Kassin e seu pretérito do futuro

Estadão

29 Janeiro 2007 | 16h57

Depois de ter sido lançado no Japão, no ano passado, agora os brasileiros podem desfrutar de Futurismo, terceiro álbum do projeto +2, com o devido desconto àquele disco de remixes de faixas de Máquina de Escrever Música.

A bola começou nos pés de Moreno justamente com Máquina de Escrever Música (2000), foi lançada para Domenico e seu Sincerely Hot (2003) e agora cai nos pés de Kassin, com este Futurismo.

O disco de Kassin é, num certo sentido e até surpreendentemente, menos experimental que o de Domenico. Claro, ainda está lá o uso de barulhinhos diferentes, de bateria eletrônica, de instrumentos como guiro, mas tudo entra de uma maneira pouco espalhafatosa, quase sem alarde, a serviço de cada canção.

Logo na primeira faixa o nexo entre o disco de 2003 e Futurismo é estabelecido naturalmente pelas mãos de João Donato. Isso porque, aparte as experimentações, Sincerely Hot é um disco que bebe diretamente no som brasileiro do começo dos anos 70 de Donato e Marcos Valle. E Futurismo abre justamente com “O Seu Lugar”, parceria de Donato com Kassin, com aquele piano rhodes inconfundível e suíngue quase caribenho. Só que vai muito além.

A chave para entender esse disco vêm nas letras miúdas. Todas as composições foram registradas pela Esponja Edições. E Kassin é inegavelmente uma esponja. Responsável por produzir alguns dos melhores discos de música brasileira dos últimos anos, Kassin agora mostra o que absorveu de cada um dos artistas com quem trabalhou e apresenta uma série de canções compostas em parceira com alguns de seus “produzidos”, como Adriana Calcanhoto, Jorge Mautner, Los Hermanos e Arto Lindsay.

A própria noção futurista de Futurismo é um quê enganosa. Há no disco um mergulho na música brasileira tradicional, da bossa ao bolerão, do rock pátrio ao samba, mas sempre com uma visão original, particular.

Assim, Futurismo não fica com aquela cara incômoda de colcha de retalhos. Pelo contrário, se a base ou o ritmo são conhecidos, Kassin os consegue subverter com a sua própria visão de modernidade. E isso aparece tanto na cama furiosa de baixo e bateria em “Esquecido” e “Ponto Final”, no uso do guiro na linda “Quando Nara Ri” – que quem tem filhos já conhece na voz de Adriana Partimpim – nas programações do eletrosamba “Samba Machine”, na apropriação da guitarrada e do tecnobrega paraense em “Água”, nos samples de respiração de Berna Ceppas em “Namorados” ou nos barulhinhos de “Homem ao Mar”, até agora a minha preferida deste disco. Mas, isso muda com o tempo.

Duas coisas impressionam bastante quem segue a carreira de Kassin e do projeto +2. Primeiro é o fato de ele não tocar no baixo, instrumento que estamos acostumados a vê-lo empunhar tanto no +2 quanto na Orquestra Imperial. O “quinto beatle” Pedro Sá se encarregou – brilhantemente – do baixo neste disco e deixou Kassin com guitarras, teclados, programações e voz.

A outra coisa é o grau de romantismo do disco, escancarado em faixas como “Namorados” (“Sejamos sempre namorados/ Deixemos isso combinado, amor/ Se der certo ou errado/ Por mais que o tempo passe/ Que seja como na primeira vez”) e “Esquecido” (Eu queria ser quem eu não sou/ Ser quem você sempre sonhou/Só pra te satisfazer/ …/Eu te amo/ Eu te adoro/ Eu só penso em você).

Pela qualidade, pelas surpresas e pela ausência de preconceitos, Futurismo aponta para e desponta entre o que de melhor se produz na música brasileira hoje.