There is a light that never goes out

Estadão

17 Junho 2011 | 15h13

Tinha 14 anos quando esse vídeo dos Smiths saiu. Até hoje é um dos clips de que mais gosto. Ontem The Queen Is Dead, meu disco preferido dos Smiths, fez 25 anos de lançamento na Inglaterra. Como o clip, ele envelheceu bem. Smiths está entre as poucas bandas que mudaram a minha vida, não necessariamente para melhor.

Ouvir Smiths, na adolescência, nos anos 80 no Brasil, não deixava de ser uma forma de confronto. Num ambiente dominado pela virilidade do metal, gostar de uma banda, digamos, afetada, era assumir um pouco que aquele mundo de testosterona fervilhante não era meu ambiente ideal. Para mim, antes da música, o que importava eram as letras. Sempre coloquei o Morrissey entre um dos grandes poetas da tradicão inglesa. Ele se via assim, e era uma visão contaminante.

Mas, se os Smiths me ajudaram a entender melhor o lugar da sexualidade, a respeitar diferenças, dar valor para a imaginação e para o mundo interior – nada é mais importante para um adolescente do que entrar em contato com o fantástico do seu mundo interior -, por outro lado, eles me contaminaram de preconceitos.

Os Smiths chegaram a flertar o National Front, grupo mais visível do abominável neo-fascimo inglês, e, em termos de música, glorificavam os anos 60 branco, o pop perfeito e levemente açucarado, numa linha que parte dos Beach Boys, do começo dos Beatles. E, com um gênio como Johnny Marr na guitarra, a banda tinha ainda um pouco daquela aura de que uma grande banda é  feita de grandes músicos, de uma criação que combina cérebro, habilidade e emoção – isso mesmo depois de o punk ter posto abaixo o mundo perfeito. Esse apego ao mundo idealizado, povoado de traças e celebridades de celulóide,  não fez mal só a mim. Smiths é a grande referência quando pensamos na fixação com pureza e passado que até hoje predomina entre as bandas indies.

morrissey.jpgIsso eu consigo pensar hoje. Em 1986, os Smiths eram sobretudo uma banda cerebral que desprezava o corpo – “hang the DJ”.  Por influência do Morrissey, durante uns bons anos eu quis também enforcar do DJ. Antes de ouvir Smiths, gostava de Motown, de Stax, do princípio do hip hop. Gostava dos bailinhos, de dançar com as pessoas, tinha até um grupo que fazia uma versão absolutamente vexatória de break dance. Os Smiths me tiraram o amor pela black music, me desconectaram do meu corpo.

Só consegui reatar esses nós anos depois de The Queen Is Dead e “Panic”, com a descoberta da acid house, nas pistas da Nation. Só quando as raves começaram a incendiar São Paulo, em meados dos anos 90, foi que fiz as pazes definitivamente com meu corpo dançante e com uma música que não fosse über-intelectuaizada. Neste intervalo, meu corpo só admitia a dança desconjuntada, mimetizando o Morrissey do clip de “The Boy with the Thorn in his Side”, ou epilética, bem ao estilo Ian Curtis.

Bom, 25 anos depois dá para dizer que isso quase passou. Gosto de dançar, aprendi a não ter preconceitos com estilos musicais e a me relacionar com letras ruins, desde que a música seja boa. Talvez a única coisa que realmente persista, e, de novo, isso não é necessariamente bom, seja a meu jeito meio desconjuntado, epilético de dançar. Não dá para negar seus anos de formação. There is a light that never goes out.