Quem reclama da informalidade no Brasil deve visitar a Índia

Estadão

12 de agosto de 2006 | 10h10

Estou em Délhi desde quinta-feira, mas só a partir de ontem à noite, depois do fim da Imagine Cup, eu consegui andar pela cidade de fato. E o que me impressiona muito por aqui é o grau de informalidade da economia. Saindo do Brasil eu já sabia que a economia era informal na Índia, todo mundo sabe. Mas só ao andar pela capital é que eu tive noção da extensão dessa informalidade.

Salvo raras lojas e serviços, tudo é negociável. E uma pessoa como eu, com pouco poder de barganha, tem de se adaptar rapidamente para não ser ludibriada. De São Paulo, eu achava que isso só se aplicava a mercados e pequenas cidades. Não. Até os táxis mais “chiques” que você pega nos melhores hotéis não têm taxímetro. E é preciso estipular o preço antes de sair e dizer que você quer ir a tal lugar sem parar. Uma boa dica é, inclusive, não dizer o que você quer fazer. Pois se disser que quer ver um mercado ou comer alguma coisa, os motoristas malandramente desviam de rota para levar à loja ou ao restaurante de um amigo, que, com certeza, paga uma comissão. Fora isso, recibo nem pensar.

A Índia está crescendo visivelmente. Mas tem 800 milhões de habitantes e pouquíssimos se beneficiam desse crescimento. Até por sua dimensão, a desigualdade social e a má distribuição de renda consegue ser chocante até para um brasileiro. Hoje, a elite e os políticos indianos se orgulham de estar finalmente vendo o surgimento de uma classe média. Mas num país em que a esmagadora maioria vive com muito pouco (200 milhões têm renda de US$ 2 por dia, segundo o ministro da Ciência e Tecnologia), essa classe média não se compara nem ao seu equivalente na América Latina. Hoje, por aqui, operadores de telemarketing e programadores vendem sua força de trabalho baratinho aos EUA. Até médicos que fazem leituras de diagnósticos para clínicas norte-americanas a preço de banana. Essas pessoas, que cursaram a universidade, ganham muito pouco: algo entre US$ 200 e US$ 500 por mês.

Não são dados de estatísticas de governo, mas recolhidos em conversas sobre a realidade daqui. A Índia é hoje uma das economias que mais crescem no mundo e pode muito bem continuar exportando mão de obra barata para os países desenvolvidos. Só que, para ter um crescimento sustentável e com distribuição de riquezas, acredito que tenha de enfrentar ainda mais obstáculos que o Brasil. Isso sem falar no que será necessário investir em infra-estrutura se essa classe média começar a consumir como seus pares em outras partes do mundo.

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