Cinco motivos contra a resolução da cadeirinha

Estadão

08 de setembro de 2010 | 15h09

Ok, este blog é primordialmente sobre cultura. Mas como a exceção é também um ato de resistência cultural, começo fugindo da pauta para falar de crianças, cadeirinhas e poder público.

A implementação da resolução do Conselho Nacional de Trânsito que obriga o uso de cadeirinhas para carros por crianças de até sete anos e meio suscita muitas dúvidas sobre a inteligência de quem a está aplicando. Sou absolutamente favorável ao uso de cadeirinha por crianças, mas absolutamente contrário a essa resolução. E sobretudo à maneira que o jeitinho brasileiro se aplica a sua implantação e fiscalização. Dou cinco motivos para defender minha posição.

1) Essa é uma resolução que passa ao largo de uma questão econômica. A cadeirinha é um item muito caro para exigir da população sem nenhuma contrapartida do Estado ou exigência para as montadoras.

Não fiz uma pesquisa profunda, mas usando três sites diferentes de compras online e comparação de preços (Buscapé, Bond Faro e Mercado Livre) constatei que a cadeirinha mais barata saia por R$ 89,00. E não serve para bebês. Das para bebês, a mais barata custa R$ 140. Cadeirinhas de marcas realmente boas não são vendidas por menos de R$ 500 em São Paulo, algumas batem a barreira dos R$ 1.000.  E aqui não vale o fetiche pela marca. Marca boa quer dizer segurança e conforto melhores, o que você procura na hora de comprar um equipamento que é, no fim das contas, de segurança. Mesmo considerando o valor de R$ 90 como o mais baixo, é bastante caro para o grosso da população brasileira, ainda que se considere só a parcela formada pelas pessoas que têm carro.

Se a cadeirinha passa a ser um item que têm de ser usado, é justo que o Estado subsidie para as pessoas com menor renda. Ou, se esse raciocínio parece esquerdista demais, tire o Estado da jogada e empurre a conta para as montadoras. Carros têm de vir de fábrica com regulagens de cinto diferenciadas para atender crianças maiores e acentos assentos para crianças pequenas.  Dessa forma contorna-se um problema da resolução que é ser, ao fim e ao cabo, elitista. Ou é coincidência o fato de as blitze se concentrarem em bairros pobres?

2) A permissão para colocar a cadeirinha no banco da frente.

Quem já comprou uma boa cadeirinha sabe. Todo fabricante sério coloca uma advertência para não instalar as cadeirinhas no banco da frente, por conta dos riscos de acidente. O Contran, tão preocupado com a segurança das crianças, propõe essa barbaridade para quem tem três filhos ou mais. É quase uma norma malthusiana.

3) Táxis estão livres da obrigação do uso da cadeirinha.

Nas blitze do feriado, os policiais apreendiam os carros de quem não estava com cadeirinha e orientavam os passageiros irregulares a pegarem um táxi. Ah, entendi a diferença. Táxi não é carro. Ou será que o lobby dos taxistas é mais forte do que o da cadeirinha?

4)  Idade versus altura

Quando falamos de cadeirinha e segurança, está implícito que se trata de um problema de física. A cadeirinha protege aqueles que não têm tamanho para usar cinto de segurança. Não seria o caso de fazer um corte por altura e não por idade? Ia achar divertido ver policiais trocando os cacetetes pela fita métrica.

5) Mais um espacinho para a cervejinha do guarda

Sete pontos na carteira e multa de R$ 191,74 reais (mais cara do que o preço da cadeirinha furreca) são um prato cheio para estimular a corrupção policial. Ops, esqueci da presunção de inocência da polícia. Estamos na Suíça, e a polícia tem um longo histórico de idoneidade.

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