Os meus 50 melhores discos de 2018
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Os meus 50 melhores discos de 2018

Os meus álbuns preferidos desse ano confuso

Guilherme Sobota

21 de dezembro de 2018 | 15h31

Listas são listas: extremamente pessoais, revelam mais sobre o autor do que sobre os listados, então quero deixar claro desde já que esse é o caso. Baseei as escolhas no que mais ouvi e para o que mais voltei durante o ano (e tentei, na medida do possível, avaliar critérios estéticos de cada obra e da evolução de cada artista). Se uma pessoa só ouvir um disco aqui e gostar, o trabalho já valeu a pena.

BRASIL

25. E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante – Fundação

Criada no terreno do pós-rock de Explosions in the Sky, Mogwai e Tortoise, e trilhando no Brasil o caminho do Hurtmold (e também em paralelo aos potiguares do Mahmed), a banda busca nos novos sons maior experimentação eletrônica e mais liberdade aos sintetizadores, sem deixar de lado o trio guitarra-baixo-bateria que fundamenta as canções. Da hora.

Ouça: Todos os Dias Sua Lembrança Me Assola, Mas Não Importa

24. Diomedes Chinaski – Comunista Rico

A primeira mixtape do rapper pernambucano depois do sucesso de Sulicídio, sua parceria com Baco Exu do Blues de 2016. Diomedes está em revisão do “ano lírico”, conforme falou num show recente, mas sua exploração dos beats de trap e do autotune é muito sólida. Um dos melhores MC’s do Brasil, sem dúvida.

Ouça: Comunista Rico, Diabinha

23. Casuarina – Mais 100

O samba de partido alto aparece revitalizado no disco do grupo agora formado por Gabriel Azevedo (pandeiro e voz), Daniel Montes (violão de 7 cordas), João Fernando (bandolim, violão tenor) e Rafael Freire (cavaquinho, banjo). O samba vive no Rio de Janeiro, e esse é só um exemplo. Grande disco.

Ouça: Tempo Bom na Maré (com Martinho da Vila) e Falangeiro de Ogum

22. SoundFood Gang – Foodstation

A banca mais cool do rap paulista lançou vários projetos em 2018, e escolhi esse para representar (“a melhor gravadora que eu assinei foi a minha”, diz Nill numa das músicas). De produção cada vez mais cristalina, sem esquecer o elemento independente que já tinha encantado em discos como Regina, de 2017, o caminho já está aberto para Nill, Yung Buda, Chinv, ManoWill e Chábazz.

Ouça: Do Nada, Por Aí, F.F.R. 2

21. Martinho da Vila – Bandeira de Fé

Esse é apenas um dos projetos de Martinho da Vila em 2018, e aqui ele recupera — com alguma saudade, o elemento central do disco — canções antigas nunca gravadas e novas composições, com uma qualidade narrativa que demonstra sofisticação e um espírito do tempo invejável para o mestre, que completou 80 anos.

Ouça: O Rei dos Carnavais, Fado das Perguntas, O Sonho Continua (feat. Rappin’ Hood)

20. Julia Branco – Soltar os Cavalos

Fui ouvir esse disco por indicação da Letrux nas redes sociais, e talvez seja possível fazer uma linha entre as duas (Letrux também compõe e participa da faixa 30 Anos) nesse disco de texturas eletrônicas, MPB e ecos de um samba mais ou menos triste. É o primeiro disco solo da vocalista da banda Todos os Caetanos do Mundo, e o álbum materializa o acerto da cantora ao pular para as composições autorais. A primeira frase do disco ecoa para 2019 após seguidas audições: “sou forte, sou grande, sou do tamanho do medo”.

Ouça: Sou Forte, Quero Ser Livre, 30 Anos

19. Duda Beat – Sinto Muito

O som indie pop da recifense radicada no Rio é uma das grandes revelações de 2018. Passeando com naturalidade entre ritmos brasileiros (do tecnobrega ao axé) e estrangeiros (a rock ballad romântica modernizada, por exemplo) a estreia da cantora e compositora é um disco mergulhado em reflexões sobre o amor, e também sobre a falta dele.

Ouça: Bixinho, Bédi Beat

18. Baco Exu do Blues – Bluesman

Baco é nos dois últimos anos talvez o maior debate da música brasileira (pelo menos aquela que fica no limite entre o underground e o mainstream, agora já pendendo para este último), e isso não é pouco. Ele levantou o sarrafo no alto com Esú, a excelente estreia de 2017, e já tem outros projetos engatilhados. Em Bluesman, ele muda o alvo — e cabe ao ouvinte escolher acompanhá-lo nessa mudança.

