O futuro do negócio de música, por Karina Buhr

Estadão

04 de novembro de 2010 | 12h30

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Oi Guilherme!

Escrevo de longe do Brasil, do hábito de escrever e do prazo que você me pediu pra te mandar alguma opinião sobre o futuro do negócio de música.

Pelo menos tenho uma boa desculpa…

Estava trabalhando justamente com esse negócio de música, na Womex (World Music Expo) que é uma feira internacional muito importante pra música chamada independente e/ou catalogada como World Music e neste ano aconteceu em Copenhague, Dinamarca.  Não vou nem entrar no questionamento de independência e world ou não world music, pra não prolixar demais…

Acho que posso contribuir um pouco com essas conversas, falando um tiquinho sobre isso. Fui uma das 3 selecionadas do Brasil pra participar esse ano. A feira abre possibilidades concretas de começo de conversas e caminhos internacionais  a trilhar. Estão rolando conversas legais agora com Portugal, UK e mais otras cositas.

Como a feira não conta com patrocinadores que banquem as passagens, hospedagens e cachês dos selecionados,  ela envia uma carta convite, pra que todos busquem patrocínios e apoios em seus países.

Vou procurar saber se eles têm dados sobre isso. Quero muito saber quem consegue e quem não consegue apoio de seus países.

Eu, com as secretarias e fundações de cultura do Recife (minha cidade) e de Pernambuco (meu estado) não consegui. Talvez eu tenha errado feio no que tenho como ideia e sensação de  nacionalidade, de cidadania, sei lá…

Talvez eu tivesse me saído melhor se tivesse ido atrás do meu estado de nascimento, a Bahia, que patrocinou a ida dos seus pra Womex e ainda me citou no texto de divulgação dessa ação, como “a cantora baiana”….rs!

E eu aqui, romântica, desejando que Pernambuco Imortal ficasse com ciúme!

Ai, ai, ai…eu deixando a roupa suja de molho on line. Mas é uma lavagem que diz respeito ao mercado brasileiro de música independente, logo, roupa coletiva.

Ah! Com o Ministério da Cultura também não aconteceu.

Não estou chorando, nem caindo na lamentação, afinal de contas consegui ir mesmo assim, com um trabalho muito intenso e dedicado, meu e de Duda Vieira, o cara massa que é meu produtor. Outra coisa importante é que, como mandamos projetos pra editais específicos e aguardamos resultados pra logo mais, pode ser que consigamos repor todo ou uma parte importante do investimento na ida pra Womex.

Cito isso por que acho importante como um dado a mais pra nossas conversas aqui neste teu precioso espaço.

Porque quando falamos em futuro do mercado da musica sempre falamos também de música independente, já que cai sempre em pauta a internet, o barateamentos dos custos de gravação e as ações individuais que dão certo com as mudanças de formato de fabricação e venda de produtos, de pessoas, de estilos, de ídolos.

Acho que a narração disso que aconteceu comigo nesse final de semana vale mais do que a minha opinião sobre o futuro do tal mercado, que pra mim são o streaming, o vinil, o pagode e a serenata.

Na verdade nunca me preocupei muito com o mercado.

Não sou um bom exemplo.

Já Duda Vieira se preocupa inteligentemente com isso e sem perder la ternura.

A feira tinha todas essas tags pairando no ar. Conversas instigantes, shows interessantes, agentes, produtores e músicos vendendo seus peixes, embora música não seja peixe, como o lado maravilhoso disso e também às vezes estranho, já que muitas vezes os olhos se dirigiam antes pra um crachá do que pra outro par de olhos.

Tinham dois alemães lá que divulgavam sua máquina de gravar vinil um a um, de forma caseira e atraiam uma fila imensa em frente ao stand, oferecendo a gravação de uma música de cada pessoa da fila, como amostra grátis.

O slogan deles é “Leve sua música de volta para o futuro”. Identifiquei-me…

Bruno Buarque e Daniel Gralha (meus baterista e trompetista) fizeram, cada um, uma faixa do “Eu Menti pra Você”.

Quando fui fazer uma  terceira, pra mim, tinha um monte de brasileiro na fila e o cara dando escândalo, porque assim cada banda ia ter todas as músicas gravadas e não uma, como era o plano de negócio deles, afinal a maioria não compraria a machine mesmo.

Ele gritava “O Brasil não é o mundo!”…rs! Acabei não conseguindo fazer e ganhando de presente o que Gralha fez.

“O Brasil não é o mundo” me fez lembrar a mulher do check in de alguma companhia aérea gringa desse unterwegs, que olhou pros nossos passaportes e disse “vocês são brasileiros? Vão ficar ricos! Acabaram de descobrir muito petróleo lá e vocês vão ser a décima economia do mundo!”. Tive a sensação de a notícia da vitória de Dilma ter ecoado por essas bandas com um tipo de glamour superficial. Mas isso é quase outro assunto. Voltemos ao eixo.

Faço parte da ala autista do mercado fonográfico, que é a que  sabe que faz parte de um movimento de compras e vendas, que sabe dos artifícios que pode lançar mão pra ser mais fácil um sucesso nesse sentido, embora não exista a fórmula (grazie!), mas não abre mão de fazer apenas  o que gosta e acredita. A ala que torce pra que um número grande de pessoas goste de sua música, mas não muda em nada sua música por causa disso.

É um contrasenso, diria até uma contravenção, pro mundo dos negócios, no caso você ter o tal “produto”, ter um público consumidor mas se preocupar apenas com os ouvidos seus e desse possível público. Aliás, não chamaria nem de preocupação.

A verdade verdadeira mesmo é que prefiro o mundo da música, que não tem nada a ver com o do dinheiro, embora possam andar juntos e serem felizes para sempre e isso, ainda bem, acontece também!

Sigo então fazendo a música que gosto, trabalhando com pessoas que gosto e que admiro, pensando em ideias malucas e torcendo pra que dê tudo certo.

Dar certo, no caso, tem menos a ver com sucesso e mais com diversão, mas tem muitas maneiras de quase tudo ser divertido, inclusive o sucesso.

Pra terminar, queria linkar uma ouvida da música “Ciranda do Incentivo

Beijos,

Buhr

Karina Buhr é atriz (já fez parte da trupe do Oficina), apareceu como música com o genial Comadre Fulozinha e, neste ano, lançou o delicioso álbum “Eu Menti pra Você”, um dos meus preferidos de 2010. Renascentista que só, ela pinta (ilustra) e borda (no seu site karinabuhr.com.br e no blog na revista TPM)

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