Mais sobre o fantasismo brasileiro — #3
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Mais sobre o fantasismo brasileiro — #3

Bruno Anselmi Matangrano (FFLCH-USP) e Enéias Tavares (UFSM) comentam em entrevista as ideias do livro 'Fantástico Brasileiro – O Insólito Literário Do Romantismo Ao Fantasismo'

Guilherme Sobota

12 Setembro 2018 | 10h37

Aqui a terceira (e última) parte da série do blog sobre o fantasismo brasileiro. O fantasismo é um novo movimento literário proposto pelos pesquisadores Bruno Anselmi Matangrano (FFLCH-USP) e Enéias Tavares (UFSM) no livro Fantástico Brasileiro – O Insólito Literário Do Romantismo Ao Fantasismo (Arte & Letra).

Na primeira parte da entrevista, eles comentam o uso do termo “insólito”, o preconceito com a literatura fantástica, e explicam como ele se sedimentou no Brasil. Na segunda parte, eles falam sobre os estudos universitários do elemento insólito na literatura brasileira e apresentam a proposta do fantasismo.

Aqui, a dupla explica com detalhes a definição do conceito, e também a relevância dos booktubers e outras plataformas multimídia importantes para o movimento.

Eneias Tavares e Bruno Anselmi Matangrano. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Pergunta: Vou pedir para vocês elencarem em tópicos os aspectos centrais do fantasismo.

Bruno: O fantasismo nasce da vontade explícita de um grupo significativo de escritores nos quais há uma intenção de fazer literatura fantástica, de modo geral, e de escrever fantasia, em particular. Por isso, fantasismo. A fantasia – um dos modos narrativos mais recentes dentre as subcategorias do insólito – tem se mostrado um dos mais versáteis e mais recorrentes. Hoje em dia, é rara a obra fantástica que não traga características típicas da fantasia, que, por sua vez, nasce da vontade de construir universos, dentro ou fora, da realidade.

Desse modo, surgem diversas categorias híbridas, como “fantasia sombria” (mesclando fantasia ao terror), “steamfantasy” (fantasia somada ao steampunk), “fantasia científica” (fantasia mais ficção científica), etc. Em todas essas vertentes, percebe-se uma preocupação com a construção de um mundo divergente de nossa realidade. Com esse florescimento da fantasia em escala mundial, é natural notar um aprimoramento com o passar dos anos. Isto é, se num primeiro momento, as fantasias brasileiras na maior parte das vezes colavam-se aos modelos estrangeiros, às vezes de modo quase caricato ou paródico.

Hoje, ela criou autonomia, como demonstra Ordem Vermelha: Filhos da Degradação, de Felipe Castilho. Assim, podemos dizer que já há uma fantasia tipicamente brasileira. Pautada, sim, no diálogo com a literatura e cinema estrangeiros, mas deglutidos. O que nos leva a outra característica intrínseca ao movimento: o fantasismo é essencialmente antropofágico – como me parece ter sempre sido qualquer movimento nacional de relevo. A partir do que é feito lá fora, os escritores brasileiros encontram a própria voz, criando algo novo, em diálogo com nossa história, cultura e tradição. Mas, antes de tudo, repito, está a intenção.

Todo movimento nasce da vontade de um grupo de escritores de fazer uma literatura diferente da hegemônica. De certa forma, foi o preconceito tão enraizado contra as artes fantásticas durante o século XX, que propulsionou a onda tão forte do insólito contemporâneo. O abafamento de algo sempre gera uma resposta. É irônico, mas também divertido. Além disso, também surge como uma resposta a um esgotamento natural das formas e temas. A literatura é sempre cíclica.

Numa escala mundial, grosso modo é claro, podemos dizer que no romantismo o fantástico teve um bom momento, logo sufocado pelo realismo-naturalismo. No simbolismo, retomou forças, mas depois se dispersou nas vanguardas. No surrealismo, voltou, mas em constante embate com as tendências neorrealistas. E assim por diante, conforme a noção de movimentos se fragmentou num século XX tão efervescente. O fantasismo, no século XXI, parece ser um novo momento da literatura fantástica, mas também uma resposta a um abafamento longo demais. Pois, até então, no Brasil, o insólito nunca tinha conseguido de fato romper a resistência, como em outros países, e atingir um público além de seu nicho. Por isso agora, surge com a força da vontade contida por tanto tempo, amparada pelo público, pelo mercado e pela academia.

Enéias: Eu acrescentaria apenas a preocupação tecnológica e transmidiática de muitos desses autores que identificamos como fantasistas. Hoje, projetos transmídia são comuns em universos fantásticos que se espraiam do cinema para os quadrinhos, para os livros, para os jogos, para a internet. No Brasil, e no que tange à literatura, isso ainda é recente, mas já vemos autores como Christohper Kastensmidt, Affonso Solano, Eduardo Spohr e Leonel Caldela, por exemplo, produzindo suas obras em diálogo com jogos de RPG, quadrinhos, peças musicais e portais virtuais de universos expandidos. Esses projetos não apenas apresentam a literatura brasileira contemporânea a outras audiências como extrapolam a noção tradicional que temos de narratividade.

O título do epílogo é uma pergunta (“um novo movimento literário?”). Ainda há alguma dúvida? O conceito já tem alguma circulação anterior na academia?

Bruno: Anterior ao nosso livro? Praticamente, não. A pergunta é mais uma provocação do que um questionamento, eu diria. Mas o fantasismo é algo ainda muito novo, um fenômeno sendo vivenciado em tempo real, de modo que é sempre difícil apreender exatamente, já que seus contornos apenas começam a se delinear.