Ouça: Flamingos, Preto e Prata

17. Teco Martins – Solar

Primeiro disco do ex-Rancore, a surpresa aqui são as sonoridades loucas que ele explora, muito longe do hardcore que caracterizava a banda antiga. Ao misturar ritmos brasileiros e latinos, a presença marcante da percussão e uma psicodelia que vem de algum lugar um tanto indefinível, ele constrói um disco certamente estranho, mas com uma particularidade bastante própria.

Ouça: Células, Sal Grosso, Adorei

16. Negra Li – Raízes

O álbum representa uma “volta às origens” da cantora que surgiu com o RZO nos anos 1990, mas com sonoridades atualizadas e um trânsito fluente entre elementos de R&B, reggae e samba. O disco teve menos repercussão do que mereceria, mas aposto que Negra Li será presença garantida nos festivais Brasil afora em 2019.

Ouça: Venha, Raízes (com Rael)

15. Rubel – Casas

Ainda é possível afirmar que Rubel está buscando seu caminho na música, mas deixar de reconhecer o esforço do artista é besteira (e a busca, às vezes, é mais interessante do que o destino). Com influência clara (voz e harmonias) de Los Hermanos, ele segue explorando caminhos no samba, no folk pop e até no rap (abrindo espaço para gente que sabe fazer isso, como Emicida e Rincon Sapiência; aprende, Twenty One Pilots). Um pouco de amor ingênuo, só um pouco, em tempos de fascismo à espreita, é um alívio necessário.

Ouça: Casquinha, Mantra (com Emicida), Partilhar

14. Mauricio Pereira – Outono no Sudeste

Aos 58 anos Pereira usou a produção contemporânea de Gustavo Ruiz para dar um tipo de polimento indie para as suas canções de letras inteligentes e melodias sofisticadas. Sopros e guitarras se deitam sobre a voz e o sotaque paulistano do cantor e compositor, numa homenagem à cidade em que vivemos.

Ouça: Os Amigos ou O Coração É um Órgão, Piquenique no Horto

13. Marcelo D2 – Amar é para os Fortes

O ano de Marcelo D2 foi concorrido: entre outros trabalhos, sua presença constante no Twitter numa eleição bastante agitada rendeu uma nova evidência para o músico (tanto que, quando você digitar “Marcelo D2” no Google, a primeira sugestão que aparece é “twitter”; a segunda é “Amar é Para os Fortes”). O disco é uma obra audiovisual que impressiona pela produção apoiada fortemente nos samples, mas também nos versos mais afiados do que nunca do MC. Respeito.

Ouça: Prelúdio em Rimas Cariocas, Febre do Rato, Resistência Cultural (com Gilberto Gil), Filho de Obá (com Danilo Caymmi, Alice Caymmi, Rincon Sapiência)

12. Makalister – Mal dos Trópikos

Grande disco de rap independente lançado no início do ano pelo músico catarinense. Se não faz sentido cobrar algum tipo de “limpeza” na produção, é possível reconhecer um esforço criativo maiúsculo na construção das canções e na inteligência dos versos. O flow consistente se encaixa sem esforço nos beats que puxam para o boom bap, e as referências culturais se espalham pelas letras. O disco ainda tem participação de Diomedes Chinaski, Luccas Carlos e Materia Prima.

Ouça: Sem Fôlego, Linhas Abissais

11. Maria Beraldo – Cavala

Embalado num projeto imagético que esbanja criatividade (ver Maria Beraldo no palco é uma experiência), Cavala traz sons indefiníveis criados no encontro entre guitarra, sintetizadores e voz. Destaque também para a versão espacial de Eu Te Amo, de Tom Jobim e Chico Buarque.

Ouça: Tenso, Da Menor Importância, Eu Te Amo

10. FBC – SCA

Puta que pariu, Fabrício. O rapper de BH tem uma caminhada e não é de hoje, mas S.C.A. (que remete à nada discreta faixa Sexo, Cocaína e Assassinatos) é seu primeiro disco e foi o suficiente para conquistar os barulhentos fãs do rap nacional na web (FBC foi suspenso temporariamente do Twitter por pedir para todo mundo ouvir seu álbum). A campanha funcionou e os versos (“E pra esses jovens militantes, estudantes, elegendo militares aos milhares / Querem intervenção sem noção, imagine o que são idiotas se armarem com / 17 anos e um 38, 17 anos e um 38”) estão na ponta da língua. Baita disco.

