Leonard Cohen era um gigante em tudo que fazia
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Leonard Cohen era um gigante em tudo que fazia

Guilherme Sobota

11 de novembro de 2016 | 00h48

Leonard_Cohen_2181Um dos maiores letristas da história da música popular, músico competente que soube se adaptar às mudanças tecnológicas e encontrar nelas um talento renovado, poeta prolífico que dosava com um equilíbrio único as palavras entre o amor e a morte, romancista arrojado que publicou pouco — Leonard Cohen morreu na segunda-feira, 7 de novembro, e a notícia chegou na quinta, 10. Aos 82 anos, ele deixa agora uma lacuna impossível de preencher.

Como Bowie mais cedo neste ano, Cohen deixou um belo disco de despedida. Como Bowie, mais cedo neste ano, ele teve tempo suficiente para elaborar uma nova série de canções que de alguma maneira muito triste para nós que ficamos para trás antecipou sua própria partida. “I’m ready My Lord”, disse, literalmente, em You Want It Darker, a faixa de abertura do disco homônimo, lançado há apenas 20 dias – 20 dias que passaram numa espécie de transe.

Numa entrevista a The New Yorker, pouco antes do lançamento do álbum, Cohen disse que estava pronto para morrer. Dias depois, numa rara entrevista coletiva, ele usou seu conhecido bom humor. “Eu acho que exagerei. Sempre fui meio de auto-dramatizar. Eu pretendo viver para sempre”, disse, no dia 13 de outubro.

Mesmo com a notícia de hoje, não é difícil dizer que esse último desejo será cumprido.

Como os grandes artistas fazem às vezes sem querer, Cohen parecia carregar uma sensitividade extraordinária, sobre o presente, sobre o futuro.

Em 1992, lançou exatamente The Future, seu segundo álbum convertido ao synth-pop, gênero que lhe conquistou definitivamente com a popularização do sintetizador, instrumento preferido do bardo nos últimos 30 anos. Na faixa-título, inesquecível, dizia: “I’ve seen the future, brother, it is murder”.

Cito sua biógrafa, Sylvie Simmons: “[ele foi aqui] um passo além de Prince — cuja canção chamada The Future diz “I’ve seen the future and boy it’s rough’ — e citando nominalmente Stalin, o Diabo, Charles Manson e Cristo. Leonard cataloga os pecados do Ocidente: crack, aborto, sexo anal, Hiroshima e o pior de todos: maus poetas.

Mais para o fim da biografia I’m Your Man (de 2012, lançada por aqui recentemente), Sylvie dá as aspas para Cohen. “É estranho. Alguns metafísicos me disseram que o tempo na verdade se contraiu. Embora eu não entenda o mecanismo e ache que eles podem estar me enganando, certamente parece verdade“. Ela pergunta se ele tem algo a terminar (foram três álbuns de inéditas desde então), ele ri, diz que nunca vai se aposentar, e que na época sua maior ambição era completar 80 e finalmente poder voltar a fumar.

Mas esta conversa faz parte de outro mundo para mim porque não estou mais nele. Tenho pouco ou nenhum interesse nessas questões.

Cohen — nascido no dia 21 de setembro de 1934, em Quebec, no Canadá — foi um homem apaixonado pela vida e que conseguiu transformar em canções pensamentos, reflexões e sentimentos que foi buscar ao redor do mundo. Viveu em Nova York, na Europa, numa ilha da Grécia, em um templo budista na Califórnia, na Índia. Experimentou amores que renderam canções inesquecíveis, transcendeu com as drogas e com contatos religiosos, buscou em gurus e parceiros talento e inspiração que achava que às vezes lhe fugiam, foi admirado pelos maiores.

Passou por uma recuperação incrível nos anos 2000 depois de sofrer um golpe de uma empresária em que confiava. Suas últimas turnês, entre 2010 e 2013, arrastavam multidões em todas as cidades do mundo em que passava. Os relatos de lágrimas, catarse coletiva, experiências que mudavam vidas eram fáceis de encontrar — eram centenas, milhares.

Sua história de vida é qualquer coisa menos convencional. Sua morte, agora, num momento tão complicado do mundo, nos deixa sem uma estrela a quem seguir. Nunca mais poderemos esperar por um disco de Leonard Cohen, por mais um romance. Temos suas canções, sua voz gravada pra sempre, suas letras. No fim, é a arte que sobra, e passamos todos.

 

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