São Paulo Underground é um duplo da cidade

Estadão

05 de setembro de 2006 | 17h47

Nas diferentes encarnações do projeto Chicago Underground (orquestra, duo, trio, quarteto) dois elementos chamam a atenção. O primeiro é a conexão quase telepática do cornetista e manipulador eletrônico Rob Mazurek com o baterista Chad Taylor, que participa de todas as formações. O segundo é a clareza com a qual os elementos acústicos e eletrônicos são combinados.

Morando no Brasil, Rob Mazurek montou uma “versão brasileira” do Chicago Underground. Com Maurício Takara (Hurtmold), nasceu o São Paulo Underground. Sauna: Um, Dois, Três é o primeiro disco da dupla, lançado por aqui pela Submarine Records. Nele, Rob Mazurek toca corneta, computador, eletrônica e piano e Maurício Takara fica com bateria, percussão,computador e sampler.

Diferentemente dos projetos do Chicago Underground, o disco é repleto de convidados. Desde os companheiros de Takara no Hurtmold, Fernando e Mario Cappi, Marcos Gerez, Rogério Martins e Guilherme Granado, até Marcos Axé, Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e Tiago Mesquita, que lê/interpreta dois textos seus. Do lado gringo, Chad Taylor participa de forma oblíqua com um sample de bateria e o baixista de jazz de Chicago Josh Abrams.

Ouvindo o disco – e talvez por influência da arte da capa -, não consigo tirar da cabeça um paralelo com a arquitetura e o urbanismo caótico de São Paulo, com seus prédios feios, pichados, com suas ruas que não fluem. Comparado à clareza de outros discos do Chigago Underground, Sauna: Um, Dois, Três tem um som mais sujo, mais caótico e, de certo modo, mais visceral.

Já na primeira faixa, a cacofonia de vozes soterrada no mix sob efeitos eletrônicos pesados, que persiste até entrarem a bateria e a corneta mais livres, transmite uma sensação claustrofóbica só encontrada nas pinturas de Anselm Kiefer sobre a cidade de São Paulo.

Como o disco é todo construído sobre uma tensão espacial, a conjunção de efeitos eletrônicos atordoantes, a sobreposição de samples e texturas, a intercalação de ritmos mais jazzísticos com marcações do tempo quase mântricas formam um duplo com a cidade e seus contrastes.

Numa determinda hora se está imerso na beleza leve de “Olhossss…”, uma beleza que vai se deteriorando lentamente. Noutra se está ensimesmado, andando em círculos dentro de “The Realm of the Ripper”. Mais tarde, é sacudido por uma percussão afro em “Afrihouse”, como que tropeçando numa macumba na esquina. Tudo termina nos escos de vozes de “Numa Grana”.

Percorrer esses caminhos e descobrir os cantos mais obscuros dos subterrâneos da cidade, contrapondo sua sujeira à sua beleza, é o desafio de Sauna: Um, Dois, Três. Um desafio que quem gosta de improvisação, de ouvir um jazz e de eletrônica que expande suas fronteiras até as mais inimagináveis periferias precisa encarar de frente.

Nota: 9

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