Ouça: Frank & Tikão, 17 Anos, Superstar

9. Luiza Lian – Azul Moderno

A essa altura, Luiza Lian não é surpresa para ninguém, mas é fascinante notar como a artista paulistana continua expandindo seu universo sem perder identidade ao mesmo tempo em que mantém uma espécie de existencialismo pop muito particular. A forte presença da espiritualidade empresta ao disco um ar esotérico, que não impede a construção de imagens sofridas de separações amorosas.

Ouça: Vem Dizer Tchau, Sou Yabá, Azul Moderno

8. Josyara – Mansa Fúria

O disco tem um gostinho de estreia para a cantora e compositora baiana, que evidencia aqui uma habilidade sem par no violão contemporâneo ao atualizar o jeito de tocar da bossa nova — não dá para dizer que isso é pouco. Além disso, a produção cuidadosa de Junix (do BaianaSystem) não afunda esse protagonista (o violão) em camadas eletrônicas, mas constrói bases seguras para ele se aventurar livre. Um álbum extremamente contemporâneo que tem consciência do que veio antes. Uma beleza.

Ouça: Nanã, Mansa Fúria, Temperatura

7. Gal Costa – A Pele do Futuro

Uma das maiores intérpretes da história da música brasileira recebe aqui um pacote de canções de uma nova geração de compositores (e outros mais velhos, é verdade) e entrega o que se espera dela — uma performance à beira da perfeição, com ajustes esperados e inevitáveis pela passagem do tempo. Silva, Dani Black e Emicida (mas também Jorge Mautner, Guilherme Arantes e Erasmo Carlos) passam algumas composições para Gal, cuja voz nunca parece cansada. Uma atualização belíssima da versatilidade da cantora, bem como um acréscimo valioso ao seu repertório.

Ouça: Palavras no Corpo, Sublime, Minha Mãe (com Maria Bethânia), Abre-Alas do Verão

6. Rodrigo Campos – 9 sambas

A missão de trazer o samba para o presente é carregada por milhares de guerreiros e guerreiras Brasil afora, mas cristalizar essa tarefa num disco completamente autoral que se mantém equilibrado com a tradição (pela qual demonstra imenso respeito) e a contemporaneidade (a mera presença de Juçara Marçal e Maria Beraldo ilustram essa reverência) é realmente algo a mais. Do passo torto (nome de um dos grupos de Campos em São Paulo) do surdo, passando pelo porte marcante de Marçal (a voz dessa geração), a conhecida e admirada capacidade formal do compositor transparece em peças superlativas do ritmo mais brasileiro de todos. É emocionante.

Ouça: Joguei o Jogo, Clareza, Na Sacola

5. Gilberto Gil – OK OK OK

O que um disco em 2018 pode fazer pelo cânone de Gilberto Gil? A delícia de responder essa pergunta com “muito” dá uma ideia da dimensão do álbum. Depois comprovado ao vivo, Gil está de “voz plena e violão preciso”. Mas além: recuperado de um problema nos rins que o colocou à beira da morte, um dos astro-reis da música brasileira voltou para casa e não demorou a voltar para o estúdio. A música título é um freio de arrumação, esperem um pouco, ele parece dizer, numa voz tão sua; Na Real, Sereno e Uma Coisa Bonitinha (parceria recuperada com João Donato) estabelecem o sarrafo lá no alto, porque é assim que Gil sempre fez. E logo em seguida, talvez na melhor canção do disco, Gil rebate a bola da morte transformando-a numa torrente de amor ao homenagear a médica que fez nele uma biópsia do coração (Quatro Pedacinhos). Um insensato sugeriria a Gil cortar fora algumas das canções do disco, mas aos 76 anos, ainda bem, resta a Gil falar (e cantar), e a nós resta ouvir.

