O futuro do negócio de música, por Pena Schmidt

Estadão

20 de outubro de 2010 | 19h29

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Pense em como mudou o mundo, em 2000 quem mandava era o Eminem, ainda não tínhamos emos e nem me lembro o que sucedia no Brasil. Já em 1990 não existia o mp3, o CD tinha acabado de enterrar o LP, Nirvana nascia e a Tinitus era um desejo apenas. Faz sentido? Nenhum. Porem as décadas anteriores, 80, 70, 60, 50, essas sim, tinham um roteiro, como era previsível a evolução do mundo, da juventude, da música popular depois do pós-guerra e durante a Guerra Fria.

Por isso, perguntar hoje qual será o futuro da música é perguntar se há ordem no caos. Nada sério, vejam bem.

Qualquer hipótese de revolução tecnológica me apavora. Mais miniaturização, engoliremos nossos tocadores de música? Mais banda e mais memória, mais fidelidade, música em 3D? Todas as músicas tocando ao mesmo tempo? Música tocando dentro de minha cabeça? Mal consigo olhar para a lista de músicas acumuladas em meu HD, quanto mais separar mil canções para carregar no celular. Isso o vinil definitivamente tem de bom, é como o tamanho das garrafas de vinho, nem de mais nem de menos. Portanto, o vinil permanecerá e com ele as coleções com figurinhas carimbadas, os impossíveis de achar. O futuro pertence a quem colecionou os vinis, tipo estes: http://www.birkajazz.com/archive/england.htm.

Aos músicos, desejo aplausos genuínos, diretos, prolongados, emocionados, de fãs que irão segui-los e sustentá-los. Quem conseguir isto terá uma carreira, poderá criar e construir uma obra, casar e ter filhos, e não necessariamente precisará ser aborrecido na rua. Cada um terá seu próprio público e tocará em seus lugares especiais. Apenas uns poucos viverão da fama, da celebridade, da glória de serem universais, talvez por aparecerem em algum momento mágico da Coroação de nosso Imperador da Terra, isto é outra previsão sobre o mesmo futuro.

Um verdadeiro exército auxiliar da música continuará a existir, os balconistas das lojas de instrumentos, os professores de saxofone, os técnicos de autotune, os produtores de sucessos falsos e verdadeiros, os blogueiros  historiadores do rock, do pop, do funk e da música popular brasileira e outros gêneros extintos ou ameaçados. O interesse pela novidade persiste sempre, as micro canções de menos de 3 segundos, evoluções do tuiter a texto irão disputar espaço com o dub de seis anos tecido a milhões de preferencias mixadas.  Na USP, modelos de interação rítmica entre o axé e a cumbia farão furor nos fins de semana.

Confesso que me sinto um pouco zonzo com as possibilidades infinitas de comercialização da música, de monetização, os modelos de negócios serão tantos que o lema “cada cabeça uma sentença” poderá descrever a economia criativa com propriedade no futuro. Espero que as outras previsões que estão sendo feitas neste momento pelo menos comprovem esta parte.

Pena Schmidt hoje faz um trabalho brilhante superintendente do Auditório Ibirapuera, antes disso deixou sua marca de produtor em centenas de sucessos brasileiros desde os anos 70, presidiu o selo independente Tinitus e foi presidente da ABMI – Associação Brasileira da Música Independente.Ufa. Quer saber mais? Achei um perfil bem bacana dele feito aqui pelo Estadão: “O advinhador de sucessos”

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