Mais sobre o fantasismo brasileiro — #2
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Mais sobre o fantasismo brasileiro — #2

Bruno Anselmi Matangrano (FFLCH-USP) e Enéias Tavares (UFSM) comentam em entrevista as ideias do livro 'Fantástico Brasileiro – O Insólito Literário Do Romantismo Ao Fantasismo'

Guilherme Sobota

06 Setembro 2018 | 11h42

Aqui vai a segunda parte da série do blog sobre o fantasismo brasileiro, a continuação da entrevista com os pesquisadores Bruno Anselmi Matangrano (FFLCH-USP) e Enéias Tavares (UFSM). Eles lançaram recentemente o livro Fantástico Brasileiro – O Insólito Literário Do Romantismo Ao Fantasismo (Arte & Letra).

Nesse segmento, eles comentam os estudos universitários sobre o elemento insólito na literatura brasileira e detalham a proposta do fantasismo.

Eneias Tavares e Bruno Anselmi Matangrano. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Pergunta: Vocês fazem ao longo do livro todo leituras de autores canônicos geralmente pouco associados à literatura fantástica/insólita, como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, por exemplo, para citar dois dos mais conhecidos. Minha pergunta é: por que essa leitura é rarefeita nos estudos literários brasileiros? Ou me corrijam se eu estiver errado.

Bruno: Na verdade, felizmente os estudos do insólito e suas diversas vertentes estão em grande expansão no Brasil, voltando-se à autores do cânone e fora dele. Mas você tem razão quando diz que por muito tempo autores como Graciliano e Rosa tiveram seu lado fantástico apagado, ignorado ou negligenciado pela crítica acadêmica e jornalística; mas a situação vem mudando gradualmente ao longo dos últimos vinte anos, graças aos esforços de alguns grupos de pesquisadores.

Houve um tempo em que se dizia que ninguém estudava fantástico no Brasil e isso era praticamente verdade, embora sempre tenha existido uma pequena resistência. Hoje temos congressos e eventos, voltados ao público acadêmico e ao público leitor em diversas partes do país, bem como selos editoriais, revistas científicas, revistas literárias e outros tipos de publicações voltadas especificamente a esse segmento. Creio que esse fenômeno se deva ao que o pesquisador Roberto de Sousa Causo, um dos pioneiros no estudo do fantástico brasileiro, chama de “troca de guarda”. Jovens que cresceram lendo e gostando de fantástico, formaram-se críticos e jornalistas e passaram a se dedicar com afinco ao estudo das vertentes do insólito, atingindo cargos em universidades e editoras e, consequentemente, formando uma nova geração que, pouco a pouco, já não verá mais esse tipo de literatura com o mesmo preconceito das gerações anteriores.

Quanto ao porquê de os estudos do fantástico terem sido raros nas décadas passadas, a resposta é a mesma que dei antes: preconceito com uma literatura que vende e entretém, somada à busca por uma literatura “séria” definidora de uma identidade nacional. Como se o folclore, a religiosidade, as superstições, os mitos, o misticismo e demais elementos-base de qualquer narrativa fantástica não estivessem no cerne do que é ser brasileiro, povo nascido dessa mistura de cultura popular e erudita das mais diversas origens. De novo, Mário de Andrade percebeu isso muito bem antes de muitos outros. Felizmente, muitos têm percebido isso também, como atesta não apenas o crescente número de estudos do fantástico no Brasil, como também a publicação de obras insólitas preocupadas em retratar a identidade nacional e dialogar com essas múltiplas referências.

Enéias: Além das razões que tratamos antes, eu também acho que há uma ausência problemática na nossa literatura como um todo e essa ausência tem muito a ver com literatura fantástica: falo da noção de heroísmo. Os nossos românticos até tentaram – sobretudo Gonçalves e Alencar – com uma visão heroica do nativo, mas uma visão que além de idealizada, não atendia a um público leitor enquanto potencial de identificação. Você não se identifica com Juca Pirama ou Peri, não é mesmo? Não temos grandes heróis.