Ouça: Na Real, Sereno, Uma Coisa Bonitinha, Quatro Pedacinhos, Jacintho

4. Djonga – O Menino que Queria Ser Deus

Espécie de sublimação do disco anterior (Heresia, de 2017, seu primeiro), O Menino Que Queria Ser Deus consolida o flow gritado do rapper mineiro ao mesmo tempo em que abre novas possibilidades artísticas para ele. As letras estão entre as melhores de sua geração (24 anos): “Outro dia abri a porta e vi o Trump bem em cima da / Hillary Clinton, traguei o Carlton e vi que não é a toa / Que a capital do mundo é Washington, não Compton”; “Eu já vi que não é isso tudo quando vê as quadrada / Minhas amigas do peito são minhas correntes / Já foram minhas inimigas da perna / Minha autoestima tem crescido tanto / Que hoje em dia eu chamo ela de dívida externa”. Em De Lá e Eterno, ele mostra que sabe cantar. Acompanhar o rap nacional hoje em dia é saber que Djonga é um mestre e um líder da geração mais contemporânea. Esse disco lhe faz todos os favores.

Ouça: ATÍPICO, JUNHO DE 92, UFA (FEAT. SIDOKA, SANT), 1010, ESTOURO (FEAT. KAROL CONKÁ), DE LÁ

3. Coladera – La Dôtu Lado

Samba, xote, fado e ritmos africanos. Produção internacional de um projeto que envolve músicos de Brasil, Portugal, Cabo Verde e Angola, encabeçados pelos brasileiros Vitor Santana e Marcos Suzano e pelo português João Pires, o disco é uma envolvente mistura de ritmos da língua portuguesa. Numa época de ode a muros e repulsas injustificadas contra imigração e trocas de diversos tipos, esse tipo de joia ganha um poder enorme no mundo. Se o violão e a percussão do samba servem como fio condutor, as músicas ganham vida própria ao esticar alças para os caminhos mais truncados do violão do fado, e para os batuques do lundum angolano e, claro, da coladeira cabo-verdiana. Os sotaques também se misturam (Miroca Paris, de Cabo Verde, e Aline Frazão, de Angola, cantam no disco), e essa multiplicidade de ritmos e sotaques cria um ambiente em que todo mundo se sente confortável, todo mundo que fala português ou que vive a música desses países. Uma realização brilhante.

Ouça: La Dôtu Lado, A Luz de Yayá, Mandinga, Funaná do Moreré

2. Anelis Assumpção – Taurina

É bonito ver uma nova geração de músicos, cantores e compositores levarem adiante legados musicais enormes e que poderiam sufocar investidas mais ousadas na música. Esse claramente não é caso da família Assumpção. Sem pressa entre um disco e outro, Anelis incorpora essa aparente lentidão no processo de composição — e é impressionante notar como esse processo torna o disco mais saboroso a cada nova audição, porque aqui pouca coisa é entregue de bandeja. O que não quer dizer que a camada mais superficial das músicas não tenha uma face agradável, porque certamente têm. Mergulho Interior serve de convite e abre alas: “senta aqui comigo nessa pedra”, diz, antes de introduzir cheiros (sim) e sensações que vão conduzir o disco. Chá de Jasmin é um delicioso desvio pop com metais e sintetizadores: “Naquele dia você tava na cozinha / Eu chorava, cê fingia que não tinha amor ali”. A letra incrível é de Serena, a irmã de Anelis que morreu em 2016 vítima de um câncer de mama. A presença dela é reafirmada em Gosto Serena: “Gosto do que fui quando fui com você / Que susto foi te perder”, canta Anelis num tom sempre para cima, numa mistura emocionante entre saudade e homenagem, que retoma em Escalafobética, parceria com João Donato em que transforma o sofrimento em forma ao criar palavras novas. Em seguida, nas canções, em que aparecem Liniker, Tulipa Ruiz, Céu, Ava Rocha, Anelis cria uma mistura inevitavelmente brasileira ao integrar elementos “caipiras” a produções e arranjos contemporâneos, em uma nova formalização do embate entre sentimentos e sensações, da celebração à saudade. Uma beleza.

