O futuro do negócio de música, por Guilherme Barella

Estadão

05 de novembro de 2010 | 11h36

Se existe uma única verdade que salta aos olhos, é a que não existe mais uma única verdade. Parece óbvio que qualquer um que já gastou mais do que cinco minutos pensando nesse assunto tenha chegado a essa conclusão.

amoeba02.jpgA morte do CD é um assunto tão antigo quanto a ressurreição do vinil. Nada acaba, tudo é cíclico. Até o cassete voltou, mesmo com a Sony encerrando oficialmente a produção de walkmans. Enquanto a Amoeba, a maior loja de discos independente dos EUA, comemora que as vendas de vinil estejam compensando as perdas do CD, a Panasonic vai botar um ponto final na conceituada linha de toca-discos Technics. Nem parece que estamos falando de mídia física, de tecnologia.

Há alguns dias, o maior tracker privado de música que já existiu completou três anos. Enquanto escrevo, contabil izam quase 1 milhão de arquivos de torrent, com mais de 400 mil lançamentos de 350 mil artistas. Estamos falando de pouco mais de 130 mil usuários que já fizeram aproximadamente 45 milhões de downloads. Para efeitos de comparação, digamos que cada lançamento tenha 10 faixas, somando 4 milhões de faixas. Nada comparável aos mais de 13 milhões de faixas e 10 bilhões de downloads do iTunes Store em sete anos. Um nicho,portanto. Na indústria, isso é chamado de pirataria.

Vale dizer que o site não hospeda nenhum arquivo. É sustentado por doações dos usuários e todo o conteúdo é fornecido e administrado pelos mesmos. Agora, por que eles pagam por isso e não por um download legal? Simples: é um serviço infinitamente mais inovador e de qualidade impecável. Você baixa o que quiser, quando quiser, na qualidade que quiser. Recentemente, estrearam uma seção de destaque para artistas “da casa”, ou seja, artistas que dividem seus próprios discos no site. Em aproximadamente um mês, o artista destacado conseguiu mais de 12 mil downloads. Havia a opção de download em sete formatos diferentes.

Quando um disco é lançado oficialmente, os usuários já o conhecem há meses. Álbuns fora de catálogo, raridades e relíquias inatingíveis? Tudo à mão, disponibilizado por uma legião de engenheiros de som amadores que fazem os discos soarem melhor que muita remasterização de grande gravadora. Aliás, em discos clássicos é comum encontrar arquivos de diferentes edições e masterizações de diferentes países. Você escolhe. Se você gosta mais do som do vinil, pra que se contentar com um arquivo digital extraído de um CD? Melhor: você pode ouvir os dois, comparar e decidir se quer ouvir um vinil ou um CD no seu iPod.

Ainda falta muito para que os grandes negócios da música de hoje olhem para ideias simples como essas e aprendam alguma coisa.

Afinal, qual é o futuro do negócio da música? Pessoalmente, enxergo dois pontos principais agora, no presente: publishing e shows. Qualquer coisa entre eles parece promissora e potencialmente duradoura. Porém, para que isso chegue ao futuro, precisamos rever as leis de direito autoral e os  é todos de arrecadação. Pode parecer um assunto chato, mas é a chave de tudo. E digo mais, pra dar certo mesmo, o mundo inteiro tem que estar na mesma sintonia. Ou seja, quando você for sonhar com um futuro melhor pra você nesse negócio, aproveite e sonhe tudo isso numa escala universal.

Já comprei muitos discos bons por culpa do Guilherme Barrella, desde quando ele escrevia o newslwtter da Bizarre, lá no começo dos anos 2000. Mas comprei bastante mesmo pela Peligro, loja virtual que ele abriu no meio da década e segue firme até hoje. Mas o Gui não é só um vendedor tem um lado de dono de selo (toca o ótimo Open Field) e baladeiro (é sócio da Neu)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: