O lado B de 67

Estadão

02 de dezembro de 2010 | 14h07

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Muito se escreveu sobre o brilhante Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil,  sem dúvida um dos melhores documentários do ano, sucesso de público e crítica.  Antes de mais nada, sou sim amigo do Ricardo, adoro o filme, mas asseguro que esse não é mais um dos famosos casos de  “ação entre amigos” da imprensa.

uma_noite_em_67.jpgFã de MPB, nasci depois da era dos festivais, mas o assunto sempre foi vivo em família. Os musicais da Record, entres os eles o festival, sempre rondaram os papos daqueles encontros de domingo, um pouco baseado naquele discurso levemente reacionário de “bom mesmo era aquele tempo da Record…”. Se não vivi esse tempo ao vivo, em P/B, nunca perdia os reprises dos clássicos da Record e, já adulto, sempre mantive uma proximidade com o tema, principalmente atarvés da leitura. E, de tudo que li, recomendo A Era dos Festivais (Editora 34), do Zuza Homem de Mello.

Foi essa bagagem de curioso de segunda mão que levei para a estreia do filme, com um medo danado de não gostar ou de achar tudo meio déjà vu. Medo absolutamente infundado. Não só as imagens originais da Record foram hiper bem tratadas e causam um impacto tremendo na tela de cinema, como o coração do filme, as entrevistas com aqueles que tomaram parte no festival, foram conduzidas de forma a surpreender não só quem assistiu aos festivais na época, como quem acompanha de perto os movimentos dessa elite da MPB que desfila na tela. Não achava possível ouvir nada de muito novo de Caetano, Gil, Chico, até mesmo de Sérgio Ricardo. Quebrei a cara. Terra e Calil conseguiram arrancar “causos” deliciosos de seus entrevistados, e montá-los no filme com maestria. E é o equilíbrio entre as imagens originais e essas “causos” rememorados mais de quarenta anos depois é o que dá força ao filme.

Para chegar a esse equilíbrio. os diretores tiveram de tomar uma decisão dura no meio do caminho: não mostrar todas as músicas que chegaram à final do festival. Escolheram as primeiras colocadas e, claro, a desclassificada. Seria impossível fazer um filme sobre a final de 67 e deixar de fora o violão quebrado por Sérgio Ricardo.

Para quem sentiu falta das apresentações de Elis Regina (“O Cantador”), Nana Caymmi (“Bom Dias”),  MPB4 (“Gabriela”), Nara Leão e Sidney Miller  (“A Estrada e o Violeiro”) e Jair Rodrigues (“Samba de Maria”), o DVD de Uma Noite em 67 traz todas essas as apresentações nos extras.

Claro, a edição dos extras é menos elaborada, mas os depoimentos deliciosos sobre as músicas aparecem lá de novo. E oO melhor vem em outra parte dos extras, nos “causos” recolhidos pela dupla de diretores durante as entrevistas. Não vou estragar a graça de quem não viu, mas há ao menos três histórias impagáveis: Chico Anysio destruindo “Ponteio”, Arnaldo Baptista com sua empolgação quase infantil contando como Rogério Duprat transformava suas imagens de desenho animado do Mutante em música no arranjo de “Domingo no Parque” e Paulo Machado de Carvalho explicando como nasceram os musicais da Record.

Nem tudo é perfeito. Por mais que a ideia seja boa,  o reencontro dos torcedores no teatro hoje fica muito aquém da qualidade do resto dos extras.  Na verdade, é o único momento em que os extras parecem sobras. Em todos os outros casos, a impressão é de mergulhar em um delicioso lado B.

Se o filme sozinho já era bom de ter em casa, com os extras se torna essencial.

Mais aqui no Estadão sobre Uma Noite em 67:

Era um, era dois, era cem e muitos mais na roda viva

“Pra não dizer que não falei da noite de 67”

De conteúdos e performances

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