Catatau é um gigante

Estadão

25 de julho de 2006 | 18h21

Ontem fui a Grazie a Dio para ver o show do Cidadão Instigado. Nem o som, que insistia em rugir com uma barulho chato de quando em quando, derrubou Fernando Catatau e companhia.

O Cidadão começou atacando de Te Encontra Logo…, a música que abre o disco mais recente deles, E o Método Tufo de Experiências…, de 2005. A mistura de brega e jovem guarda dessa canção é perfeita para mostrar as credencias da banda logo de cara. A letra suplicante, cheia de interrogações (“O que é que tu quer de mim?/ Que voz é essa?/ Que silêncio é este/ Por que tu não falas o que está pensando?”), puxada no violão e cantada com sofreguidão por Catatau, com seu forte sotaque cearense, lembra muito as baladas que rolavam na rádio AM nos anos 70. Mas aí entra a guitarra e um assobio de trilha sonora de spaghetti western. E já se sabe que não haverá território seguro nesse show.

Essa sensaçào é confirmada pela segunda música, “Os Urubus Só Pensam em te Comer”, com sua batida dance e teclado robusto. Ela e “O Pobre dos Dentes de Ouro” são os hits ao vivo.Isso num show em que a grande maioria das múscias vem de E o Método Tufo de Experiências…, como “O Tempo”, “Noite Daquelas” e “O Pinto de Peitos”, o ponto alto do show, com sua letra que invade os territórios da ironia e da filosofia: “Quem pode explicar/ a razão de o pinto de peitos ter nascido com o bico preto/ Talvez Deus tivesse um motivo/ Ao perpetuar esse ato/Por mais que pense em ser um defeito/ Um defeito de Deus é sempre perfeito”.

Como em toda essa série de shows do Cidadão Instigado no Gazie a Dio, que termina na próxima segunda, no meio da apresentação são convidados alguns músicos. O escocês Chris Mack tocou uma balada meio folk com violão, com Catatau fazendo cena na bateria e o suíço Thomas Roherer na rabeca (foto). A percussionista Karina Buhr, do Comadre Fulozinha, também tocou com a banda, e um dos momentos mais viajantes do show foi uma faixa instrumental bem “floydiana”, com Karina na percussão e Roherer no sax tenor.

Uma pena que ficaram de fora muitas músicas do primeiro disco do Cidadão, O Ciclo da De.Cadência, de 2002. Mas, no final do show, a banda tocou “Lá Fora Tem…”, caprichando na intensidade. Mesmo assim, nada foi tão intenso quando a pancadaria de “Calma!” para terminar. Foi muito bom. Segunda que vem eu estou lá de novo…

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