O movimento surge da necessidade de nomear esse grupo que, por muito tempo, autointitulou-se “fandon de fantástico”, por ser ao mesmo tempo, e por muito tempo, a base de fãs brasileira de literatura fantástica quem produzia fantástico, no Brasil. Cunhei o termo fantasismo em 2015, pois na academia sempre estudei movimentos e me dei conta de que aquilo que vivíamos se configurava como um; pouco a pouco, o conceito logo foi compartilhado com amigos escritores, como o próprio Enéias, Felipe Castilho e Eric Novello, e colegas acadêmicos, quando de fato percebemos o comportamento típico de formação de movimento literário na nossa cena fantástica contemporânea. Logo, muitos adotaram a alcunha, não somente escritores, mas também editores, principalmente na cena porto-alegrense, onde o fantasismo é particularmente forte.

Em 2017, fiz três conferências sobre o conceito: na UFSM, UFGRS e na UTFPR. No início desse ano, Enéias, eu e o grupo de pesquisadores, “Fantástika 451”, nascido recentemente na USP, fizemos um bate-papo nessa universidade paulista em torno do fantasismo e do nosso cânone fantástico. No meio de 2018, fui convidado para dar uma oficina explicando o conceito na “Odisseia de Literatura Fantástica”, um evento de Porto Alegre de grande visibilidade, no qual se reúnem escritores, críticos e leitores das vertentes do insólito. Enéias também fez conferências e palestras sobre o assunto, inclusive em Portugal. Logo, o termo começou a ser usado por alguns críticos, o que sem dúvida vai aumentar com a publicação do livro, que, fiquei sabendo, já está sendo citado em artigos acadêmicos – demonstrando a demanda e a carência por esse tipo de material teórico voltado especificamente à nossa cena. Mas o termo se difundiu primeiro entre os escritores e editores.

Enéias: Nada a acrescentar.

Vocês comentam no apêndice que os booktubers têm uma importância fundamental na divulgação dessas obras, e são muito influentes no mercado editorial. Vocês chegaram a fazer alguma análise mais aprofundada da relação desses profissionais com a literatura?

Bruno: O Enéias saberá responder isso melhor do que eu, pois estuda os efeitos transmídia e a recepção do fantasismo contemporâneo, mas posso dizer que os booktubers e blogueiros em geral são hoje importantes para qualquer setor. A mídia está mudando, talvez rápido demais, o que dificulta o distanciamento para entendermos de fato esse fenômeno. O papel da TV mudou. O jornal mudou. As mídias tradicionais estão se adaptando para concorrerem com essa nova forma muito rápida de difusão de informações possibilitadas pela internet. Ou fracassando na sua recusa ante a mudança.

O sucesso da nova forma de mídia, parece-me, está na sua capacidade de viralizar de forma muito espontânea: um vlogueiro influente gosta de um livro e faz um vídeo bastante pessoal; logo, outros vão atrás do livro e experimentam identificação semelhante. Espalhando-se nas redes sociais, a notícia circula rapidamente e o livro passa a ser vendido. É um fenômeno surpreendente, pois se espalha muito rápido. Como eu disse, isso vale para qualquer segmento, mas ao fantástico, em particular, mostra-se ainda mais importante, pois grande parte de seu público sempre foi e continua a ser composto por jovens leitores (e penso numa grande abrangência, desde crianças até jovens adultos), público que mais do que em qualquer outra mídia, informa-se por vias digitais, como parece natural num momento em que tudo se digitaliza em grande velocidade, por assim dizer. Autores e editoras que não buscam esse tipo de contato, muitas vezes não são percebidos pelo público, mesmo quando vencem prêmios ou são estudados pela academia. Ou seja, ignorar essa mídia, significa hoje ficar para trás, correr o risco de não ser lido.

O fantasismo cresce tanto, pois abraçou de imediato as mídias digitais, não apenas pela familiaridade com quem a produz, mas também, em grande medida, por durante muito tempo não ter encontrado espaço nas mídias tradicionais. O que felizmente, também está mudando. O que é bom para todos os lados, é claro.

Enéias: Eu colocaria os youtubers no mesmo conjunto que citamos no livro como “divulgadores literários”, grupo que compreende também blogueiros e podcasters. O objetivo dessas mídias de divulgação e comentário de literatura é apresentar obras e autores a públicos mais jovens ou que os desconhecem, muitas vezes falando sua língua e dialogando diretamente com suas comunidades. Esses divulgadores substituirão os críticos literários tradicionais? Não. Essas mídias substituirão os periódicos? Também não. São objetivos diferentes para públicos diferentes, que podem e devem dialogar.

Um exemplo muito interessante disso é o caso do professor e pesquisador da Universidade Federal de Goiás, Alexander Meireles da Silva, que também é youtuber. Ele é responsável pelo canal Fantasticursos, um canal que promove discussões bem interessantes sobre diferentes tipos de insólito, tanto nacionais quanto estrangeiros. O exemplo dele vai ao encontro do que mencionei acima, sobre a ausência de medo de muitos pesquisadores do fantástico em se aventurar em novas mídias, compreendendo sua importância como uma forma válida de promover literatura e cultura.

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Também estou no Twitter: @guilhermesobota.

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LEIA AQUI: Pesquisadores propõem um novo movimento literário brasileiro: o fantasismo

A PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA: Mais sobre o fantasismo brasileiro — #1

A SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA: Mais sobre o fantasismo brasileiro — #2