O futuro do negócio de música, por Ale Youssef

Estadão

25 de outubro de 2010 | 19h26

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O tripé formado por casas de shows e clubes, artistas criativos e divulgação via internet garante uma cadeia econômica independente que gera empregos e faz o músico viver da sua arte, o que no passado recente era exclusividade dos queridinhos das gravadoras.

O fenômeno acontece no mundo todo em cidades cosmopolitas e é reflexo da nova ordem musical, pós falência do mercado fonográfico. Todas as noites novos talentos espontam e forma público pela noite de São Paulo, em clubes de Lower East Side, em Nova York, Shoreditch, em Londres, ou no Mitte, em Berlim.

Diante do atual cenário é comum ouvir queixas de empresários e representantes de gravadoras, insistindo que o mercado musical está parado, sem criatividade, demonstrando desconhecimento e certo pouco caso sobre o que acontece nas noites das grande cidades.

Existem no Brasil diferentes olhares para o processo cultural. O olhar da indústria fonográfica é aquele de cima pra baixo, que se acostumou a fazer grandes números, amparado por uma indústria que monopolizava produção e distribuição de conteúdo, vendia discos, comprava as mídias, fazia o sucesso acontecer.

As bandas que formam seu público e vivem de música, cantando suas próprias composições para o universo de fãs formados pelo MySpace e pelo Facebook, e movimentos musicais de descentralização e ocupação de espaços têm outro olhar sobre o processo cultural: aquele de baixo pra cima, que percebe a vitalidade e a capilaridade de um novo modelo, de uma nova cadeia produtiva.

Por outro lado, o movimento político da música foi revitalizado por novos atores que, entendendo a brecha da fragilidade do mercado, iniciaram a discussão sobre que políticas públicas queremos para a arte mais popular do Brasil. Entre os mais ativos estão o Circuito Fora do Eixo, que estimula o investimento público nas localidades distantes de São Paulo e Rio de Janeiro e a ABRAFIN, entidade que reúne os festivais de música independente do país. Novas inicitivas como as CASAS ASSOCIADAS – reunião de casas de pequeno e médio porte de todo país que pretente criar um circuito nacional de circulação da nova música – prometem agitar ainda mais o poder público, de olho no suporte para todo esse universo.

Hoje em dia, a FUNARTE, o  Ministério da Cultura e empresas como a Petrobrás já estão totalmente inseridos nesse contexto e uma grande movimentação que une entidades e setor público já deu origem a Rede Música Brasil, espécie de fórum permanente para discussão sobre projetos estruturantes para a música.

O futuro da música no Brasil passa pela compreesão desse novo modelo “de baixo para cima e capilar” que cresce a cada dia nos centros urbanos e que cria verdadeiras micro economias capazes de sustentar as cadeias produtivas da música. Passa também pela capacidade de organização do setor para pleitear o investimento público que fomente o setor.

Além disso, o negócio da música também está inserido em uma visão mais abrangente do tipo de desenvolvimento que queremos para o país. Tanto as experiências privadas que ativam o mercado musical como a necessidade de um olhar diferente para as políticas públicas de estímulo ao setor, podem estar inseridos no amplo debate sobre a Economia Criativia:  como a música, como uma das expressões mais claras da criatividade, pode ser um dos eixos de desenvolvimento econômico, transformação urbana e inclusão social. Para tanto, é fundamental que esse negócio da música seja mapeado e calculado, para entendermos o quanto ele poderá se expandir e participar com força da economia do país.

Considerando que o Brasil é talvez o país mais musical do mundo, pode-se imaginar  o futuro  de possibilidades que temos pela frente se tivermos a cabeça aberta para esse tipo de visão de que nossa economia também pode ser baseada na criatividade.

Ale Youssef é sócio do Studio SP e do Comitê, Presidente da Casas Associadas e do Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta e colunista de política da Revista Trip. Foi um dos criadores do site multicultural Overmundo e Coordenador de Juventude da Prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy)

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