Crítica: ‘Gil Baiana Ao Vivo em Salvador’ une a mente de Gilberto Gil com as ferramentas do BaianaSystem
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Crítica: ‘Gil Baiana Ao Vivo em Salvador’ une a mente de Gilberto Gil com as ferramentas do BaianaSystem

Álbum é mais um bloco na imensa construção coletiva da música baiana, que se explorada com liberdade e ouvida com atenção é uma das proteções mais potentes da cultura brasileira; artistas conversam sobre o disco ao vivo no Youtube, nesta quinta-feira, 30, às 18h

Guilherme Sobota

30 de abril de 2020 | 16h44

Mesmo trabalhando com música todos os dias, ouvindo novos e velhos discos, consumindo muito conteúdo crítico e leituras sobre o assunto, chega a ser inacreditável o poder que ela tem de invadir os ouvidos e colorir o simples fato de estar vivo. Pensei nisso quando ouvi, hoje, o novo disco Gil Baiana Ao Vivo em Salvador (Gegê Produções Artísticas e Máquina de Louco).

O registro foi gravado em um show de Gilberto Gil e BaianaSystem em novembro de 2019, no Parque de Exposições na zona norte de Salvador, e quem pode se convencer que é obra do acaso que o parque costeie a Avenida Dorival Caymmi, acrescentando uma terceira camada de música baiana à mistura dos seus discípulos.

“Sigo no caminho que Gilberto me indicou”, indica Russo Passapusso, vocalista e comissão de frente do BaianaSystem, no interlúdio de Sarará Miolo, uma das sete faixas do disco de 33 minutos — uma verdadeira injustiça ser tão curto.

Foto de Cartaxo, em que Gilberto Gil conversa com a máscara do BaianaSystem

No repertório, o reggae é um dos vértices de um triângulo equilátero, explanado por Russo no material de divulgação, em composição com o ijexá e a “mensagem”.

Os ritmos vertem e jorram dos arranjos liderados pela imensa guitarra baiana de Roberto Barreto, calcados na plataforma soundsystem do Baiana (João Meirelles nas programações, Japa na percussão, Seko no baixo) e nas teclas de Bira Marques.

A mensagem ressignifica alguns dos principais sucessos da carreira de Gil. “Gente estúpida, gente hipócrita”, cantam, Nos Barracos da Cidade. “Ninguém mais tem ilusão / No poder da autoridade / De tomar a decisão / E o poder da autoridade, se pode, não faz questão / Mas se faz questão, não consegue / Enfrentar o tubarão”. Qualquer comentário adicional se faz desnecessário.

E Pessoa Nefasta? Podemos pesquisar e especular quem Gil tinha em mente quando lançou a canção em 1984, no excepcional Raça Humana, mas ao ouvir a música em 2020, no Brasil, é necessário uma manobra desonesta para não pensar na pessoa nefasta que hoje ocupa o mais alto cargo de poder no País, e a voz de Gil, que anda nesta gravação nas regiões mais graves, suplica: “Tu, pessoa nefasta / Tens a aura da besta / Essa alma bissexta / Essa cara de cão / Reza / Chama pelo teu guia”.

Arte de Cartaxo para o disco

O disco também caminha sobre áreas sutis da produção gilbertiana, em Extra e Emoriô, canta o amor de Is This Love (Bob Marley) e abre licença para canções do Baiana, Água, Dia da Caça, Systema Fóbica, usando ferramentas pós-tropicalistas para a expressão pós-moderna e hiper-contemporânea do grupo mais jovem, na maneira como as músicas se entrelaçam.

O uso da palavra “plataforma”, para o BaianaSystem, aliás, não é em vão: conversando com a tradição e abrindo diálogo com artistas de gerações anteriores (com Gil, Antonio Carlos Jocafi, outros), e ao mesmo tempo pavimentando a calçada para novos artistas (veja aqui), a banda funciona como uma extensão de alta voltagem, conectando passado, presente e futuro, um tipo de conquista de amplitude estética ainda a ser avaliada por gente mais importante do que eu.

Esse disco, curtinho, é mais um bloco na imensa construção coletiva da música baiana, algo que, se explorado com liberdade e ouvido com atenção, é uma das proteções mais potentes da cultura brasileira e, em último caso, da humanidade do País.

“É essa fusão de momentos, contextos, histórias”, diz Gilberto Gil, um mestre da generosidade amorosa na MPB, no material de divulgação do disco. “O BaianaSystem é uma banda com esse ecletismo. É a Bahia, né? A Bahia tá viva aqui.” Saravá!

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Os artistas conversam sobre o disco ao vivo no Youtube, nesta quinta-feira, 30, às 18h. Você pode acompanhar abaixo:

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Há também um clipe já divulgado com Emoriô/Dia da Caça:

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Veja a ficha técnica do disco Gil Baiana Ao Vivo em Salvador:

REPERTÓRIO

  • 1. IS THIS LOVE (Bob Marley)
  • 2. NOS BARRACOS DA CIDADE (Gilberto Gil / Liminha) Incidental: SYSTEMA FOBICA (Russo Passapusso)
  • 3. EXTRA (Gilberto Gil)
  • 4. PESSOA NEFASTA (Gilberto Gil)
  • 5. SARARÁ MIOLO (Gilberto Gil)
  • 6. EMORIÔ (Gilberto Gil e João Donato) / DIA DA CAÇA (Russo Passapusso)
  • 7. ÁGUA (Antônio Carlos e Jocafi /Ubiratan Marques/Roberto Barreto/Russo Passapusso) Citação:
    ÁGUA DE BEBER (Tom Jobim/Vinícius de Moraes)

Ficha Técnica

Voz, violão e guitarra – Gilberto Gil
Guitarra e Guitarra Baiana – Sérgio Chiavazzolli
Vocais – Nara Gil
Voz e vocais – Russo Passapusso
Guitarra baiana – Roberto Barreto
Baixo – Sekobass
Guitarra – Junix 11
Bases eletrônicas, Programação de bases e synths – João Meirelles
Teclados – Bira Marques
Bateria e percussão – Ícaro Sá
Percussão – Japa System

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Capa e Projeto Gráfico: Filipe Cartaxo
Seleção de Repertório: Roberto Barreto e Russo Passapusso
Fotografias: Filipe Cartaxo, Rafael Rocha e Robério Braga

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Produção Executiva – Flora Gil e Simon Fuller
Produção – Fafá Giordano, Maria Fortes e Fefe Oliveira
Coordenação A&R – Fabio Silveira
Diretor Técnico – Paul Lewis
Técnico de P. A. Baianasystem – Vitor Vaughan
Técnico de P.A. Gilberto Gil – Leco Possollo
Técnico de monitor Baianasystem – Regivan Santa Bárbara
Técnico de monitor Gilberto Gil – Gustavo Mendes
Iluminação – Ligia Chaim
Direção de arte – Filipe Cartaxo
Roadies BaianaSystem – Rasta e Pavão
Roadie Gilberto Gil – Thiago Braga
Gravado por Daniel Carvalho
Mixado e masterizado por Daniel Carvalho no estúdio Casa da Nina
Gravado Ao Vivo em Salvador em Novembro/2019
Selos: Máquina de Louco e Gegê

Capa do disco ‘Gil Baiana Ao Vivo em Salvador’

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