Ennio Morricone me transporta para o mundo do cinema em Londres

Estadão

03 de dezembro de 2006 | 09h00

Embora trabalhe muito e já tenha feito a trilha de incontáveis filmes – na verdade ninguém sabe ao certo quantos, mas especula-se que o número vá de 400 a 450 – o compositor italiano Ennio Morricone não é dessas figuras que se veja regendo uma orquestra fora dos estúdios de gravação com freqüência. Dei sorte e consegui assistir a uma apresentação dele ontem, no gigantesco teatro Apollo Hammersmith, em Londres. Morricone regeu a Roma Sinfonietta Orchestra, acompanhada do Crouch Festival Chorus. Só no coro havia cerca de 100 vozes.

A música de Morricone me encanta porque consegue capturar as melodias mais leves e populares e intercalá-las a momentos puramente concretos ou minimalistas. Nos filmes, elas funcionam perfeitamente e, ao vivo, sem a mediação de uma tela de cinema, elas também conseguem emocionar e causar pequenos momentos de estranheza, principalmente quando instrumentos pouco usuais em orquestras, como guitarra, baixo elétrico, bateria e sintetizador invadem a música acústica. Claro, volta e meia, levados pela melodia, somos forçados a visitar mentalmente cenas de seus filmes mais famosos.

O concerto foi organizado em grandes blocos temáticos, começando com três peças feitas para o filme Novecento, de Bernardo Bertolucci. Depois, Morricone regeu três adágios. Até aí só participava o lado tradicional da orquestra. A partir de uma junção de peças esparsas, como “H2 S” e “Metti Una Sera a Cena”, os instrumentos elétricos foram incorporados.

Deste momento para frente, o concerto ganhou outro peso. Primeiro com a apresentação de músicas feitas para filmes de Sergio Leone, o diretor com o qual Morricone é mais identificado. Nesta parte, a execução de “The Ectasy of Gold”, do filme The Good, The Bad and The Ugly, com a soprano Susanna Rigacci, foi estupenda.
Só comparável em emoção ao final do programa com músicas do filme “A Missão”, onde eu destaco o coro forte de “In Earth as In Heaven” e o lindo solo de oboé, em “Gabriel’s Oboé”.

Morricone ainda voltaria ao palco mais três vezes, mas, se dependesse do público, que aplaudia loucamente o maestro italiano, ele poderia ter continuado a reger a orquestra noite adentro.

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