Shuffle 15 – Caetano

Repertório do novo show do Caetano, Zii e Zie, em São Paulo, é a base para este podcast

Estadão

15 de junho de 2009 | 00h00

Sexta assisti à estreia do show Zii e Zie, do Caetano Veloso aqui em São Paulo. Foi absolutamente maravilhoso, divino maravilhoso. A banda está estupenda e acho fenomenal que Caetano consiga ser mais roqueiro do que moleques com três vezes menos a idade dele. Digo isso porque foi um show de rock, isso pra quem entende que rock não é essa coisa estática, reacionária que os cultores do passado tentam preservar inventando todo tipo de cinto de castidade para os ouvidos. Bom, ainda com o show na cabeça, juntei as músicas que ele tocou numa lista e dei shuffle. Saiu assim:

1. A Voz do Morto – Os Mutantes
2. Irene – Caetano Veloso
3. Lobão Tem Razão – Caetano Veloso
4. Incompatibilidade de Gênios – Caetano Veloso
5. Volver – Carlos Gardel

Bom, também escrevi pra Folha sobre o show, quem tiver curiosidade de ler, está aqui o texto:

Pode até ter sido coincidência, mas fez todo o sentido estrear o show ‘Zii e Zie’ no Credicard Hall em São Paulo numa noite gelada de namorados, no meio de um feriado em que a cidade fervia com o fim da gestação da Parada do Orgulho GLBT.
Mais até do que no disco ‘tios e tias’, Caetano Veloso brinca o tempo todo com signos do masculino e do feminino durante o espetáculo. Em um jogo que funciona como um discurso político efetivo justamente porque se desprende de qualquer tentativa discursiva, de fazer uma política outra que não a do prazer. Esse embaralhamento de gêneros cresce no show em músicas do ‘Zii e Zie’, como ‘Tarado ni Você’ e ‘Menina da Ria’, só para citar duas com pólos trocados, até chegar ao ápice numa versão rascante de ‘Eu Sou Neguinha’, a última antes do bis, que teve ‘Três Travestis’, desta vez sem citar o Fenômeno do Corinthians.
Essa política privada do prazer passa também por tocar rock com a BandaCê e revisitar o projeto de modernidade do fim dos anos 60. A conexão é estabelecida já na primeira música do show, ‘A Voz do Morto’, e segue por ‘Não Identificado’, ‘Irene’ e ‘Maria Bethânia’, esta última dedicada ao dramaturgo Augusto Boal, que morreu no último mês de maio: ‘Foi em São Paulo que ele [Boal] fez o melhor de seu trabalho e Bethânia e eu aprendemos com ele’.

Dinâmica nervosa
Nessas músicas, a banda formada por Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo e Rhodes) e Marcelo Callado (bateria) se solta. É um contraste bem interessante com as composições de agora, bem mais cubistas, fraturadas, com uma dinâmica mais nervosa.
No show fica claro o quanto há de textura e uso inteligente do espaço nas composições do disco, quase todas no set list da estreia. É notável como elas alternam momentos de extrema contenção, em que há uma precisão milimétrica na distribuição dos acordes -similar a de um Battles, por exemplo-, com momentos de pura anarquia sonora: solos, feedback e Caetano deixando a frente para sumir no meio da banda.
Há uma evolução grande em termos de composição e sonoridade em relação ao ‘Cê’. Embora ‘Odeio’ esteja no repertório, o show mostra um Caetano que está acima do ódio virulento, muitas vezes rancoroso do disco anterior. Em ‘Zii e Zie’, o clima é de uma leve indecência, transgressora em sua aparente ingenuidade. No lugar da crise, está a liberdade e um bocado de solidão.
Para quem acha que a nova fase é roqueira demais, houve um tempero sábio na sexta: ‘Trem das Cores’, ‘Aquele Frevo Axé’, ‘Incompatibilidade de Gênios’, as lindas versões para o tango ‘Volver’, de Carlos Gardel, e para a guitarrada quase tecnobrega ‘Água’, de Kassin. Sem falar no final emocionante com ‘Força Estranha’, em homenagem a Roberto
Carlos.

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