Ouça: Mergulho Interior, Chá de Jasmin, Gosto Serena, Escalafobética

1. BK – Gigantes

Tentar definir Gigantes tematicamente vai contra o próprio conceito de disco: para BK, gigantes são as situações que vivemos e as sensações que sentimos, e o que ele fez aqui foi demonstrar uma variedade delas. A escolha também refletiu nos caminhos estéticos do disco, que traz o flow inconfundível já presente em Castelos e Ruínas, mas explora com brilho canções e outros tipos de escrita. A presença de KL Jay em uma das faixas é apenas um dos indicativos de que o rapper tem consciência, conhece e respeita quem lhe precedeu — elemento ético que no hip hop se transforma em dimensão estética e agrega valor a um trabalho como esse. Mas o recado aparece claro já em Novo Poder, a primeira faixa: “Se tu não avançar, tu vai ser o que?”. Em outro verso ele parece avisar que sua geração está pronta para a guerra contra mentes fechadas. “Nós abrimos as mentes, eles destroem as mesmas / Eu chamo isso de guerra das canetas, é”. Em Exóticos, uma mistura de love song e reflexão brutal sobre a violência contra pessoas negras, feito único: “a carne mais barata do mercado é a carne negra e é servida crua”, lembra Elza Soares. A faixa Abebe Bikila (o nome do rapper) é também uma afirmação: “Eu de rolé na lapa, policial me parou, pediu pra tirar uma foto”. As faixas seguem então demonstrando uma imensa facilidade de variar flows e climas, rimas e temas, que juntos constroem um mosaico que, entre outras coisas, captura o zeitgeist brasileiro estranhíssimo e incomum que vivemos em 2018 — e que, acredito, inspira jovens em busca de afirmação sem comprometer o compromisso estético do rapper, um dos grandes de sua geração, sem dúvida. Gigante. O álbum do ano no Brasil.

Ouça: Novo Poder, Gigantes (feat. Juyé), Exóticos, Abebe Bikila (feat. KL Jay), Deus do Furdunço, Falam (feat. Sain, Marcelo D2), Correria – Remix (feat. Akira Presidente, Drik Barbosa)


INTERNACIONAL

25. Against All Logic – 2012 – 2017

Nicolas Jaar não erra, ponto final. Seu disco desse ano sob o pseudônimo Against All Logic se encaixa deliciosamente num padrão house music com samples puxados do soul e do funk. Bote aí na lista da próxima festinha.

Ouça: This Old House Is All I Have

24. Tierra Whack – Whack World

Uma preciosidade em inovação, de apenas 15 minutos, lançado faixa-a-faixa no Instagram, o disco rompe padrões ao unir o melhor da música hip hop atual com um sentimento de mundo tão presente e tão atual que o bagulho é assustador.

Ouça: Hungry Hippo, Fruit Salad

23. Meek Mill – Championships

Meek Mill foi um dos personagens do ano “fora” da música e Championships é seu primeiro disco depois da prisão injusta, e embora essas preocupações apareçam no álbum, o que existe é um ar de redenção que torna este o seu melhor disco em algum tempo (e com um time de feats impressionante).

Ouça: Uptown Vibes (feat. Fabolous & Anuel AA), What’s Free (feat. Rick Ross & Jay Z), Pay You Back (feat. 21 Savage)

22. A$AP Rocky – Testing

O disco foi meio que esnobado pela crítica americana, talvez por eles saberem do que A$AP Rocky é realmente capaz. O que eu ouvi foi um disco inventivo e divertido, encaixado nas tendências do trap e do mumble rap sem deixar de fora a marca de um dos rappers mais cools do mundo — além da inesquecível flauta na música com o Skepta.

Ouça: Fukk Sleep, Changes, Praise The Lord (Da Shaine) (feat. Skepta)

21. Father John Misty – God’s Favorite Costumer

Só um ano depois do maravilhoso Pure Comedy, Father John Misty colocou na praça outro disco, que se tem canções criativamente potentes, não chega a levá-lo para outro patamar. Um dos meus discos do ano, porém.

Ouça: Hangout at the Gallows, Mr. Tillman, God’s Favorite Costumer

20. Nipsey Hussle – Victory Lap

Foi um dos álbuns de rap gringo que ficou ao longo do ano, e o próprio rapper de LA, que apesar de uma caminhada de uma década lança agora sua estreia numa grande gravadora (Atlantic), disse num artigo recente da Billboard que não estava tentando fazer o álbum do ano (embora ele acredita que seja, de fato), mas que saiu para criar algo “timeless”, reverenciando a herança do hip hop. Vá ouvir e veja como e por que ele conseguiu.

Ouça: Victory Lap (feat. Stacy Barthe), Dedication (feat. Kendrick Lamar), Last Time That I Checc’d (feat. YG)

19. Khruangbin – Con Todo El Mundo

O som muito único desse trio de Houston viaja por diferentes continentes mas unido por uma vibe psicodélica e indie que funciona como cola. É a música de fundo perfeita de 2018.

