Disco inédito de Leonard Cohen, ‘Thanks for the Dance’ honra sua carreira brilhante
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Disco inédito de Leonard Cohen, ‘Thanks for the Dance’ honra sua carreira brilhante

Produzido por Adam Cohen, álbum traz canções construídas ao redor de gravações que Cohen deixou pouco antes de morrer

Guilherme Sobota

14 de dezembro de 2019 | 20h15

Leonard Cohen deixou instruções precisas para seu filho e brilhante produtor Adam, depois do sucesso de You Want It Darker e antes da sua morte, entre outubro e novembro de 2016: termine a missão, complete as canções que começamos.

“Um dia Adam me ligou e disse que Leonard gostaria de gravar vozes, porque ele tinha terminado algumas letras. Eu fui até a casa dele e passamos um tempo juntos, com um microfone e um laptop. Aquelas duas horas de trabalho se tornaram três anos”, explica o engenheiro de som Michael Chaves no documentário The Story of Thanks For The Dance, lançado no canal oficial de Cohen em parceria com a La Blogothèque. “Foram canções em que trabalhamos juntos, mas que não saíram com You Want It Darker.”

O resultado é Thanks For The Dance, um novo álbum de inéditas de Leonard Cohen, lançado em novembro deste ano e disponível nas plataformas digitais.

O cantor e compositor deixou gravados os seus vocais. Os arranjos e a produção ficaram por conta de uma equipe montada por Adam e Chaves.

Leonard Cohen. Foto: Old Ideas/The Jewish Museum, New York

O engenheiro conta que a princípio, o trabalho parecia fácil, porque ele e Adam sabiam como Leonard gostava de trabalhar. “Mas é que quanto mais fundo a gente adentrava (nas canções), mais a gente se questionava”, diz.

Depois de envolver o músico e produtor canadense Daniel Lanois no projeto, o grupo foi para Berlim participar do People Festival, onde eles mostraram o material inédito pela primeira vez e também escalaram alguns outros artistas. No fim, acabaram se envolvendo na produção Leslie Feist, Richard Reed Perry (Arcade Fire), Zac Rae (Death Cab For Cutie), Damien Rice e Patrick Watson, entre outros.

“Eles estavam com uma situação praticamente ideal, porque eu ouvi uma das canções e na hora entendi uma linha de baixo”, diz Perry, o multi-instrumentista ruivo do Arcade Fire. “Silenciosamente, estávamos convidando o fantasma sagrado da música a adentrar à sala.”

No documentário, fica clara a admiração dos envolvidos pela obra de Cohen, e também um sentimento dominante de que as canções, e especialmente sua voz elegante de barítono, ainda eram impactantes, singulares e contemporâneas.

“A presença de Leonard é tão poderosa que mesmo sabendo que ele tinha partido o sentíamos conosco no estúdio”, conta Lanois.

Também é consenso que a tentativa era montar uma jornada pelo seu catálogo, mas fazer com que as músicas soassem realmente novas. “É um álbum dinâmico, muito vivo”, diz Rice. “Nunca se parece com um museu, mas sempre com um trabalho de arte vivo e respirando”, conta Feist. “E isso é ainda mais encantador, porque todos nós sabemos que ele se foi.”

Quando grandes artistas partem, eles deixam, nos melhores casos, uma obra consistente, uma busca contínua que no caso de Cohen não era pela perfeição, mas por um ideal de beleza que, humanista leal, ele sabia inalcançável. Quando um gigante como ele morre, a delicada questão de como manusear o que ele deixou de inédito é ainda mais sensível. Mas as instruções eram claras, e Thanks for the Dance soa fresco, num 2019 que pedia por uma voz tão generosa quanto a de Leonard Cohen — à qual achamos que nunca mais ouviríamos.

Se o novo disco não tem o vigor brilhante de You Want It Darker, um dos melhores álbuns da carreira de Leonard Cohen, ele certamente parece, de fato, o trabalho de um artista vivo, preocupado com as questões do coração e do presente, mas sempre com um sorriso no canto da boca, marca inconfundível da poesia do bardo canadense.

Em Happens to the Heart, ele dança com um amor do passado, entre outros assuntos. “I should have seen it coming / After all I knew the chart / Just to look at her was trouble / It was trouble from the start / Sure we played a stunning couple / But I never liked the part / It ain’t pretty, it ain’t subtle / What happens to the heart”.

Moving On traz o músico Javier Mas, parceiro antigo de Cohen, tocando a bandurria (espécie de bandolim espanhol) e dando um toque mediterrâneo que sempre acompanhou a vida do poeta numa canção de fim de relacionamento.

The Night of Santiago é um poema-narrativo em que a ambientação em suspense de Zac Rae se combina com a guitarra de Mas e também a de Beck, em uma das melhores canções do disco.

Thanks for the Dance, a música, é uma belíssima valsa — gênero que Cohen cultivou como ninguém no ambiente da música pop. It’s Torn é provavelmente uma homenagem a Marianne Ihlen, ex-amante, musa e amiga de Cohen, uma das presenças mais marcantes da sua música ao longo dos anos (Marianne morreu semanas antes de Cohen).

The Goal traz uma reflexão profunda sobre a morte, embora a maior parte deste disco em especial celebre a vida. Puppets é praticamente uma profecia (“Puppet presidents command”), mas também uma reflexão histórica. Com The Hills, Cohen faz uma declaração à própria ideia do amor, mas olhando para fora da janela como uma pessoa que sabe que vai partir e deixar coisas por fazer. O uso do órgão e dos sintetizadores também mantém o ambiente nebuloso de que ele tanto gostava.

Em Listen to the Hummingbird, talvez a última nova canção de Leonard Cohen que ouviremos para sempre, o poeta ensina — embora possivelmente ele mesmo não gostaria dessa descrição, humilde e empático com o próprio saber e com a vida, como sempre foi. “Listen to the hummingbird / Whose wings you cannot see / Listen to the hummingbird / Don’t listen to me.”

“Obrigado pela dança”, diz Adam Cohen no fim do documentário, em referência ao título do projeto. “Obrigado pela dança da vida, obrigado pelos altos, os baixos, a doçura, o amargor, a tragédia, a comédia, a beleza, o azedume, a leveza… é assim que ele diria. É assim que nós nos referimos a isso. A leveza com que todos estamos aqui.”

Veja o documentário Leonard Cohen – The Story of Thanks for the Dance:

Ouça aqui o disco na íntegra:

Tudo o que sabemos sobre:

Leonard CohenMúsica

Tendências: