Bicicletas brancas

Estadão

08 Janeiro 2007 | 16h42

Na Holanda nos anos 60, os Provos começaram a pintar bicicletas de branco. Essas bicicletas ficavam nas ruas e podiam ser usadas por quem precisasse e tivesse vontade. No começo, era uma idéia genial, libertária e anarquista. No final, as bicicletas eram roubadas e repintadas. Essa trajetória do sonho ao pesadelo diz muito sobre os anos 60, e não é à toa que Joe Boyd usou a figura das bicicletas brancas holandesas para dar título ao seu livro de memórias do período.

White Bicycles – Making Music in the 60s foi o livro de música mais interessante que eu li durante as férias. É uma autobiografia, mas, mais do que isso, é um livro que interpreta de forma brilhante as reviravoltas pelas quais a música pop passou na década.

E Joe Boyd, que queria ser uma eminência parda nesse circo, conseguiu. Era amigo de Bob Dylan, levou alguns dos principais artistas negros de jazz, blues e R&B para a Europa, e, radicado em Londres, era sócio da meca da psicodelia, o clube UFO, onde uma certa banda chamada Pink Floyd ganhou fama (e Boyd produziu o primeiro compacto deles).

Como produtor, foi o responsável por dar vazão ao melhor do folk-rock inglês e produziu bandas e cantores reverenciados até hoje como Nick Drake, Incredible String Band, Vashti Bunyan e Fairport Convention.

Só isso bastaria para dar um ótimo livro, mas a prosa solta de Boyd e as histórias impagáveis dos bastidores do mundo da música primeiro nos Estados Unidos e, depois, na Swinging London são imperdíveis.

É um daqueles livros que dão vontade de sair traduzindo…