Ouça: Cómo Me Quieres, August 10

18. Avantdale Bowling Club – Avantdale Bowling Club

Uma amiga que me ensina coisas sobre música todos os dias apontou esse álbum e eu fui ouvir desavisado (a coincidência é que a melhor música do disco se chama F(r)iends). Saí com a impressão de um grande álbum de jazz e hip hop na esteira da melhor produção pós-To Pimp a Butterfly. O fato de ser um jovem de 30 anos de um subúrbio da Nova Zelândia contando suas coisas de lá só torna a coisa ainda mais louca.

Ouça: Years Gone By, F(r)iends

17. Kanye West – ye

Sério? Sério. O ano de Kanye West foi um dos mais loucos da sua carreira, e olha que os paradigmas que ele mesmo criou são muito, muito altos. Apesar de desprezar muito do que ele fez em matéria de filosofia e política esse ano (sem deixar de pensar que a saúde mental é uma questão em jogo, portanto sem julgamento moral aqui), os discos que saíram das Wyoming Sessions estão entre os discos de 2018 seja pelo conteúdo, seja pela inovação formal. ye é uma importante contribuição para o cânone do Mr. West.

Ouça: Yikes, All Mine, Ghost Town

16. Jeff Tweedy – Warm

Como diz meu amigo Bazzan, Jeff Tweedy é incapaz de compor uma música ruim. Warm é um “acompanhamento” para seu brilhante livro de memórias, Let’s Go (So We Can Get Back), e ele mostra um artista relaxado, certamente no melhor momento de sua vida pessoal, o combustível desse disco precioso.

Ouça: Some Birds, Let’s Go Rain, I Know What’s Like

15. Stephen Malkmus & The Jicks – Sparkle Hard

Um dos melhores discos de rock do ano vem de um veterano do indie, numa época em que eles cada vez menos correspondem a expectativas — os tempos mudaram. Instalado confortavelmente na sua, mas sem recorrer a glórias evidentes do passado (do Pavement), Malkmus entrega um produto sem dúvida do presente (e divertido, oras).

Ouça: Middle America, Kite

14. Jon Hopkins – Singularity

Disco audiovisual do celebrado produtor inglês — a dica é ouvir no mobile porque lá a imagem faz parte do álbum. O refinamento é evidente até para ouvidos desatentos, e o techno aqui é também um fio condutor interessante por outros estilos. É O disco do after em 2018 (e pode ser em 2019 também).

Ouça: Singularity, Everything Connected

13. CHAPPO – DO IT

O tipo de coisa para qual o Twitter deveria funcionar: esse disco apareceu na minha timeline do nada, e sem motivo nenhum eu cliquei e ouvi. Um trio indie rock do Brooklyn, em Nova York, e uma mágica incompreensível. Depois descobri que a banda já tinha dois discos, sofreu várias mudanças e passou por tragédias pessoais para criar esse disco. É uma viagem de ácido por uma metrópole: rock psicodélico, sintetizadores pop, melodias grudentas, uma qualidade indie cara de pau.

Ouça: American Dream, Get Back, Masquerade

12. The Carters – Everything is Love

Mais um disco pouco celebrado pela crítica americana, mas o encerramento de uma trilogia de proporções gigantescas. Aliás, tudo é superlativo nesse disco: se fala em bilhões de dólares, legado imortal, extravagância. Beyoncé e Jay-Z estão onde estão porque são dois artistas megatalentosos e, casados, resolveram fazer um disco — que saiu conectado com o que de melhor acontece hoje em dia. Uma beleza.

Ouça: SUMMER, APESHIT, NICE, LOVEHAPPY

11. Denzel Curry – Taboo

Um disco que aparenta ao mesmo tempo confusão e conceituação de um jovem rapper da Florida que já vinha chamando atenção da crítica e do público desde, pelo menos, 2016 — aqui ele consolida um caminho próprio num gênero em puro processo de ebulição (o Soundcloud rap, o mumble rap, etc), e é isso o que os grandes artistas fazem.

Ouça: SIRENS | Z1RENZ [FEAT. J.I.D. | J.1.D.], TABOO | TA13OO, BLACK BALLOONS | 13LACK 12ALLONS [FEAT. TWELVE’LEN, GOLDLINK], PERCS | PERCZ, VENGEANCE [FEAT. JPEGMAFIA, ZILLAKAMI]

10. Low – Double Negative

O Low existe desde 1993, mas foi apenas com Double Negativeo disco sad & horny de 2018 — que bateu (aqui). Não vou nem tentar definir esse álbum, que bebe das origens “slowcore” e pós-rock da história da banda, mas explora de maneira imperativa camadas eletrônicas e furiosos vocais com auto-tune. Uma viagem.

