Dessacralização dos Pixies

Estadão

25 de agosto de 2006 | 12h06

Quando os Pixies voltaram para uma turnê mundial, em 2004, eu não quis ver. Não queria estragar minhas memórias, construídas muito mais no campo da imaginação do que no da informação.

Comecei a ouvir Pixies quando saiu Surfer Rosa por aqui pela finada Stilleto. Ainda não tinha MTV no Brasil. A informação era escassa, vinha das poucas revistas importadas a chegar por estas praias. Mas a música era muito poderosa, irônica, cortante, urgente.

Na minha imaginação a Kim Deal, empunhando um baixo, era a coisa mais sexy que podia existir. Como mal tinha visto as fotos, a sua voz (onde estava a minha cabeça?) correspondia perfeitamente à silhueta daquela moça esguia, nua e com seios pra lá de perfeitos da capa de Surfer Rosa.

Em 2004, eu sabia que ver a Kim Deal como ela estava na época, recém saída de uma clínica de reabilitação, morando com os pais, com o visual de um lenhador de Seatlle ou de um caminhoneiro fã do ZZ Top que todo dia mata uma garrafa de whisky de milho, era um pouco demais

Nessa semana, no Festival de Cinema de Edimburgo, foi lançado o documentário sobre a turnê mundial: loudQUIETloud, dirigido por Steven Cantor e Matthew Galkin. O filme mostra a tensão entre a banda durante o reencontro. Os rumores são de que os Pixies detestaram o resultado final.

Para falar do documentário, o jornal inglês The Guardian enrevistou Frank Black, ou Black Francis ou Charles Thompson. Não importa. O fato é que essa é uma das entrevistas mais amarguradas que eu já li.

Thompson diz que gostaria de voltar a gravar com os Pixies, mas que ninguém confia nele hoje, por ter sido o responsável pelo aborto do grupo quando estava no auge, em 1992. “Eu costuma ter uma banda e agora não tenho mais. É por isso que eu estou na estrada fazendo uma turnê solo. Por isso que eu estou sentado num quarto de hotel falando com você sobre isso”, diz ele ao Guardian. Triste, mas verdadeiro.

Quem quiser ler a reportagem do Guardian, clique aqui. A foto da banda é de Chapman Baehler

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