Rómulo Fróes volta surpreendente com Cão

Estadão

04 de setembro de 2006 | 16h04

O samba de São Paulo nunca teve a exuberância baiana ou a manemolência da malandragem carioca. Em 2004, Rômulo Fróes iniciou escavações em sua arqueologia pessoal e emergiu do túmulo do samba com Calado, um disco conciso em sua pesquisa da canção. Rômulo, como seus parceiros Nuno Ramos e Clima, elevava à enésima potência o fio de tristeza que conduz o samba, tramando canções que abriam novos caminhos para o nosso gênero fundamental, calcadas principalmente em sua voz grave e violões chorados.

Agora, Rômulo acaba de lançar Cão, um álbum que começa onde a pesquisa de Calado termina e surpreende com sua riqueza de possibilidades poéticas e instrumentais.

Cão começa com “Amor Doente”, uma canção artesanalmente construída sobre um belo violão de sete cordas, com toques de clarone e clarinete e versos que remetem de cara ao universo em desencanto de Rômulo: “Já fui teu cão/ vigia de uma luz sombria/ O mais fiel/ o sol que no teu céu cabia/ mas não entendes/ o meu delírio/ amor doente/ a carne que não sinto/ entre os dentes”. É uma canção que poderia estar em Calado, mas o violão do veterano Zé Barbeiro, um dos mestres do instrumento, já anuncia a mudança que virá nas próximas músicas.

Rômulo parte dos anos 70, das colagens de Caetano Veloso da época de Transa, das inovações de Jards Macalé, da precisão de um Paulinho da Viola para buscar o arranjo correto para cada canção. E conta com um time de músicos perfeito para dar o contorno exato a cada canção.

Se as composições continuam vindo da mesma trindade Rômulo-Nuno-Clima, os músicos que participam das diferentes faixas vão imprimindo suas vozes e transformando cada canção. Às vezes, o violão de sete cordas de Zé Barbeiro vem límpido, como em “Eu Canto Só”, “Marcha”, “Mulher Sem Alma”, “Máscara e “” Feito um Estranho”.Noutras, ele tem de confrontar a guitarra rascante de Lanny Gordin (o mítico guitarrista dos melhores discos da Gal do fim dos anos 60 e começo dos 70). Esse encontro é maravilhoso em “Sol Sem Calor”, que conta também com o baixista Fábio Sá, que, junto com o baterista Curumim, forma a “ala jovem”do disco.

Mesmo com essa mistura toda, as experimentações e o choque de gerações de Cão não são espalhafatosos. O idioma é o samba, um samba modernizado, plural, é verdade, mas ainda assim completamente inserido na tradição do gênero. E participações como as de Dona Inah do Prato em “Quem” e da Velha Guarda Musical da Nenê de Vila Matilde só reforçam esse laço.

Se o projeto sonoro do disco é ambicioso e se realiza à perfeição, ele fica ainda mais forte com as letras, que partem de certa forma do ideário do samba romântico, mas trocam o caráter quase “naïf” da canções de raiz por uma poética urbana, urgente, mas não menos sentimental. Um exemplo dessa dupla chama é a música “Fala”, de Nuno Ramos, inspirada num poema de Paul Celan: “Fala/ Mas não Separa o não do sim/ Dá-lhe sombra/ Tanta quanto exista à tua volta/ Olha ao Redor/ Como tudo revive à tua volta/ Pela morte/ Diz a verdade quem diz sombra”.

Até agora, é o melhor disco de música brasileira que eu ouvi no ano.

Nota: 10

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