Cordel transfigurado em novo disco

Estadão

14 de setembro de 2006 | 17h09

Transfiguração é uma palavra que significa tanto uma mudança radical na forma – uma metamorfose – quanto uma transformação espiritual que exalta ou glorifica. Cristo apareceu aos apóstolos sobre o monte Tabor em estado de transfiguração.

Transfiguração é também o título perfeito do terceiro disco do Cordel do Fogo Encantado, pois o novo trabalho dos pernambucanos engloba tanto a transformação na forma como a espiritual.

É mais fácil falar de forma antes de tocar nas questões do espírito. O Cordel nunca foi uma banda pura e simplesmente. Suas apresentações ao vivo mesclam teatro, literatura e música. Sendo que as questões da teatralidade, que implicam dar vida ao texto e trabalhar o aspecto corporal e cenográfico que a música inspira, são tão importantes quanto a própria composição. Nos dois primeiros discos do Cordel, a música nascia do espetáculo, agora é o contrário.

As 14 músicas que compõem o álbum são pensadas como canções e, se nos outros trabalhos havia um encadeamento mais coeso entre todas as músicas, com suas tramas cheias de aventuras sonoras, pontuadas pela percussão trovejante do Cordel, neste Transfiguração cada canção é trabalhada como uma unidade autônoma, embora sirva ao todo.

Há mais nuanças, um trabalho de produção mais esmerado, mais detalhista na tarefa de buscar a sonoridade perfeita para cada uma das canções. E aí não estamos no reino do acaso: Transfiguração conta com o trabalho de três grandes nomes da produção: Miranda produz com a ajuda de Gustavo Lenza e a mixagem fica a cargo de Scotty Hard.

Transfiguração
é também uma exaltação da palavra, uma glorificação do santo ofício da escrita. Essa é sua força espiritual, um jogo entre o mundano, o prosaico, o espírito e a cultura. Além de trazer dois poemas musicados: “Tlank!”, de Manuel Filó, e “Canto dos Emigrantes”, de Alberto da Cunha Melo, ecos da literatura brasileira aparecem de todos os lados, mas não de forma literal. As canções funcionam tanto como duplos quanto como comentários sobre obras seminais da prosa e da poesia, explicitadas já no subtítulo das músicas. Alguns exemplos são “Aqui”, que reflete Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, “Pedra e Bala”, que parte de Os Sertões, de Euclídes da Cunha e “Ela Disse Adeus”, uma fantasia sobre A Teus Pés, em que pesa mais a tragédia pessoal da poeta suicida carioca Ana Cristina Cesar.

Mesmo com toda a complexidade, sonoramente esse é o disco mais fácil de ouvir do Cordel do Fogo Encantado, um passo adiante para uma das bandas mais interessantes do cenário nacional.

Nota: 9

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: