Pensando sobre fantasmas pop

Estadão

07 Novembro 2006 | 17h46

Na edição deste mês da revista inglesa The Wire, o jornalista Simon Reynolds fala dos lançamentos do selo Ghost Box, mas faz de um jeito muito elegante, pensando sobre todos os espectros que rondam a cultura pop.

O texto é excepcional justamente pelas digressões de Reynolds. E tem um trecho, bem no meio da reportagem, que é tão preciso em mostrar como a cultura pop de hoje vampiriza o passado – uma idéia que eu compartilho totalmente – que resolvi reproduzir aqui.

Antes, uma explicação: a foto aí em cima é de um dos maiores pilhados de sua criatividade após a morte, o rapper Tupac. A Wire não disponibiliza seus textos na web, mas vale comprar essa revista – que está nas melhores bancas aqui de SP -, até porque a reportagem de capa com a Joanna Newsom também é ótima. Isso posto, vamos ao texto do Reynolds:

Se a fonografia nunca chegou completamente a realizar a função edisoniana de manter os mortos vivos, então o “sampling” (pegar trechos de músicas e utilizá-las em ourtras canções) é ainda mais artificial: uma mistura de séance (sessão, em francês) e viagem no tempo.

Mas nós nos tornamos blasé sobre essa necromancia, mal fechando os ouvidos a abominações como a reanimação de estrelas mortas para cantar com os vivos (uma tendência inaugurada pelo dueto de Natalie Cole com seu pai morto Nat King Cole e transformada num esquema de roubo de sepulturas pelos herdeiros de Tupac e Notorious BIG). Todo “sampling” tem um elemento de violação.O que Jim Jupp fez com Joseph Taylor – fazer um morto cantar uma canção nova – realmente não difere do que o sample traz em si: a criação de um zumbi. No vodu, o zumbi é um cadáver trazido à uma meia-vida quase robótica; ele não tem vontade própria, só isso. O “sampling” pega a antes encarnada energia de bateristas, tocadores de sopros e cantores e a coloca em serviço. O “looping” (fazer a amostra de música tocar repetidamente) transforma essas porções dissecadas da paixão humana em moinhos de produtividade pós-humana. O que acontece com o breakbeat “Amem” – originalmente só cinco segundos na vida do baterista dos Winstons, Gregory Coleman – me faz pensar no Aprendiz de Feiticeiro da Disney: a vassoura cortada em mil pedaços, proliferando em hordas enfeitiçadas

A música pop tem vivido de tempos empresatados e de energia roubada. Isso tem se tornado cada vez mais verdadeiro desde o fim dos anos 80, quando o “sample” se tornou massificado. Mas eu penso que o estado das coisas seria mais ou menos o mesmo sem a “tricknology” que permite a reciclagem desenfreada. A cultura retrô – uma espécie de vampirismo reverso, grupos jovens encontrando alimento no sangue antigo – já estava emergindo mesmo antes de o preço dos samplers ter caído. Há um raciocínio segundo o qual a própria riqueza dos anos de surgimento do pop – 1963-83 – tornou muito tentador ser derivativo, fácil demais se envolver em samplear-sem-um-sampler, como era.

PS: os textos em itálico e entre parêntesis eu coloquei para ser mais didático.