John Callahan e o politicamente correto
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John Callahan e o politicamente correto

'A Pé Ele Não Vai Longe', de Gus Van Sant, traz Joaquin Phoenix no papel do cartunista de humor ácido

Guilherme Sobota

10 de janeiro de 2019 | 11h37

Joaquin Phoenix e Jonah Hill em cena de ‘A Pé Ele Não Vai Longe’. Foto: Scott Patrick Green, Amazon Studios

Ainda está em cartaz: A Pé Ele Não Vai Longe, o novo filme de Gus Van Sant, conta a história de John Callahan (1951-2010), cartunista norte-americano que desafiou as regras do politicamente correto nos anos 1980 e 1990 nos EUA.

A discussão — os limites do humor e da arte — é renovada constantemente dependendo da guerra cultural em exercício, e aqui ela volta como num ciclo (o filme lançado em 2018 se passa nos anos 1970 e 80).

Antes de prosseguir, é preciso anotar que essa discussão é diferente no Brasil e nos EUA. Aqui, mais do que lá, me parece, ela é usada para fins políticos e éticos que passam longe da liberdade artística, mas, ao contrário, aparece como desculpa na boca de humoristas incompetentes, sem graça e pouco criativos, que se sentem no direito de não arcar com as consequências dos próprios atos.

De qualquer forma, é sempre possível encontrar analistas americanos sérios que atribuem uma parcela de culpa ao “politicamente correto” pela reação eleitoral que levou à vitória de Donald Trump.

Callahan, por sua vez, demonstra nos desenhos um faro certeiro e uma espécie de humor macabro que, de fato, pode ser ofensivo. Os desenhos têm como temas principais deficiências físicas, religião, relacionamentos, televisão e morte.

Em um desenho, um homem pede esmola na rua e o balão diz: “sou cego e negro e não entendo de música, por favor me ajude”. Outro cartum mostra um restaurante, o “The Anorexic Cafe”, e a placa diz “fechado 24 horas por dia”. E talvez no seu mais famoso, um xerife em cima de cavalo, em perseguição a um bandido, encontra uma cadeira de rodas abandonada e diz aos colegas: “não se preocupem, a pé ele não vai longe”.

No auge da sua popularidade no fim dos anos 1990, os desenhos de Callahan eram distribuídos para mais de 200 jornais ao redor do mundo, e ele chegou a produzir duas séries de animação na TV inspiradas em seus personagens.

Assistindo e lendo algumas entrevistas suas na web, é possível notar que o retrato que Van Sant (e Joaquin Phoenix) fazem do cartunista é bastante fiel. No filme — cuja discussão central não é essa, mas sim a recuperação do alcoolismo — o personagem se vê confrontado com cartas de repreensão de leitores, demonstração de preocupação de editores dos jornais e até reações raivosas na rua (“essas são as que eu mais gosto”, diz).

Ele também conta como as reações se alteravam quando as pessoas descobriam sua condição — ele ficou tetraplégico em um acidente de carro aos 21 anos, recuperou parte dos movimentos da parte de cima do corpo e passou a desenhar segurando o lápis com a mão direita e movimentando com a esquerda.

Todos os desenhos são do http://www.callahanonline.com

É importante destacar na discussão do PC a relação entre ética e estética — e no caso de trabalho de Callahan ela tem uma fricção alta, porque ele de fato alcança resultados estéticos notáveis (diferente por exemplo de um comediante como Danilo Gentili, que tenta se apoiar nesse debate, mas falha ao não alcançar resultados artísticos de qualquer valor).

“Quando as pessoas riem muito e logo em seguida dizem ‘Isso não é legal’, pode ter certeza que elas estão falando de John Callahan”, disse certa vez o escritor PJ O’Rourke.

O que não tem a menor lógica é tentar bloquear o debate por decreto: “acabamos com o politicamente correto”, disse algum dos alucinados que assumiram o poder recentemente. Como essa história prova, o debate é contínuo e pode ser produtivo.

O caminho inverso também me parece arriscado: faz sentido alguém (qualquer alguém) questionar a possibilidade de um artista como Callahan exercer o seu trabalho, o seu dom?

Joaquin Phoenix e Jonah Hill (que interpreta Donnie, seu padrinho no AA) estão brilhantes. Van Sant assina também o roteiro (inspirado na autobiografia do cartunista) e a montagem do filme, garantindo um produto muito autoral somado a uma produção rica de Hollywood. O melhor dos dois mundos. Filmaço.

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