia, Sintonia do Amor

21 — Teago Oliveira – Boa Sorte (Deck)

Talento comprovado do Maglore, Teago lança seu primeiro projeto solo seguindo o caminho de grandes cantores e compositores, sem abandonar a banda que lhe lançou ao cenário nacional. Reflexões interessantes sobre deslocamento e solidão são entregues com um folk contemporâneo e criativo.

Ouça: Oh, Meu Bem, Longe da Bahia, Sombras no Verão

20 — Caio Falcão – Vulgar (RISCO/Tratore)

O cantor e compositor paulistano traça uma linha entre o rock e o ijexá, passando com força pelo samba, seguindo os passos de Caetano, Gil e Itamar sem deixar de construir uma voz própria nesse belo disco.

Ouça: Vulgar, Fenestra, Uma Vez Mais (feat. Laura Diaz)

19 — Rincon Sapiência – Mundo Manicongo (MGoma)

Fruto de explorações, reais e musicais, por ritmos do mundo, Rincon Sapiência volta com seu flow inconfundível e com beats mais à vontade para a dança e para a celebração.

Ouça: Mundo Manicongo, Meu Ritmo

18 — O Terno – (RISCO/Tratore)

Uma das bandas mais interessantes do cenário nacional volta à carga com seu primeiro disco de inéditas em três anos, o primeiro depois do elogiado Melhor do Que Parece (2016), topo de muitas listas daquele ano. Aqui, O Terno se move para um som mais particular ao se desprender das influências sessentistas dos primeiros projetos, embora, é claro e que bom, elas também apareçam por aqui.

Ouça: Pegando Leve, Bielzinho / Bielzinho

17 — Drik Barbosa – Drik Barbosa (LabFantasma)

O aguardado primeiro disco da rapper paulistana segue os passos de companheiros mais velhos como Emicida e Rael, abrindo espaço para que outros gêneros conversem diretamente com o hip hop, e o Brasil aos poucos vai transferindo para o rap sua vocação sincrética. Uma beleza.

Ouça: Herança (feat. Anna Tréa), Liberdade (feat. Luedji Luna, R.A.E.), Luz (feat. Emicida, Rael)

16 — Vitor Guima – O Estrangeiro (independente/Tratore)

Quem disse que voz e violão não pode trazer novidades? Olhando para Belchior, Raul Seixas, Cazuza, Amado Batista, Fernando Pessoa, Nick Drake e Elliot Smith ao mesmo tempo, Guima apresenta um consistente repertório autoral.

Ouça: A Lei do Desejo, Por Aí

15 — Zeca Pagodinho – Mais Feliz (Zeca Pagodiscos/Universal)

Outro álbum do ano em que a música aparece como elemento redentor de dificuldades extraordinárias, e Zeca passeia pelas diversas regiões do samba com sua identidade eterna, incluindo aí uma versão belíssima de A Sorrir, em que divide os vocais com Teresa Cristina.

Ouça: Sexta-feira, Quem Casa Quer Casa, O Sol Nascerá (A Sorrir) (feat. Teresa Cristina)

14 — Miranda Kassin – Submersa (Cada Instante)

Uma das vozes mais características da noite paulistana volta à carga com seu segundo disco, um conjunto de baladas românticas bem acabadas, sempre com um pé no soul, mas mergulhadas nos sintetizadores.

Ouça: Fudeu, Vacilão (feat. Felipe Cordeiro)

13 — Céu – APKÁ! (Slap)

A essa altura, todo lançamento de Céu é um evento na música brasileira, e com este novo trabalho de 2019 a artista se esforça para esticar os limites da própria produção ao experimentar com texturas e estruturas rítmicas que tornam o projeto indefinível em vários aspectos. Vale a viagem.

