O futuro do negócio de música, por Felipe Machado

Estadão

20 de outubro de 2010 | 13h30

Qual é o futuro do negócio de música?

Se existe uma pergunta que vale um milhão de dólares, é essa. A indústria da música – talvez junto com as empresas de conteúdo jornalístico – foi uma das mais prejudicadas comercialmente com a disseminação da internet, justamente porque um de seus componentes mais, digamos, ‘lucrativo’, é a distribuição de conteúdo musical.

Acho difícil falar sobre o futuro da música de maneira categórica, como se houvesse apenas uma verdade absoluta. Não há. Hoje em dia é tudo muito complexo, inclusive as respostas.

Muita gente aposta no fim das gravadoras como se isso representasse a salvação da indústria musical. Na minha opinião, esse é apenas um efeito colateral – e, acredite se quiser, negativo. As gravadoras sempre foram criticadas por todos os lados: por músicos independentes, que não conseguiam contratos porque não eram comerciais o suficiente (até hoje ninguém sabe o que é ser ‘comercial’, mas tudo bem); por músicos consagrados, que reclamavam que ganhavam pouco; pelos consumidores, que reclamavam dos altos preços no ponto de venda.

led_zep2.jpgOs músicos independentes viram na internet uma possibilidade de fazer seu trabalho ser conhecido, e isso é uma grande vantagem do mundo digital. A desvantagem, no entanto, é exatamente a mesma coisa: como todo mundo tem esse acesso, fica muito mais difícil para uma banda boa se diferenciar de uma banda horrível. Por mais que tenhamos críticas ao modelo das gravadoras, foi esse formato de negócios que nos deu Elvis Presley, The Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones,U2. Também nos deu Britney Spears, Backstreet Boys e outros lixos, diriam os críticos. A diferença é que ninguém é obrigado a consumir nenhum desses artistas. A gravadora faz uma ‘curadoria artística’ e apresenta seus produtos, compra quem quer, não compra quem não quer. O que é inegável é que o formato funcionou até hoje: alguém acha que existiram bandas melhores que Beatles e Led Zeppelin? Havia alguém muito injustiçado recusado por todas as gravadoras? Difícil dizer, mas é bastante improvável.

A internet permitiu que tivéssemos à disposição milhares e milhares de bandas ao clique do mouse. Mas quem disse que eu quero milhares e milhares de bandas? Quem disse que alguém tem tempo de escolher entre milhares de bandas, a não ser 0, 001% da população que tem entre seus hobbies “descobrir artistas novos”?

cansei.jpgO modelo anterior nos deu todos os grandes artistas da história, de Beatles a Marvin Gaye, de Ramones a Metallica. O que a internet nos deu até hoje? O Cansei de Ser Sexy? Qual é o grande artista que saiu do novo modelo? A Lilly Allen? O Chris Anderson que me desculpe, mas o conceito de ‘Long Tail’ não se aplica à arte.

Quero escolher entre 30 bandas, não entre 30 mil bandas. E aí começa um outro jogo bastante irônico: você vai até o site Pitchfork.tv e vê as bandas que eles escolheram. Não é a mesma coisa? Praticamente. A diferença é que na Pitchfork.tv você vê os vídeos de graça, provavelmente vai encontrar essas bandas no MySpace, etc. Mas o Pitchfork.tv está fazendo, no fundo, a mesma coisa que uma gravadora: dizendo o que vale a pena ouvir.

A diferença é que o modelo da internet, até pouco tempo, era baseado na troca gratuita de conteúdo. O que, a meu ver, nos leva a uma segunda discussão: música tem valor?

Se algo tem valor, tem que custar alguma coisa. Se música vale alguma coisa, ela tem que ser paga.

Entre as críticas às gravadoras, está o alto preço dos discos. Não quero defender o modelo antigo, mas posso falar com isenção porque já fui um músico contratado de gravadoras de vários tamanhos e perfis. E posso garantir quem é o culpado pelo alto preço dos discos. O governo, claro, por meio de impostos criminosos e tributos inexplicáveis. Fora outros órgãos governamentais/controladores de direitos autorais, como o ECAD.

