Z'África conjura os bons espíritos em 'Tem Cor Age'

Estadão

08 Novembro 2006 | 20h35

Desde que o Z’África Brasil lançou Antigamente Quilombos, Hoje Periferia, em 2002, eu espero por uma seqüência tão boa quanto esse disco fundamental para o hip hop underground brasileiro. Isso porque Antigamente Quilombos, Hoje Periferia é, ao seu modo, um divisor de águas no hip hop nacional.

Primeiro com uma poesia dura, obviamente calcada na realidade da periferia brasileira, mas sem o caráter “gangsta”, da glorificação da violência. E, em termos sonoros, o álbum de 2002 é um dos primeiros a abrir mão de transpor uma estética totalmente chupinhada do hip hop americano e tentar introduzir sons brasileiros, africanos e jamaicanos para cantar em cima.

Esse abrasileiramento do rap acabou se tornando corriqueiro no hip hop nacional, principalmente quando Sabotage e D2 sedimentaram a ponte entre a linhagem malandra que começa no samba de morro e avança sobre esse mundo sonoro que borbulha pelas bordas das grandes cidades. No caso de D2, até cansar, é verdade.

Agora Gaspar, Funk Buia, Fernandinho Beatbox e Pitchô voltam com a pedrada Tem Cor Age, lançado pela YB. De novo, é um disco ultra-instigante e inquieto do ponto de vista sonoro, já que o Z’África leva ao pé da letra a conexão explicitada no nome da banda. Batuques infernais afro convivem com batidas mais retas do hip hop e há lugar até para um samba bacana, em homenagem ao rapper Sabotage, assassinado em 2003, e para ritmos nordestinos, como em “Rei do Cangaço”, fantasia sobre Lampião.

As programações eletrônicas do disco -muitas delas a cargo de Érico Theobaldo (ou DJ Perifério, ou metade do Autoload ou, para os mais velhos, do Fábrica Fagus)– conseguem dar a dinâmica necessária para a música evoluir em volta, ora com scratches, ora com instrumentos como cavaquinho, guitarra, baixo, piano, gaita, sanfona, violão de aço, percussão, dependendo da faixa. E, para tocar esses instrumentos, o Z’África recebe um monte de gente bacana que têm gravado aqui em São Paulo. De Fernando Catatau, guitarrista do Cidadão Instigado, a Céu, Toca-Ogan, Simone Soul , Zeca Baleiro e Théo Werneck.

Essa experimentação sonora serve para dar um colorido ao disco que poucos lançamentos de hip hop brasileiro têm. E o crédito tem de ser dado ao trabalho do grupo com membros do Coletivo Instituto, principalmente Rica Amabis e Tejo Damasceno. Com essa produção, é possível se perder pelas viagens sonoras propostas para cada música. Tanto naquelas faixas mais sérias, que falam da realidade da periferia, de exclusão, da utopia do possível para melhorar a desigualdade neste país (“Mantenha a Guarda”, “Tá na Responsa”) e outras deliciosamente dançantes (“Falei”, “Tô no Rolê”).

E, claro, o Z’África comparece com a rima forte, o vocal quase ragga de Funk Buia, os sons bacanas de Pitchô e a contundência dos vocais arranhados de Gaspar. Senti falta, porém, de aproveitar mais o beatbox sencaional de Fernandinho BeatBox. Mas ele aparece perfeito em “Tem Cor Age” e em “Tô de Rolê”. Coragem e ação são mesmo os temas do disco, sempre da perspectiva periférica, ou, como o Z’África coloca, da perspectiva quilombola, miscigenada da periferia: “Falo da quebrada porque nela é o meu lugar”.

E fala com propriedade, como a letra da faixa-título: “O que importa é a cor/E quem tem cor age/ Tem coragem de mudar o rumo da história/Coragem para transformar cada dia em vitória/ É o canto da sabedoria/ É o ataque/ Reage agora, reage/ Tem cor age, capoeira de maloca/ Do fundo do coração proliferam idéias/ Centuplicando o pão a cada passo de uma centopéia”.

Que o Z’África continue proliferando idéias como essas, conjurando as almas loucas de todas as periferias do mundo, da Zona Sul de São Paulo às tribos de Judah.