Ao contrário, a nossa literatura valoriza a crítica, a ironia e a jocosidade dos nossos heróis e protagonistas. Estou sempre me perguntando isso: quem são nossos heróis literários? O que você tira de Casmurro, Quincas e Brás, por exemplo, além de amargura, ingenuidade e cinismo? Nosso modelo é o herói sem caráter. Ora, que tipo de adulto é formado com essa ideia de ausência de heroísmo. A literatura fantástica, por outro lado, está repleta de heróis e, sendo bem ou mal desenvolvidos, eles ofertam ao público um modelo positivo. Assim, o que é rarefeita é a nossa noção de heroísmo e é ela que precisa ser resgatada, redescoberta ou então recriada. Eis o papel do insólito enquanto corrente teórica necessária em um país como o nosso, que precisa urgentemente encontrar caminhos para se reinventar e reinventar seu futuro, seja ele na política, na educação ou na cultura.

O que essa associação (de nomes canônicos aos estudos de literatura fantástica/insólita) pode significar para a história literária e para os estudos desses autores?

Bruno: Imagino que todos têm a ganhar com essa associação. A literatura assumidamente fantástica ganha, pois essa aproximação pode diminuir o preconceito de que seria algo infantil ou simplista (como muitos propagam), de modo a mostrar que o fantástico também pode ser “literatura séria”, lugar tanto de reflexões político-sociais, quanto de experimentações estético-formais (o livro do Enéias, A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, é prova disso).

Já a literatura canônica ganha quando é relida com outros olhos, também despida do preconceito de que “se é clássico, é chato”, “se é clássico, precisa ser difícil”, etc. Imagino eu – ou ao menos tenho essa esperança – de que um leitor crescido em meio à literatura fantástica, quando mais velho, já leitor, verá com muito mais simpatia um Machado, um Guimarães ou um Aluísio de Azevedo se puder identificá-lo com o insólito que tanto o encantou. Em suma, essa aproximação quebra preconceitos de ambos os lados, algo sempre bem-vindo. Com o tempo, isso pode resultar numa história literária mais abrangente, menos elitista, e mais representativa do que de fato é lido e apreciado, numa revisitação de autores clássicos por tanto tempo considerados “chatos e inacessíveis”, bem como no resgate de obras ignoradas apenas por seu viés fantástico.

Enéias: Há uma constância em todas as culturas com respeito aos seus grandes artistas: sua permanência está em sua capacidade de serem revistos completamente em diferentes contextos e culturas. Um grande autor não morre porque ele é sempre novo para uma audiência diferença. Isso vale para Shakespeare, para Goethe e para Wilde. E isso também vale para autores como Aluísio, Guimarães ou Amado. Serem vistos hoje como autores que possuem uma dimensão fantástica apenas oferta a estudantes, professores e leitores novas formas de descobri-los. Seus textos permanecem vivos, enérgicos e atrativos. Seus professores ganham novas formas de abordá-los em sala de aula. Seus leitores, novas maneiras de compreendê-los. Ou seja, ninguém perde com essa dimensão renovada de suas obras, sejam as mais conhecidas ou então as que a historiografia jogou para debaixo do tapete.

Ao mesmo tempo, pelo número de obras citadas, é possível dizer que não são raros os estudos voltados para a literatura fantástica, certo?

Bruno: De fato, felizmente, não são poucas as pessoas que estudam fantástico hoje. E esse número não para de crescer. Só desde que nosso livro saiu, já recebemos vários e-mails de pessoas querendo estudá-lo, motivados pelo livro. Mas essa é uma situação relativamente recente. Quando ingressei no curso de letras da Universidade de São Paulo em 2007, estudar fantástico parecia um sonho distante. Não havia, na USP, professores que se voltavam a essas questões de forma sistemática.

No entanto, já naquele momento vivíamos uma transição como fui descobrir: vários colegas já estudavam fantástico, como o próprio Causo, mencionado anteriormente, como fui descobrindo pouco a pouco. Já naquela época, tive apoio de alguns professores, como Claudia Pino e Hélio Guimarães, que, desde o início permitiram que em meus trabalhos eu me embrenhasse pelo fantástico. Por isso, sou muito grato. Mas, de fato, não eram muitos, na altura. E para quem começava, com muito menos material do que há hoje, parecia difícil começar.

Em 2008, por ocasião do Congresso Internacional da ABRALIC em São Paulo, tive a oportunidade de conhecer o professor Flavio García da UERJ e seu grupo “Nós do Insólito”. Soube então que nessa universidade havia gente pesquisando fantástico de maneira sistemática e com muito, muito afinco e rigor. Nos anos que se seguiram, passei a frequentar os eventos anuais do grupo e vi, com muita alegria, o surgimento de diversos livros, da Revista Abusões – periódico inteiramente dedicado ao assunto –, e outras ações que mostram não só o crescimento dos estudos no segmento, mas também o interesse por esse tipo de literatura.

Atualmente, o congresso do grupo do professor Flavio é imenso, um dos maiores da área de letras, reunindo não apenas pesquisadores de todos os estados brasileiros, mas também de outros países, como Portugal, Argentina, Peru e outros. Hoje, para além do grupo “Nós do Insólito”, há muitos outros. Uma rápida busca no diretório de grupos de pesquisa do CNPq mostrará um número muito grande, que se traduz num número ainda maior de teses, artigos e dissertações sobre as mais diversas vertentes do insólito ficcional. Se antes o evento na UERJ era o refúgio de todos os pesquisadores que se sentiam solitários e excluídos por serem “os únicos” pesquisadores de literatura fantástica de suas respectivas universidades, hoje temos eventos recorrentes em universidades de São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Paraná, para mencionar apenas alguns estados.

Enéias: Nem um pouco. E pelo que temos visto – tanto pela reação ao nosso livro como também pelo número de novos projetos, bancas e livros sendo produzidos – esse movimento apenas tente a aumentar. Um outro aspecto importante do público acadêmico que trabalha com o fantástico no Brasil é que ele não tem medo da tecnologia, da mudança, do diálogo e das novas mídias. Esse é um fator importante também.

Se antes a cisão entre pesquisa acadêmica e escola, ou entre meio universitário e mercado editorial, era visível, hoje ela tende a diminuir e muitos dos investigadores do insólito são responsáveis por isso. Muitos deles estão nas redes sociais, promovendo suas pesquisas e seus eventos em canais que a academia tradicional julgava apartados do seu contexto. Nosso livro tem ilustrações, o que denuncia nossa predileção por quadrinhos, livros ilustradores e artes visuais, paixões que eu também divido com o Bruno. Qual foi o último livro crítico/teórico que você leu que tinha ilustrações? Para nós, ter Karl Felippe como ilustrador – e o apoio de Thiago Tizzot como nosso editor – foi fundamental para produzir um livro que fosse informativo, historiograficamente minucioso e teoricamente bem embasado, mas que fosse também bonito e convidativo à leitura. E acreditamos que as ilustrações ajudaram muito nisso.

Vocês explicam ali que no século 21 com o fantasismo há uma espécie de consolidação da literatura fantástica/insólita no Brasil, e nesse tempo é possível ver que autores já constroem toda sua carreira dentro desse gênero (ou seja, pelo que percebi há uma espécie de inversão: agora autores se propõem a fazer isso; e não mais se contentam em acrescentar elementos em obras). É por aí? O que isso significa em termos de produção, distribuição e até recepção das obras (por público, mídia e crítica acadêmica)?

Bruno: Sim, é por aí. Antes, não parecia haver uma “intenção” muito explícita em se escrever uma obra insólita. E a intenção é sempre essencial para a expansão e a defesa de uma ideia em literatura ou artes em geral. Às vezes, escrevia-se fantástico, e tudo bem. Até Chico Buarque tem um livro fantástico. Já aqueles que se dedicavam exclusivamente a esse tipo de literatura, como Murilo Rubião e J. J. Veiga, não raro foram deixados de lado por muito tempo. Essa situação mudou. Atualmente, sinto haver uma postura “combativa”, digamos, de um grupo de autores cuja predileção declarada pela literatura fantástica, enquanto leitores, fez com que quisessem escrever apenas esse tipo de literatura. O público recebeu bem – o sucesso de nomes como André Vianco, Raphael Draccon, Carolina Munhoz, Eduardo Spohr, Felipe Castilho e outros atesta isso. As grandes editoras, num primeiro momento, mostraram-se céticas, o que possibilitou a uma série de editoras de médio, pequeno e micro porte assumirem o papel de publicação de autores de obras insólitas, dando oportunidade a novos autores.

