Livro de memórias abre portas de acesso à mente criativa de Jeff Tweedy
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Livro de memórias abre portas de acesso à mente criativa de Jeff Tweedy

'Let’s Go (So We Can Get Back)' ainda não foi procurado por nenhuma editora brasileira, segundo agente literário do músico

Guilherme Sobota

08 de janeiro de 2019 | 03h00

Quando Jeff Tweedy revela no seu novo livro de memórias – Let’s Go (So We Can Get Back), publicado nos EUA pela Dutton, do grupo Penguin Random House e ainda sem previsão por nenhuma editora brasileira – que os primeiros discos de que ele se lembra são uma coleção de álbuns com sons de locomotivas, é possível entender ao menos de onde vem sua inclinação a, como ele mesmo diz, “achar música em praticamente qualquer coisa”.

O livro é o que se espera de um livro de Jeff Tweedy (e isso não é pouco): um retrato sensível e com notável sinceridade sobre a infância e o relacionamento difícil com o pai alcoólatra, a adolescência de descobertas na música, a formação e a dissolução do Uncle Tupelo, a trajetória única do Wilco, seus problemas com opioides e, por fim, uma redenção por meio da família e dos filhos.

Além de um fluxo de consciência que abre verdadeiras portas de acesso à mente criativa de Tweedy (como o episódio do disco de trens e um relato detalhado do seu processo de composição lírico), o livro traz histórias curiosas de como o artista começou a se descobrir criativamente.

Um dia, por exemplo, gravou Born to Run, de Bruce Springsteen numa fita cassete, levou para a escola e disse aos colegas que ele tinha feito aquilo. Em um verão que passou enfurnado em casa por conta de um acidente de bicicleta (alô, Bob Dylan), ele conta que aprendeu a tocar guitarra e quando tirou um riff de Chuck Berry, nunca pensou nesse momento como “Oh, um monte de gente sabe fazer isso, e agora eu sei também. Foi ‘merda, eu acabo de inventar o rock and roll!’. Eu não inventei nada, é claro, apenas descobri por mim mesmo, o que é uma maneira incrivelmente poderosa de aprender.”

Falando de literatura, Tweedy diz que anda com livros o tempo todo e que não pensa neles “como montanhas a escalar, ou tarefas a cumprir para ganhar um entalhe no meu cinto ou um distintivo para mostrar”.

Depois de citar William H. Gaas e Henry Miller, ele explica (todas as traduções são minhas):

“I assassin down the avenue” de “I Am Trying to Break Your Heart” não significa nada. Ela vem de um exercício de escrita. Muitas das minhas letras começam assim. Você pode pegar, por exemplo, todos os verbos de um poema de Emily Dickinson e colocá-los lado a lado com todos os substantivos de The Battle Hymn of the Republic” e ver o que acontece. Pode parecer sem sentido no início, mas é incrível como é difícil colocar palavras próximas às outras sem algum significado ser gerado. Seria muito mais difícil memorizar algumas das minhas letras mais abstratas se elas tivessem permanecido apenas sem sentido.

Em outro episódio muito revelador de sua personalidade, Tweedy conta o que um homem que ele conheceu na rehab lhe ensinou sobre o sofrimento: “O meu não é sobre o seu. O seu não é sobre o meu. Todos sofremos o mesmo. Você não tem a chance de escolher o que te faz sofrer. Você apenas sofre. Me deixe dizer as minhas merdas, você diz as suas, e eu estarei lá por você. Ok?”.

Ele já tinha feito vários de seus melhores discos nessa época, enfrentava um estado mental complicado e um vício em opioides (descrito aqui com uma exatidão comovente). O fato de ele ter entendido isso — e ter entendido que a arte não vem, necessariamente, do sofrimento e da dor — é uma luz brilhante que emana dessas páginas.

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