Um erro, na minha opinião, cometido por bandas novas é colocar sua música de graça na internet. Ninguém valoriza o que é de graça. Se você colocar uma música promocional por um certo tempo, ou um certo número de músicas, tudo bem. Mas já conversei com bandas que se orgulham de jogar todo seu material online, dizendo que os fãs merecem, etc.

Sim, os fãs que merecem são aqueles que pagariam para ter uma música sua. Bandas que encaram música como hobby podem se dar ao luxo de disponibilizar tudo gratuitamente na internet. Músicos que passaram anos estudando, ensaiando e compondo merecem um pouco de respeito.

Ninguém entra numa loja de roupas e sai com uma calça jeans gratuitamente “porque o preço é alto”.

DavidBryan2.jpgConversando com David Bryan, tecladista do Bon Jovi, dei essa minha opinião sobre o assunto e ouvi uma resposta curiosa. Ele não só concordou comigo, como foi além. Disse que a culpa pela disseminação da música gratuita online era das gravadoras. Faz sentido. Se você faz um depósito em um banco porque acha que ele vai guardar bem o seu dinheiro, você devia cobrar uma gravadora se a sua música é roubada por alguém. Não é questão de mandar prender o dono do Napster; nem censurar algum site de copyleft na Suécia. A questão é que a música online deveria ter um formato que permitisse algum tipo de controle. A tecnologia foi mais rápida que as gravadoras. E, por isso, para o bem ou para o mal, esse modelo chegou ao fim.

O que vai substituí-lo? Acho que não teremos um único modelo, mas vários. O iTunes é um deles. Steve Jobs e sua turma conseguiram entrar de gaiatos na indústria musical e abocanhar uma bela fatia. A ideia é simples, não? Eles vendem músicas online legalmente, por um preço honesto.

Lembrando que as gravadoras pagam pela gravação do disco no estúdio, pela divulgação do artista, gravação de videoclipes, pagamento de jabá em rádio, marketing, assessoria de imprensa, distribuição do produto fisicamente pelo mundo. Uma música online também precisa ser gravada, mas hoje qualquer um grava com superqualidade em casa, basta um software Pro-Tools e meia-dúzia de plug ins; videoclipes caseiros podem ter altíssima qualidade, basta uma boa ideia –  e ainda podem estar de graça no YouTube; jabá em rádio ainda é importante, ainda mais no Brasil; marketing e assessoria de imprensa podem ser feitos online e em redes sociais, mas ainda não substituem os caminhos tradicionais; quanto à distribuição física do produto… bem, isso a internet tornou irrelevante.

Como sobreviver, então, se sua banda não ganha mais dinheiro com a venda de discos? Caia na estrada. O problema é que bandas novas também não ganham nada na estrada, o que acaba gerando um paradoxo: você dá a música de graça na internet; você não consegue cobrar altos cachês porque é uma banda nova; você não tem dinheiro para gastar em divulgação forte porque sua banda não ganha grana com discos nem com shows; você continua no underground para sempre, a não ser que aconteça algo extraordinário e você seja citado pelo Dave Grohl como a melhor banda do mundo.

madonna1.jpgBandas grandes, no entanto, não ganham mais tanto dinheiro com discos, mas continuam ganhando dinheiro com shows. Por isso, apostam cada vez mais nas turnês. Por isso acho que o novo modelo de negócios na música envolve empresas híbridas, com empresários de shows e gravadoras virando uma coisa só. Os artistas também passarão a ter mais controle sobre seu próprio material, já que essas empresas híbridas (um exemplo é o LiveNation, que empresaria a Madonna) poderão vender músicas online ou se associar ao iTunes e tornar o CD físico algo desnecessário – o que, aliás, já acontece nos Estados Unidos (muito) e na Europa (pouco).

Outra vertente que deve ser explorada pelos grandes artistas é a popularização dos videogames. Por que lançar discos, se você pode lançar games e ganhar muito mais dinheiro? Acho provável que muitas crianças que hoje jogam o game Rock Band acreditem que os Beatles são uma banda de mentira, concebida apenas para criar a trilha sonora do tal game.

Duvida? Tenho uma filha de quatro anos que só sabe o que é CD porque eu ainda mantenho um CD player no carro. Em casa, ela vai direto no computador ou no meu iPhone. E sabe exatamente onde achar as coisas que quer ouvir. Como ela vai ouvir música daqui a alguns anos? Se existe uma pergunta que vale um milhão de dólares, é essa.

