John Cage, a abertura da mente e o futuro da música

Estadão

20 de agosto de 2006 | 18h31

“As razões para a abertura da mente à música são diversas. Em primeiro lugar: as atividades, as batalhas vencidas por muitos compositores. (…) Uma segunda razão para essa abertura: mudanças na tecnologia associada à música. Considerando os gravadores, sintetizadores, aparelhos de som e computadores que temos, não poderia ser razoável esperar que mantivéssemos as nossas mentes fixas na música dos séculos anteriores, apesar de muitas escolas, conservatórios e críticos musicais ainda fazerem isso. Uma terceira razão para a abertura: a interpenetração de culturas antes separadas.”

Esse é um texto de John Cage. Na realidade, é a transcrição de uma conferência proferida pelo compositor na YMHA, em Nova York, em 1974. E integra o livro Escrito de Artistas, uma compilação de textos dos anos 60 e 70, escritos por artistas nacionais e estrangeiros, na sua grande maioria ligados às artes plásticas. Organizado por Glória Ferreira e Cecilia Cotrim, o livro sai no fim do mês pela editora Jorge Zahar.

Voltando à visão de Cage, é interessante notar como a abertura da mente ainda é uma batalha ainda por vencer em pleno século XXI. Se, nos meios universitários e da dita música erudita, esse embate que vem desde o começo do século XX já podia ser dado como ganho os anos 70, ainda hoje é difícil encontrar, entre o ouvinte médio, aquele que tenha disposição para romper com preconceitos do que é musical e do que não está na esfera da música. Pitágoras, mais do que nos assombrar, ainda rege nossos ouvidos no dia-a-dia.

Se, por um lado, toda a experimentação que vem com as vanguardas desde a década de 30 (do dodecafonismo ao minimalismo, da eletroacústica ao drone e ao minimalismo)foi amplamente assimilada pela cultura pop, de Velvet Underground a Merzbow, de John Coltrane a William Parker, de Faust a Nurse With Wound – só para traçar algumas pontes entre às décadas de 60/70 e hoje -, ainda é muito difícil apresentar uma música mais desafiadora a pessoas normais, que estão fora dos milhares de microguetos musicais que se formam nesse começo de século XXI.

Cage tinha uma visão otimista do futuro da música (aberta). Ele acreditava que, pelo caráter gregário e social que a música possui, seria inevitável a sua assimilição ao longo do tempo.

Ocorre que essa assimilação existe, mas não ainda de uma maneira profunda. Ela é real principalmente dentro das pequenas comuinidades de curiosos, de especialistas. E o caráter gregário da música tem uma mão dupla nesses tempos de internet. Se é possível encontrar uma pessoa no outro canto do planeta que goste do mesmo que você, é praticamente impossível convidá-lo para ir a um concerto ou a um show e ter aquela discussão saudável depois.

O problema é o que acontece com a maioria das pessoas, que em teoria também convive no cotidiano com uma música liberada pela tecnologia, pela história e pelo intercâmbio cultural.

Uma boa analogia para entender como esse processo de abertura da mente ainda é necessário em relação à música pode ser traçada com as artes visuais. A mesma pessoa que vai ao museu e consegue apreciar sem problemas e até com uma certa empáfia um quadro de um Picasso, de um Pollock ou consegue se emocionar com o Urinol de Duchamps, estanca diante de um Berio, de um Fennesz, de um Wolf Eyes. Por outro lado, essa mesma pessoa vai ao cinema e consegue ouvir e gostar de sons ainda mais desafiadores, se eles estiverem mediados pelo celulóide.

Perdi a conta das vezes que ouvi: “Isso não é música, é barulho. Onde está a melodia…” Queria ver se alguém, em sã consciência, diria coisa semelhante sobre um Miró sem ficar vermelho de vergonha.

Para quem ainda não conseguiu ver que há muita música além das escalas e das convenções consolidadas nos séculos passados, eu recomendo uma visita demorada a esse texto de Cage.

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