Itiban Comic Shop, em Curitiba, completa 30 anos como ponto de apoio do quadrinho brasileiro
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Itiban Comic Shop, em Curitiba, completa 30 anos como ponto de apoio do quadrinho brasileiro

Livraria na capital paranaense é reconhecida como espaço de resistência das lojas de quadrinhos e livrarias por todo o Brasil; arte inédita de Marcello Quintanilha e evento no local comemoram a data

Guilherme Sobota

11 de outubro de 2019 | 15h44

Conhecida como uma das principais referências no quadrinho nacional, a livraria Itiban Comic Shop, em Curitiba, completa 30 anos de existência neste sábado, 12. Para celebrar a data de uma livraria que formou leitores e ajudou a estabelecer um circuito para os quadrinhos fora de São Paulo, o blog convidou quadrinistas, ilustradores, editores e especialistas para compartilhar algumas palavras sobre a loja (veja abaixo) — entre eles, Rogério de Campos, André Dahmer, Sonia Bibe Luyten e DW Ribatski.

A comemoração, na loja (Av. Silva Jardim, 845, Curitiba), começa no sábado, 12, às 11h, com preços especiais, shows das bandas Paraguaya e Giovanni Caruso, Rabo de Galo e Ska The Men, venda exclusiva dos artistas do coletivo Cidade Fria, chopes, quitutes e cafés — e um bolo de aniversário.

A Itiban foi fundada em Curitiba em 1989 por Selma Mitie Taketani Utrabo, a Mitie, e Luiz Francisco Lima Utrabo, o Xico.

Hoje, a loja — vencedora do Troféu HQMix de Melhor Ponto de Vendas em 1998 — tem nas suas prateleiras livros infantis, HQs de super-heróis, quadrinhos autorais mundiais e nacionais, literatura, mangá, RPG, card games, além do ItiClub, clube de leitura mensal e gratuito, e dos bate-papos periódicos com autores de todo o Brasil.

“A diversidade é a principal marca do quadrinho atual. Além disso, com a autopublicação e a possibilidade de venda e distribuição da própria criação, essa arte se tornou democrática. Desde o acesso do leitor até quem está criando e publicando”, avalia a dupla, em um comunicado.

“Não somos outra coisa a não ser isso. (Parar agora) seria como um agricultor perder a própria terra. A Iitban nos permitiu viver com completa liberdade e gerar um valor para a sociedade: explorar um comércio que retorna cultura para as pessoas. As HQs têm uma valia incomensurável, no sentido de promover a humanidade”, finalizam.

O premiado quadrinista Marcello Quintanilha desenhou uma arte exclusiva para o evento. Aqui:

Ilustração de Marcello Quintanilha para o aniversário de 30 anos da Itiban

Leia os depoimentos sobre a Itiban

André Conti (editor da Todavia):

“Poucas pessoas batalharam tanto pelo quadrinho no Brasil quanto a Mitie. Poucas pessoas foram tão importantes para a divulgação dos quadrinhos no Brasil. E absolutamente ninguém fez com tanta paixão.”

André Dahmer (quadrinista, autor de Malvados):

“A Itiban é uma ilha de resistência dos quadrinhos brasileiros. Estive lá em 2012, já não me lembro para qual lançamento de livro. Porém, lembro muito bem da família gentil e hospitaleira que tocava o negócio. Em três décadas, eles fizeram uma casa sintonizada com o que há de mais relevante na cena de banda desenhada nacional. Incrível e imprescindível; uma mostra de como é possível construir coisas importantes usando somente a paixão.”

Cecilia Arbolave (editora da Lote 42, proprietária da Banca Tatuí):

“A Itiban é mais que uma livraria de rua especializada. O trabalho da Mitie e do Xico de abrigar artistas de estilos e propostas tão distintas, de receber editoras pequenas e grandes, de organizar eventos, de estimular o público é uma referência inspiradora. Eles comprovam diariamente como um espaço acolhedor e humano pode não só formar novos leitores como também valorizar e fortalecer o trabalho dos quadrinistas.”

DW Ribatski (ilustrador e quadrinista, autor de Campo em Branco):

“Quando conheci a Itiban, ainda estava no colégio. Chegava antes para fugir para a Itiban, comprar uns quadrinhos. Andava algumas quadras para chegar ali. Tinha uma aura muito mágica. A gente ia todos os dias na banca de quadrinhos para ver se tinha algo novo, mas um amigo me indicou esse lugar que vendia revista importada, que tinha de tudo. Na hora que eu entrei na Itiban, foi um sonho. Tive que conter a emoção para não gritar e pular. Eu fui lá, conheci uns quadrinhos, perguntei algo para o Xico, hoje meu amigo, ele sempre teve um jeito meio grosso: “Como é que é?!” (risos) Comprei lá meu primeiro quadrinho importado, que era de um brasileiro desenhando para os americanos. Acho que era da Image Comics. Na sequência foi bem legal porque tinha um grupo de amigos que marcava de se encontrar lá para desenhar, fazer quadrinhos, fazer zine. Acho que era toda terça e sexta que a gente passava o dia lá na Itiban. Fez parte da minha adolescência, era um lugar de convivência. A gente até lia umas coisas sem comprar. A Mitie sempre teve essa abertura, de querer que as pessoas consumissem no sentido cultural, usufruir das coisas, mesmo se você não fosse comprar. Eu nem entendia a importância de ganhar dinheiro com aquele trabalho. Já não moro mais em Curitiba, mas sempre que vou para lá passo na Itiban porque sempre tem coisas legais. E as conversas…”

João Varella (editor da Lote 42, proprietário da Banca Tatuí):

“Morei em Curitiba entre 2001 e 2009. Muito li, joguei RPG e troquei card naquela loja. A Itiban ajudou na minha formação cultural, no repertório que faço uso na editora. Eu brinco com a Mitie que agora com a editora estou tentando recuperar a grana que eu deixei lá comprando gibis na adolescência. Mas a conta nunca fecha, sempre que vou lá acabo conhecendo uma novidade imperdível.”

José Carlos Fernandes (professor da UFPR e repórter especial da Gazeta do Povo):

“Suspeito que qualquer pessoa que tenha uma mínima ligação com a cultura nutra bons sentimentos pela Itiban – e “bons sentimentos” é uma expressão meio boba que, nos últimos tempos, vale uma vida. Mesmo que não seja frequentador assíduo [eu], um conhecedor de comics, quadrinhos e tudo o que vem junto [também eu], acho que um terço desta cidade – digo assim, no chute – já citou a Itiban, elogiou a Itiban e fuçou para saber o que estava acontecendo por lá. A revistaria/livraria é um lugar. Penso que chamá-la de espaço cultural não faz jus, pois a expressão ficou plastificada. É lugar porque por milagre uma parcela da turma daqui escolheu aquele endereço barulhento para amar, logo, a Itiban é o nosso melhor. Ali habita uma Curitiba jovem, antenada com as outras fronteiras, disposta a aprender – e a encontrar um guru ao lado. Sabe aquela cara que te conta um treco incrível pelo Will Eisner? Do nada? Enquanto folheia… Pois ali a gente encontra.”

Lourenço Mutarelli (escritor, autor de O Filho Mais Velho de Deus, ator, ilustrador e quadrinista):

“Só posso dizer que amo a Itiban. É minha segunda casa, faz parte da minha história. Todos os livros que lanço desde sei lá quando, lanço em São Paulo e no dia seguinte na Itiban. O Xico e a Mitie são minha família.”

Luli Penna (quadrinista, autora de Sem Dó):

“Conheci a Mitie na fila de lançamento do Angola Janga, do Marcelo D’Salete, na UGRAPRESS, a Itiban de São Paulo. Essas duas pequenas livrarias são os super-mega-heróis que fazem o impossível para salvar um mundo quase extinto em que as pessoas se encontram para celebrar livros e voltam para casa mais sabidas, mais felizes e com mais amigos. Para ter uma ideia melhor da beleza e da importância da Mitie, recomendo outro lugar maravilhoso do mundo dos quadrinhos, o site Vitralizado, do Ramon Vitral. Te amo, Mitie! Vida longa à Itiban.”

Marcello Quintanilha (quadrinista, autor de Todos os Santos):

“Não é nenhum segredo que a Itiban é minha comic shop favorita, a que executa as melhores playlists. O quadrinho brasileiro deve a promotores como Mitie e Xico — assim como a Roberto Ribeiro — mais do que se pode imaginar. A abrangência da cena nacional é, em grande medida, resultado direto do empenho e da coragem dessas pessoas.”

Rogério de Campos (quadrinista, editor da Veneta):

“Tanto quanto os quadrinistas, a Mitie Taketani é uma das mais importantes artistas do novo quadrinho brasileiro. A Itiban é sua arte. Mais que uma livraria, a Itiban é uma espécie de centro cultural que tem uma importância que vai muito além das fronteiras de Curitiba. Praticamente todo mundo que conta nos quadrinhos brasileiros já passou por lá.”

Sonia M. B. Luyten (autora de Mangá, O Poder dos Quadrinhos Japoneses e Cultura Pop Japonesa: Mangá e Animê):

“Minha gratidão à Livraria Itiban, na pessoa de Mitie, por ter acreditado há quase 30 anos e lançado em Curitiba meus livros sobre Mangá e Animê. Época esta quando os acadêmicos torciam o nariz para a Cultura Pop Japonesa. Assim como a Itiban, continuei no meu caminho perseverando e acreditando no que fazia. Parabéns pela continuidade.”

E aqui um depoimento tomado, por telefone, da própria Mitie Taketani, sobre o início disso tudo:

“Eu e o Xico nos conhecemos em São Paulo. Ele no meio musical, eu sempre gostei de música, sempre ia aos shows, final dos anos 1980. Encontrei ele por acaso no Madame Satã, ficamos amigos e depois a gente se perdeu. Ele morava na Vila Madalena. “Ah, outro dia a gente se encontra.” Comprei um Spirit do Will Eisner para dar de presente para ele. Muito anta, não lembrava mais do endereço, era na Fidalga. Um tempo depois estávamos numa festa com amigos em comum, minha amiga tinha arranjado o encontro. Era uma festa burguesa no Morumbi, mas nós dois éramos os punks do lugar. Ali nos conhecemos melhor, e daí em diante ficamos juntos. Ele traz uma tradição de quadrinhos maior. Mas eu também gostava.

“Mudamos para Curitiba, SP estava um caos, ele estava decepcionado com a cena musical. Viemos para cá e começamos como banca de jornal. Tinha uma lojinha, mas a gente trabalhava com todas as revistas, jornais, etc. Em algum momento começamos a dar mais atenção para os quadrinhos. A Devir foi uma das primeiras a nos oferecer os importados. Como o Xico era daqui, tinha um conhecimento da cidade, Valêncio Xavier frequentava, essa galera. Era bem underground, todos gostavam de música, teatro, cinema. Revistas de cinema. No fim, um monte de gente carente por esse tipo de coisa começou a frequentar.

“A gente não vê futuro, nunca vimos. A gente sempre trabalhou o hoje muito intensamente, nunca planejamos nada, não temos um modelo de negócio, sempre foi muito orgânico. O futuro para nós seria uma lei do preço único, que funciona em vários países. Daria fôlego não só pra gente, mas para qualquer pessoa que quisesse abrir uma livraria.”

Mitie Taketani e Xico Utrabo. Foto Theo Marques

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