Ouça: Dancing and Blood, Always Trying to Work It Out

9. Travis Scott – Astroworld

O hype desse disco foi TÃO imenso que na verdade só saberemos o que ele significa de fato daqui uns 10 anos (chuto). Hoje é dia 21/12 e o verso “I did half a xan / 13 hours till I land”, que o Drake canta em Sicko Mode, ainda me incomoda profundamente por ser uma das coisas mais estúpidas que um homem de sua idade e estatura no mundo pop poderia falar. Mas é injusto colocar ESSA sombra sobre o incrível trabalho de curadoria de Travis Scott e sua exploração desmedida pelo trap. Icônico demais.

Ouça: CAROUSEL, STOP TRYING TO BE GOD, SKELETONS, WHO? WHAT!, HOUSTONFORNICATION, COFFE BEAN

8. Spiritualized – And Nothing Hurt

Esse talvez seja o disco mais simples da carreira do Spiritualized, então se a busca é pelo space-rock shoegazeiro dos anos 1990, essa não é sua raia. Mas o disco é um conjunto de canções que servem para os dois tipos de viagem que você está pensando agora, sempre explorando uma dualidade bem resumida nos primeiros versos de I’m Your Man: ““I could be faithful, honest and true / dependable all down the line. / But if you want wasted, loaded, permanently folded … I’m your man.” Maravilhoso.

Ouça: I’m Your Man, Here It Comes (The Road) Let’s Go, The Prize, Let’s Dance, Damaged

7. Playboy Carti – Die Lit

Como eu disse há pouco, o que os grandes artistas fazem é criar um caminho para si mesmos (sem esquecer do passado e não ser o tonto que acha que está inventando a roda, é verdade). Agora, quando a pessoa inventa um IDIOMA para si, é porque a coisa é realmente louca. Depois de um sucesso absurdo com Magnolia, e uma mixtape sem brilho em 2017, Playboy Carti entregou em 2018 o melhor álbum de Atlanta ao criar um roteiro próprio nos caminhos do trap e do mumble rap, numa vibe esfumaçada e delirante que prescinde de explicações.

Ouça: Love Hurts (feat. Travis Scott), Right Now (feat. Pi’erre Bourne), Fell In Luv (feat. Bryson Tiller), Poke It Out (feat. Nicki Minaj)

6. Leon Bridges – Good Thing

Se em Coming Home, de 2015 (sua estreia viral, indicado para o Grammy de melhor disco de R&B), Bridges mirava o altar sagrado do gênero ao gravar as músicas com a banda ao vivo, num chão de estúdio, agora ele apresenta canções ainda de amor (quase sempre), mas com uma roupagem que se não foge do retrô, tem um inconfundível sabor contemporâneo. No primeiro beat de Bad Bad News está o “novo” Leon Bridges: o baixo suingado de funk faz a cama para a autoafirmação da música. As três próximas, Shy, Beyond e Forgive You, mostram que a proposta artística nascente do primeiro disco se manteve, mas agora explorando mais sintetizadores e melodias. Uma reinvenção pop do R&B mainstream, vinda de um enorme talento muito jovem. Grande disco.

Ouça: Bet Ain’t Worth the Hand, Shy, Beyond, You Don’t Know

5. Kids See Ghosts – Kids See Ghosts

O melhor Kanye West na frente do microfone esse ano, e o melhor Kid Cudi desde… quando? Man on the Moon II? As Wyoming Sessions propuseram um novo formato de álbum (7 músicas e 20 e poucos minutos, ao contrário da corrente artisticamente desprezível que é botar um milhão de músicas no mesmo disco para gerar números de streaming), e o formato que sempre é importante ganha valor dobrado aqui porque, afinal, esses discos soam como discos, independente do tempo. Mistura de hip hop experimental, nova psicodelia, R&B, grunge, rock — enquanto Kanye e Cudi se liberam para explorar os seus próprios demônios, o resultado é uma obra incrivelmente meticulosa para o método em que foi produzida e lançada. É um tipo de brilhantismo atingido raramente, coisa de uma vez por geração. Kanye tem uma mania de conseguir fazer isso com certa frequência.