Atualmente, o cenário é outro: temos grandes grupos criando selos exclusivamente para publicação de obras assim, com mudança na postura interna e externa, preocupadas em dialogar com os sucessos de fora e, ao mesmo tempo, buscando um fantástico com cara de coisa brasileira e não mais de cópia do que saía lá fora. Isso acontece também, de certo modo, pela “troca da guarda” nas editoras, mas também devido à pressão do próprio público, o que é ótimo. As editoras perceberam a existência de um nicho a ser explorado, rentável no mundo inteiro, ignorado aqui por puro preconceito enraizado.

Já a crítica, como lhe é natural, foi abrindo espaço para o fantástico gradativamente: primeiro, ao fantástico estrangeiro (impossível de ser ignorado); depois, ao fantástico brasileiro de autores canônicos (se Machado escreveu contos fantásticos, claro que não eram ruins); em seguida, em autores brasileiros antigos, mas negligenciados (como uma Emília Freitas, autora do fim do século XIX que de repente se destaca também por ser uma mulher numa época sobre a qual só se fala de autores homens); e, assim, avançando pouco a pouco até a contemporaneidade. Felizmente, esse processo está cada vez mais acelerado e hoje já é possível encontrar estudos dedicados a obras fantásticas recentíssimas, uma vez que de modo geral – fantástico ou não – o contemporâneo está cada vez mais em voga na academia brasileira. E não apenas na brasileira.

Enéias: Isso também tem relação com uma virada cultural mais ampla. Há duas décadas, leitores de quadrinhos e de fantasia eram tidos como esquisitos, páreas, “nerds” que deveriam ser deixados em seus redutos. Nos últimos anos, eventos como Bienais do Livro e CCXP, entre muitos outros, evidenciam que a anterior minoria agora é uma grande massa de leitores, apreciadores e consumidores apaixonados. Apesar desse fenômeno ser econômico – daí o interesse crescente das editoras pelo fantástico, o que é compreensível – ele obrigou uma parte grande do público e da crítica a olhar para o lado e descobrir outras formas de consumir cultura e arte.

Hoje, os “clássicos” estão no cinema, nos quadrinhos e nos games, por exemplo. É um fenômeno engraçado, de legitimação de uma fatia de público que sempre se sentiu marginal. No que tange ao Fantasismo, esse novo movimento literário que identificamos no presente, ele dialoga diretamente com esse momento da nossa cultura.

Mas ele vai mais longe. Seus autores, ao menos os autores que consideramos mais engajados e atuantes, tanto em suas produções como também em contextos culturais mais amplos, não estão interessados apenas em questões que envolvem mercado e exposição. Antes, são autores que estão também nas escolas, atuando em várias frentes do contexto editorial, não raro quebrando a cabeça para pensar formação de novos leitores, novas mídias e desafios educacionais, muitas vezes levando essas questões para a sua própria literatura, que além de fantástica, apresenta ou revisões do folclore, da memória e da história nacionais, ou então críticas pontuais a momentos do nosso presente, como fazem Christopher Kastensmidt, Bárbara Moraes, Eric Novello e – mais uma vez – Felipe Castilho.

O que isso significa para a recepção das obras por parte do público é justamente a imagem de que agora há uma leitura sendo produzida por autores jovens para jovens leitores. Se antes a educação e a produção literária exemplificavam uma determinada hierarquização de classes e faixas etárias, hoje isso tende a mudar.

LEIA AQUI: Pesquisadores propõem um novo movimento literário brasileiro: o fantasismo

A PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA: Mais sobre o fantasismo brasileiro — #1