Felipe Machado é editor da TV Estadão, autor do blog vizinho Palavra de Homem e, quando a banda sai de seu estado ectoplasmático atual, é guitarrista do Viper.

Se existe uma pergunta que vale um milhão de dólares, é essa. A indústria da música – talvez junto com as empresas de conteúdo jornalístico – foi uma das mais prejudicadas comercialmente com a disseminação da internet, justamente porque um de seus componentes mais, digamos, ‘lucrativo’, é a distribuição de conteúdo musical.

Acho difícil falar sobre o futuro da música de maneira categórica, como se houvesse apenas uma verdade absoluta. Não há. Hoje em dia é tudo muito complexo, inclusive as respostas.

Muita gente aposta no fim das gravadoras como se isso representasse a salvação da indústria musical. Na minha opinião, esse é apenas um efeito colateral – e, acredite se quiser, negativo. As gravadoras sempre foram criticadas por todos os lados: por músicos independentes, que não conseguiam contratos porque não eram comerciais o suficiente (até hoje ninguém sabe o que é ser ‘comercial’, mas tudo bem); por músicos consagrados, que reclamavam que ganhavam pouco; pelos consumidores, que reclamavam dos altos preços no ponto de venda.

Os músicos independentes viram na internet uma possibilidade de fazer seu trabalho ser conhecido, e isso é uma grande vantagem do mundo digital. A desvantagem, no entanto, é exatamente a mesma coisa: como todo mundo tem esse acesso, fica muito mais difícil para uma banda boa se diferenciar de uma banda horrível. Por mais que tenhamos críticas ao modelo das gravadoras, foi esse formato de negócios que nos deu Elvis Presley, The Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones, U2. Também nos deu Britney Spears, Backstreet Boys e outros lixos, diriam os críticos. A diferença é que ninguém é obrigado a consumir nenhum desses artistas. A gravadora faz uma ‘curadoria artística’ e apresenta seus produtos, compra quem quer, não compra quem não quer. O que é inegável é que o formato funcionou até hoje: alguém acha que existiu bandas melhores que Beatles e Led Zeppelin? Havia alguém muito injustiçado recusado por todas as gravadoras? Difícil dizer, mas é bastante improvável.

A internet permitiu que tivéssemos à disposição milhares e milhares de bandas ao clique do mouse. Mas quem disse que eu quero milhares e milhares de bandas? Quem disse que alguém tem tempo de escolher entre milhares de bandas, a não ser 0, 001% da população que tem entre seus hobbies ‘descobrir artistas novos’?

O modelo anterior nos deu todos os grandes artistas da história, de Beatles a Marvin Gaye, de Ramones a Metallica. O que a internet nos deu até hoje? O Cansei de Ser Sexy? Qual é o grande artista que saiu do novo modelo? A Lilly Allen? O Chris Anderson que me desculpe, mas o conceito de ‘Long Tail’ não se aplica à arte.

Quero escolher entre 30 bandas, não entre 30 mil bandas. E aí começa um outro jogo bastante irônico: você vai até o site Pitchfork.tv e vê as bandas que eles escolheram. Não é a mesma coisa? Praticamente. A diferença é que na Pitchfork.tv você vê os vídeos de graça, provavelmente vai encontrar essas bandas no MySpace, etc. Mas o Pitchfork.tv está fazendo, no fundo, a mesma coisa que uma gravadora: dizendo o que vale a pena ouvir.

A diferença é que o modelo da internet, até pouco tempo, era baseado na troca gratuita de conteúdo. O que, a meu ver, nos leva a uma segunda discussão: música tem valor?

Se algo tem valor, tem que custar alguma coisa. Se música vale alguma coisa, ela tem que ser paga.

Entre as críticas às gravadoras, está o alto preço dos discos. Não quero defender o modelo antigo, mas posso falar com isenção porque já fui um músico contratado de gravadoras de vários tamanhos e perfis. E posso garantir quem é o culpado pelo alto preço dos discos. O governo, claro, por meio de impostos criminosos e tributos inexplicáveis. Fora outros órgãos governamentais/controladores de direitos autorais, como o ECAD.

Um erro, na minha opinião, cometido por bandas novas é colocar sua música de graça na internet. Ninguém valoriza o que é de graça. Se você colocar uma música promocional por um certo tempo, ou um certo número de músicas, tudo bem. Mas já conversei com bandas que se orgulham de jogar todo seu material online, dizendo que os fãs merecem, etc.

Sim, os fãs que merecem são aqueles que pagariam para ter uma música sua. Bandas que encaram música como hobby podem se dar ao luxo de disponibilizar tudo gratuitamente na internet. Músicos que passaram anos estudando, ensaiando e compondo merecem um pouco de respeito.

Ninguém entra numa loja de roupas e sai com uma calça jeans gratuitamente “porque o preço é caro”.

Conversando com David Ryan, tecladista do Bon Jovi, dei essa minha opinião sobre o assunto e ouvi uma resposta curiosa. Ele não só concordou comigo, como foi além. Disse que a culpa pela disseminação da música gratuita online era das gravadoras. Faz sentido. Se você faz um depósito em um banco porque acha que ele vai guardar bem o seu dinheiro, você devia cobrar uma gravadora se a sua música é roubada por alguém. Não é questão de mandar prender o dono do Napster; nem censurar algum site de copyleft na Suécia. A questão é que a música online deveria ter um formato que permitisse algum tipo de controle. A tecnologia foi mais rápida que as gravadoras. E, por isso, para o bem ou para o mal, esse modelo chegou ao fim.

O que vai substituí-lo? Acho que não teremos um único modelo, mas vários. O iTunes é um deles. Steve Jobs e sua turma conseguiram entrar de gaiatos na indústria musical e abocanhar uma bela fatia. A ideia é simples, não? Eles vendem músicas online legalmente, por um preço honesto.

Lembrando que as gravadoras pagam pela gravação do disco no estúdio, pela divulgação do artista, gravação de videoclipes, pagamento de jabá em rádio, marketing, assessoria de imprensa, distribuição do produto fisicamente pelo mundo. Uma música online também precisa ser gravada, mas hoje qualquer um grava com superqualidade em casa, basta um software Pro-Tools e meia-dúzia de plug ins; videoclipes caseiros podem ter altíssima qualidade, basta uma boa ideia – e ainda podem estar de graça no YouTube; jabá em rádio ainda é importante, ainda mais no Brasil; marketing e assessoria de imprensa podem ser feitos online e em redes sociais, mas ainda não substituem os caminhos tradicionais; quanto à distribuição física do produto… bem, isso a internet tornou irrelevante.

Como sobreviver, então, se sua banda não ganha mais dinheiro com a venda de discos? Caia na estrada. O problema é que bandas novas também não ganham nada na estrada, o que acaba gerando um paradoxo: você dá a música de graça na internet; você não consegue cobrar altos cachês porque é uma banda nova; você não tem dinheiro para gastar em divulgação forte porque sua banda não ganha grana com discos nem com shows; você continua no underground para sempre, a não ser que aconteça algo extraordinário e você seja citado pelo Dave Grohl como a melhor banda do mundo.

Bandas grandes, no entanto, não ganham mais tanto dinheiro com discos, mas continuam ganhando dinheiro com shows. Por isso, apostam cada vez mais nas turnês. Por isso acho que o novo modelo de negócios na música envolve empresas híbridas, com empresários de shows e gravadoras virando uma coisa só. Os artistas também passarão a ter mais controle sobre seu próprio material, já que essas empresas híbridas (um exemplo é o LiveNation, que empresaria a Madonna) poderão vender músicas online ou se associar ao iTunes e tornar o CD físico algo desnecessário – o que, aliás, já acontece nos Estados Unidos (muito) e na Europa (pouco).

Outra vertente que deve ser explorada pelos grandes artistas é a popularização dos videogames. Por que lançar discos, se você pode lançar games e ganhar muito mais dinheiro? Acho provável que muitas crianças que hoje jogam o game ‘Rock Band’ acreditem que os Beatles são uma banda de mentira, concebida apenas para criar a trilha sonora do tal game.

Duvida? Tenho uma filha de quatro anos que só sabe o que é CD porque eu ainda mantenho um CD player no carro. Em casa, ela vai direto no computador ou no meu iPhone. E sabe exatamente onde achar as coisas que quer ouvir. Como ela vai ouvir música daqui a alguns anos? Se existe uma pergunta que vale um milhão de dólares, é essa.

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