Ouça: Nada Irreal, Corpocontinente

12 — Lia de Itamaracá – Ciranda Sem Fim (independente/Somax)

O uso dos samples no hip hop tem um poder imenso no cenário cultural, e um dos maiores é apresentar para novas gerações artistas consolidados que talvez aproveitem, hoje em dia, menos do que deveriam dos louros do passado. É o caso de Lia de Itamaracá, via Rincon Sapiência. Aos 75 anos, ela participou de Bacurau e lançou esse disco charmoso, cheio de vitalidade, puramente brasileiro.

Ouça: Apenas um Trago – Bom Dia Meu Amor, Companheiro Solidão

11 — Nego Gallo – Veterano (independente)

A “estreia” em disco de um dos rappers mais respeitados do Brasil no século 21, graças ao Costa a Costa, grupo de Fortaleza que também lançou Don L. O projeto mistura ritmos regionais, reggae, trap em bases consistentes com letras bem pensadas, refrões divertidos e bom acabamento.

Ouça: No Meu Nome (feat. Don L), O Bagui Virou, Downtown, Dois Cofres Uma Porta

10 — Siba – Coruja Muda (EAEO Records/YB Music)

Uma das experimentações musicais mais interessantes do ano na música popular brasileira vem de um artista pernambucano que agora consolida um som muito próprio, que estica as mãos para o maracatu, ao frevo e ao rock, flertando com um tipo de produção indie que sempre rondou o trabalho do artista. Muito bom.

Ouça: Coruja Muda (feat. Chico César), Barato Pesado, Toda Vez Que Eu Dou Um Passo / O Mundo Sai Do Lugar (Slight Return) (feat. Mestre Nico)

9 — Sidoka – Elevate, Sommelier, Doka Language (Infame Company)

O jovem rapper de BH começou a fazer barulho no fim de 2018 com o excelente Elevate, mas foi em 2019 que ganhou o Brasil. Extremamente contemporâneo, Sidoka inventa uma língua própria para cantar suas rimas sobre beats de trap que ganham ainda mais sentido inseridas no ambiente em que o artista as coloca. O fato de ser prolífico também ajuda a criar em volta de si um tipo de aura muito particular. Foi incrível acompanhar essa trajetória ao longo do ano.

Ouça: Scotch, Papelzinho, Eu Nem Me Preocupo, Madame, Sommelier, Neblina Fumelt, Vip (feat. Sos, Chris MC), Olha Pro Oclin (feat. FBC)

8 — Marcos Valle – Sempre (Conecta)

Um dos maiores músicos da história da MPB e prolífico produtor, Valle está de volta nesse disco que traz uma série de canções com o tipo de fusion que ele praticamente inventou: jazz tipicamente brasileiro, dance music, pop anos 80, neo-jovem guarda, tudo isso contornado por seu piano inconfundível e brilhante.

Ouça: Olha Quem Tá Chegando, É Você, Vou Amanhã Saber

7 — Cláudio Rabeca – Rabeca Brasileira (independente)

O incrível show de Mestre Anderson Miguel no Coala 2019 me fez olhar com atenção para o que a ciranda produz no nordeste brasileiro. Graças a ele, cheguei a esse incrível disco de Cláudio Rabeca, em que o instrumento de origem árabe conduz um verdadeiro espetáculo que passa pela ciranda, mas também pelo forró, pelo xote, pelo choro. Jacob do Bandolim é uma imagem constante nas músicas desse álbum, cheio de participações, tão brasileiro quanto possível.

Ouça: Me Leve (feat. Martins), Tente Se Atirar (feat. Nicolas Krassik), Estrela Sertã (feat. Juliano Holanda, Hugo Lins e Gilú Amaral)

6 — Djonga – Ladrão (Ceia)

Djonga “roubou” este ano o topo da nova geração do rap nacional com seu terceiro disco muito bom em três anos. É um ritmo de produção impressionante e ninguém espera que ele mantenha o altíssimo nível pelos próximos anos — a questão é que ele não dá nenhum sinal de que vai parar. Inteligente, divertido, amoroso e ácido quando preciso. Toda a produção em volta do rapper mineiro de 24 (ou 25?) anos cresce junto com ele. Se isso não é hip hop…

Ouça: HAT-TRICK, DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, LADRÃO, BENÇA

5 — Ana Frango Elétrico – Little Electric Chicken Heart (RISCO/Tratore)

Se são as teclas, os sopros, a produção propositadamente lo-fi, as letras engraçadas e afiadas, a mistura desavergonhada de indie rock com samba de passo torto, as pitadas de uma nova bossa nova — não sei. Sei que desse caldeirão todo emerge Little Electric Chicken Heart, a vibração mais potente do indie brasileiro em 2019.

