‘Em Chamas’, Lee Chang-Dong
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‘Em Chamas’, Lee Chang-Dong

Consciência com que o diretor coreano fala sobre o próprio filme dá pistas sobre o elevado caráter estético da obra, um triângulo amoroso transformado em thriller às avessas

Guilherme Sobota

14 Novembro 2018 | 11h49

Na cena central de Em Chamas, o novo filme de Lee Chang-Dong, em cartaz nesta quinta-feira, 15, Haemi (Jong-seo Jeon) tira a parte de cima da roupa e dança um balé ao som de Générique, música que Miles Davis fez para Ascensor para o Cadafalso, o filme de Louis Malle de 1958.

Além da espetacular direção da cena, filmada no momento exato do pôr do sol (já referenciado antes no filme, num emocionante monólogo em que a personagem afirma ser tomada pela vontade de desaparecer, como a luz; uma metonímia do próprio filme, como veremos), é curioso notar como ela começa a dançar fazendo um sinal de pomba da paz com as mãos.

Um minuto antes, ao apontar para o norte nas planícies, ela diz “logo ali fica a Coreia da Norte”.

Mesmo num filme que resista tanto aos significados (o diretor disse numa entrevista que gostaria que os espectadores se distanciassem da narrativa, “ao invés de serem mergulhados nela”, e terem a experiência do filme como observadores externos), é irresistível associar os outros dois personagens principais, Jongsu (Ah-In Yoo) e Ben (Steven Yeun), às duas Coreias.

Jongsu é um mistério que começa obscuro e termina completamente não desvendado: sisudo, ele parece querer impedir qualquer tipo de conexão ou mesmo, para usar as palavras do diretor, observação externa. Ele é a Coreia do Norte.

Ben, por outro lado, é um sedutor milionário que encampa diversas influências norte-americanas (Jongsu o compara ao Grande Gatsby, e em outro momento ele aparece com um livro de Faulkner nas mãos). Dirige um Porsche, vive num apartamento gigante para os padrões coreanos mostrados no filme e “cozinha massa ouvindo música”. Ele é a Coreia do Sul.

Meu conhecimento de história das Coreias é nulo, mas a associação ganha um significado quando a personagem que sustenta o triângulo faz um símbolo da paz um minuto depois da única citação da Coreia do Norte no filme todo.

Os personagens Jongsu, Haemi e Ben, em cena de ‘Em Chamas’. Foto: Pandora Filmes

O personagem principal de Em Chamas é Jongsu: um homem que na primeira cena do filme aparece fazendo um bico carregando um saco (como um estivador urbano), mas minutos depois se revela um escritor em formação. Sua sensibilidade indesvendável tem portas de acessos aqui e ali no filme (como quando ele comparece a um julgamento em que seu pai é réu), mas é sua paixão por Haemi que move as ações.

Até que Ben aparece e o longa toma um formato de thriller às avessas.

“Ao contrário de thriller de mistérios convencionais que permite aos espectadores juntar as peças de um quebra-cabeça, Em Chamas faz você questionar o próprio quebra cabeça”, diz o diretor.

“Há certa raiva que todos experimentamos vivendo nessa era, especialmente jovens que se sentem pressionados sobre seu valor próprio num ambiente hiper competitivo. Nessa era pós-moderna tudo se tornou ultra sofisticado, conveniente e cool, mas abaixo da superfície há dor, conflitos de classe e pressão por competir”, acrescenta.

O filme é baseado num conto de Haruki Murakami (Queimar Celeiros, do livro O Elefante Desaparece, publicado aqui pela Alfaguara). Não é coincidência que Faulkner também tenha um conto de mesmo nome. Lee Chang-dong diz que seu filme narra a história de um jovem Faulkner vivendo no mundo do escritor japonês.

“É um filme feito para ser inexplicável, e é irônico como eu estou tentando explicar isso”, disse o diretor.

O filme venceu o prêmio da crítica no Festival de Cannes.

A consciência (e a precisão) com que o diretor fala sobre os elementos da própria obra chama a atenção e para mim colocam o trabalho num patamar superior de criação, e não sou eu quem precisa falar que isso o transforma em experiência imperdível.

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