Deus e o Diabo no Liquidificador

Estadão

22 de outubro de 2010 | 17h56

“Cérebro eletrônico nenhum me dá socorro/ Em meu caminho inevitável para a morte”, cantava Gilberto Gil lá no fim dos anos 60, quando os computadores ainda davam medo, comandavam, mandavam e desmandavam com seus botões de ferro e olhos de vidro.

Corta para 2010. Cérebro Eletrônico, a banda, lança Deus e o Diabo no Liquidificador, mais um disco dessa turma inspirada por Gil que, com suas canções, oferece socorro no nosso caminho inevitável para a morte.

deus_diabo.jpgDeus e o Diabo é o terceiro disco do Cérebro, contando apenas os LPS, e é o mais roqueiro. No primeiro, Onda Híbrida Ressonante, havia um pé no rock eletrônico. Pareço Moderno, o segundo, mergulhava fundo na geléia geral brasileira. Era tropicalista no sentido de explorar diferentes formas e sonoridades, indo da MPB ao electro. Deus e o Diabo é menos eclético e mais guitarreiro. Fernando Maranho conseguiu trabalhar muito bem as guitarras e acerta o peso durante todo o disco. Elas têm pressão quando a música pede, mas também aparecem de forma direta e cristalina nas baladas.

Uma coisa que o Cérebro tem desde sempre é uma sacação especial em relação à melodia. Tatá Aeroplano é um grande melodista, justamente porque consegue criar linhas lindas, envolventes, sem exagerar no açúcar. Esse aspecto, digamos, dietético é um alívio para quem, como eu, não tem muita paciência com gordura, doçura e pirotecnia quando se trata de melodia.

E as guitarras seguem o mesmo padrão. Mesmo nos momentos mais leves, que pedem uma beleza mais sutil, como em Realejo em Dó , Sóbrio e Só e Cama, elas nunca soam óbvias, lacrimosas ou cafonas. Sóbrio e Só, por exemplo, lembrou-me imediatamente da guitarra de Johnny Marr, o melodista mais sensível e menos piegas que conheço. O melhor em relação às guitarras é que durante o disco todo elas não aparecem com aquele som comprimido e homogeneizante no mix. E havia espaço para isso. Basta pensar em O Fabuloso Destino do Chapeleiro Louco, um iê-iê-iê psicodélico cheio de fuzz, que poderia ser destruído por uma produção mais tradicionalmente roqueira.

Tatá fala de um universo muito particular no disco. É um romântico que tem lá seu lado mundano. Se o Tatá/narrador perde a decência, a noção, a razão e a moral com sua mulher e com o zelador em Decência, só sai da cama quando a amada disse que o ama em Cama. Se negocia de forma quase pudica um ménage a trois em Os Dados Estão Lançados, se entrega à dúvida lúcida em Sóbrio e Só.  Deus e o Diabo no Liquidificador é todo construído sobre essa oposição. O verso que serve de síntese para a ideia do disco é “Meu lado pervertido/ O outro santo adicto/ Minha filosofia não deu pé”, de Os Dados Estão Lançados.

Por mais que tenha um dos melhores letristas de hoje, desde o primeiro disco o que me atrai no Cérebro Eletrônico é como a banda dá forma às composições de Tatá Aeroplano. Em Deus e o Diabo a música é fundamental para espelhar esses paradoxos propostos nas letras. Um exemplo é a batida carnavalesca acelerada de Desestabelecerei, que no final da canção migra pra um hardcore e termina num batidão. Ou a onomatopaica Desquite, com seus chiliques embalados por um baião-roqueiro à la Tom Zé, com um interlúdio divertido como aqueles dos Mutantes da fase Ando Meio Desligado/Jardim Elétrico.

São esses elementos que fazem com que mesmo um disco aparentemente mais coeso do que Pareço Moderno se mostre absolutamente plural. A linha do rock brasileiro que sai da jovem guarda, passa pelo tropicalismo, pela psicodelia do começo dos anos 1970 e desemboca no pop rock dos anos 80 é dissecada sem alarde no disco. Não é só Deus e o Diabo que estão no liquidificador, é a própria história do rock brasileiro que é virada, mexida, triturada e entregue na forma de um grande disco.

P.S. 1: Hoje tem show de lançamento do Cérebro no Studio SP.

P.S. 2: Entrevistei o Tatá para uma matéria no Caderno 2 de Domingo passado clique na imagem abaixo para ver um PDF.

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