42.ª Mostra de Cinema de São Paulo: ‘Os Relatórios Sobre Sarah e Saleem’
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

42.ª Mostra de Cinema de São Paulo: ‘Os Relatórios Sobre Sarah e Saleem’

Interesse do filme palestino está no fato de a trama amorosa ser tão bem urdida com o contexto político em que está inserida

Guilherme Sobota

22 Outubro 2018 | 12h08

Quando uma sociedade está profundamente — profundamente — dividida por questões políticas, étnicas e religiosas, é impossível estabelecer relações interpessoais sem que para o primeiro plano emerjam tópicos políticos, étnicos e religiosos. Os Relatórios Sobre Sarah e Saleem, produção palestina e mexicana em exibição na Mostra de Cinema de São Paulo, costura essa afirmação a partir de uma história de adultério.

Infidelidade é um dos temas centrais de qualquer ficção desde Shakespeare, mas o interesse do filme está no fato de a trama ser tão bem urdida com o contexto político em que está inserida.

Cena de ‘The Reports on Sarah and Saleem’

Sarah (Sivan Kerchner) é dona de um café na Jerusalém Ocidental, e Saleem (Adeeb Safadi), da parte oriental da cidade, trabalha como entregador para uma confeitaria. O relacionamento entre os dois, fruto de pura atração sexual, se concretiza na parte de trás da van utilizada para as entregas.

Os problemas começam a tomar conta do filme quando o caso começa a vazar para as famílias de ambos: David (Ishai Golan), marido de Sarah, é coronel do exército israelense; Bisan (Maisa Abd Elhadi), esposa de Saleem, está grávida e as contas em casa não fecham (entre as destacadas atuações do filme, a de Abd Elhadi cresce na parte final a ponto de tomar ares de protagonismo).

A janela temporal do filme é de talvez pouco mais de um ano, o que pode fazer parecer que a segunda parte se torne um pouco estendida demais — mas um quê de boa fé para o diretor palestino Muayad Alayan e para o complexo roteiro do irmão Rami é o suficiente para manter o nível de tensão tão alto quanto de um thriller jurídico. Os elementos de amor, traição e a super intrincada situação política dos países também trabalham a favor da obra.

Em um aceno ao contemporâneo, onde a verdade parece perder importância (histórica e politicamente), os relatórios (escritos) do título, forjados por Saleem, moldam uma realidade paralela que se mostra incontrolável.

A produção levou o prêmio do público e o prêmio especial do júri de Melhor Roteiro no Festival de Rotterdam.

Em uma cena definidora do filme, a colega de trabalho de Sarah, Ronit, a tranquiliza quando Sarah confessa que traiu o marido; para logo em seguida censurar a amiga ao saber que o amante era da Palestina. “Você tinha milhões de judeus para escolher”, diz Ronit. É isso: uma questão da vida privada de uma pessoa ali não é moral, mas política, definida pelo Estado (ou pela igreja).

Os limites dessa imposição, a história ensina, podem ser nefastos, e equilibrá-los é urgente.

Cotação: 4/5

Outras exibições na Mostra:

Dia 23/10
19:00 – PLAYARTE MARABÁ – SALA 1
Dia 26/10
16:15 – CINESALA