Rock, rádio e a resistência a Milosevic

Estadão

12 de setembro de 2006 | 16h58

“Fomos capazes de dizer através da música o que teríamos dito no noticiário se nos fosse permitido, sem que os policiais sentados no estúdio vissem qualquer coisa de errado. Provavelmente os policiais não falavam inglês e o regime não entendia de música – mas os ouvintes compreendiam o código. Nosso departamento musical sempre argumentou que o que tocávamos era o contraponto, no sentido subversivo, do que fazíamos no jornalismo. Isso foi a prova.”

Assim Veran Matic, diretor da rádio de Belgrado B92 explica a reação da emissora independente à primeira grande intervenção da polícia de Slobodan Milosevic, que proibiu a rádio de noticiar os conflitos nas ruas de Belgrado em 9 de março de 1991. No som, hinos de agitação punk como “White Riot”, do Clash, tentavam mimetizar a batalha entre manifestantes em favor da liberdade de imprensa e a polícia.

A história está no excelente Rádio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado, livro lançado agora pela editora Barracuda. Escrito por Matthew Collin, o mesmo autor do clássico da geração “E” Altered State: The Story of Ecstasy Culture and Acid House, o livro parte da história da rádio B92, que misturava um jornalismo independente com uma programação musical arrojada, para narrar o esfacelamento da Iugoslávia durante o regime de Milosevic.

Embora o pano de fundo cultural seja extremamente interessante, o livro de Collin é basicamente político. Mostra como se organizou (e, na maior parte do tempo, sobreviveu) a resistência ao nacionalismo genocida do regime que manteve Milosevic no poder entre 1991 e 2000. Usando depoimentos de quem ficou em Belgrado durante esse período, Collin consegue revelar um olhar bem diferente do solidificado pela mídia ocidental sobre as guerras da Bósnia e de Kosovo e sobre intervenção da Otan no país. É leitura obrigatória para quem gosta da combinação de rock e política.

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