Ouça: Saudade, Se no Cinema, Tem Certeza?, Devia Ter Ficado Menos

4 — BaianaSystem – O Futuro Não Demora (Máquina de Louco/Universal MGB)

O álbum conceitual da banda baiana é o seu melhor registro em estúdio até agora, embora as músicas do Duas Cidades (2017) ganhem muito nas apresentações ao vivo. Herdeiros de Carlinhos Brown e dos mestres da guitarra baiana, o BaianaSystem faz um som único no mundo, batendo no liquidificador dancehall, ritmos regionais, uma posição clara e apresentações impecáveis.

Ouça: Água (feat. Antonio Carlos Jocafi, Orquestra Afrosinfônica), Bola de Cristal, Sulamericano, Saci

3 — MC Kevin o Chris – 2019

Embora o funk seja pouco afeito a álbuns no sentido tradicional, o que Kevin O Chris e seus companheiros de geração (FP do Trem Bala, DJ Rennan da Penha, DJ Pedro Henrique, Sodré, WC no Beat, e muitos outros) fizeram em 2019 é realmente digno de nota. Uma sequência incrível de sucessos, explorando os limites do funk, consolidando o 150 bpm como ritmo do ano, abrindo portas e ocupando o palco dos maiores festivais do Brasil. Coisa linda.

Ouça: Ela é do Tipo, Vamos pra Gaiola (feat. FP do Trem Bala), Resenha Lá em Casa (feat. POCAH), Sacanagenzinha (feat. Pk, DJ Pedro Henrique)

2 — Emicida – AmarElo (LabFantasma)

Num ano em que a cultura sofreu ataques constantes de muitos lados, e que construções sociais estruturadas ao longo de décadas foram colocadas em risco, um dos músicos de trajetória mais consistente da música brasileira nos últimos 10 anos oferece um álbum inteiro baseado no afeto. Um abraço em que Emicida faz acréscimos muito sólidos para sua discografia, usando o rap como linha condutora de um disco que acena para diversos gêneros da música brasileira.

Ouça: Principia (feat. Fabiana Cozza, Pastor Henrique Vieira e Pastoras do Rosário), Pequenas Alegrias da Vida Adulta (feat. Marcos Valle e Thiago Ventura), Ismália (feat. Larissa Luz e Fernanda Montenegro), AmarElo (feat. Majur e Pabllo Vittar) e Libre (feat. Ibeyi)

1 — Black Alien – Abaixo de Zero: Hello Hell (Extrapunk Extrafunk)

No melhor disco brasileiro do ano, Black Alien e Papatinho encontram a simultaneidade perfeita com tudo de melhor que o hip hop tem para oferecer: produções criativas, divertidas, à serviço da música; uma variedade inesgotável de flows; rimas inteligentes, estruturas bem montadas, métricas surpreendentes; muitos refrões memoráveis. A temática adulta (a sobriedade) nunca fui tão bem tratada no país. Tudo parece no lugar, tudo conversa bem entre si, a entrega vocal do Mr. Niterói é tão boa quanto sempre, sua caneta está mais afiada do que nunca, até o português-inglês dá as caras, e as bases do ex-produtor da Conecrew, inspiradas em Kanye West e na produção jazzística de Kendrick Lamar e, arrisco, Noname, servem um tipo de cama que Black Alien nunca tinha deitado até então. Como funcionou. Um álbum na mesma medida profundo, divertido e emocionante.

Ouça: Todas.

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