Ouça: 4th Dimension (feat. Louis Prima), Reborn, Kids See Ghosts (feat. Yasiin Bey), Cudi Montage

4. Buddy – Harlan & Alondra

Foi uma jornada de seis anos entre sua estreia na cena de Los Angeles — Buddy é de Compton, afinal — e esse que é seu primeiro disco. Harlan & Alondra é um cruzamento de ruas na sua cidade natal, que embora conhecida pela narrativa das ruas violentas onde o hip hop da costa oeste floresceu, aqui aparece com um toque mais solar. Buddy é um rapper com alma de soulman, e isso transparece com brilho nas suas escolhas musicais. Uma música como Black, porém, mostra um flow apurado, agressivo, evidenciando um artista que, se não teve sua trajetória sugada para dentro das dificuldades sociais de sua vizinhança, é consciente do que acontece ao seu redor. Enfim, a junção de rap e soul mais bem sucedida desse ano, e essa parceria, todo mundo sabe, resplandece.

Ouça: Black (feat. A$AP Ferg), Trouble on Central, The Blue (feat. Snoop Dog), Trippin’ (feat. Khalid), Speechless

3. Pusha T – Daytona

Pusha brilhou ao destruir Drake no rap beef mais comentado do ano, mas logo antes disso, é preciso lembrar, ele vinha de um álbum que sob vários aspectos beira a perfeição. Porque inovação não é tudo. Mas quando um artista há tanto tempo no mainstream consegue aperfeiçoar tudo que cerca sua arte — flow, rimas, ganchos (refrões), produção (toda de Kanye West, ele também utilizando aqui velhas ferramentas para apresentar um trabalho novo), estratégia de lançamento, divulgação e apresentação… bem, é preciso reconhecer o esforço. Em 7 faixas, 21 minutos. Se os temas são velhos conhecidos, aqui eles aparecem mais mordazes do que nunca. É um disco sombrio para um ano sombrio, e pesquisa aí no Genius, qualquer música tem um verso que vale para o disco o título de rap album of the year.

Ouça: If You Know You Know, The Games We Play, Infrared, Santeria, What Would Meek Do? (feat. Kanye West)

2. Soccer Mommy – Clean

O ano do indie rock foi das mulheres (Mitski, Snail Mail, Lykkie Li, Courtney Barnett e o novo boygenius lançaram discos interessantes), mas nenhuma delas alcançou um set autoral tão direto, limpo e apaixonado como de Sophie Allison (a pessoa por trás do Soccer Mommy). Os vocais um tanto nebulosos cantam letras que carregam uma simplicidade enganadora: “I wanna be that cool”, diz em Cool, sobre uma pessoa x, mas o clima da música revela um tipo de insatisfação com esse “ideal”. Em Your Dog, ela propõe uma deliciosa releitura do clássico do Stooges para dizer: “I don’t wanna be your fucking dog”. O melodrama que existe nos sentimentos adolescentes transparecem aqui sem nunca cair numa pieguice pop tão comum: e se Taylor Swift é uma inspiração confessa da cantora e compositora, isso é o que Taylor provavelmente seria se seu alvo não fosse uma legião.

Ouça: Still Clean, Cool, Your Dog, Blossom, Wildflowers

1. Noname – Room 25

Antes de todas as suas exuberantes qualidades musicais, Room 25 é o romance de formação de 2018. Cheia de vulnerabilidades, comentários sociais, triunfos pessoais, consciência e amor pela música, a poesia de Fatimah Warner transparece aqui num flow descontraído que não sai dos trilhos construídos pela produção jazz/neo-soul do seu conterrâneo de Chicago, Phoelix. Aqui estão histórias de amores não correspondidos, realização de sonhos, responsabilidade sobre as próprias vitórias, tudo isso sem nenhuma pretensão de compartilhar detalhes demais, tentação máxima da vida nas redes sociais. Embora a política se mostre mais claramente numa faixa como Blaxploitation (em que uma fúria ainda não vista aparece na voz e no flow da cantora), ela é um assunto subjacente, e ao não levantar bandeiras explícitas, Noname torna seu trabalho universal. Pouco interessada nos tabloides, a rapper tem tempo de se dedicar às canções que a colocam num lugar único do rap americano, e ela é generosa o suficiente para compartilhar conosco sua própria busca. Um verso como “Fucked your rapper homie, now his ass is making better music / My pussy teachin ninth-grade English / My pussy wrote a thesis on colonialism” é inesquecível. Se com Telefone, em 2016, ela prometia um trabalho consistente, em Room 25 ela entrega com juros. O disco do ano.

Ouça: Blaxploitation, Don’t Forget About Me, Self, Window (feat. Phoelix), Ace (feat. Smino, Saba) 

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