A felicidade

Estadão

12 de agosto de 2006 | 13h12

Coisas prosaicas são as maiores fontes de felicidade. Sei que na Índia o desapego é uma virtude. Não sou tão virtuoso.

Quando cheguei a Agra, depois de horas e horas de aviões, aeroportos, ônibus, a primeira coisa que fiz foi tomar um banho. A segunda foi perceber que havia esquecido o meu desodorante no Brasil (sempre esqueço alguma coisa antes de viajar). Recorri à loja do hotel. O indiano que me atendeu nem sabia o que era desodorante. Depois de explicar como esse elemento fundamental para a minha higiene pessoal funcionava, fui encaminhado à cidade.

As farmácias só vendiam medicamentos, segui então a um bazar. Lá encontrei alguns desodorantes femininos, com perfumes adocicados, impossíveis de usar. Pedi ao atendente uma alternativa e acabei levando um óleo de flores que, segundo o balconista me explicou, era o que usavam as pessoas por lá para disfarçar os odores indesejáveis, fruto do inevitável suor provocado pela constante exposição a um sol de trinta e tantos graus.

Segui viagem contente por estar em sintonia com o local, pelo menos debaixo dos braços. Mas sempre que podia dava uma escapadinha para ver se encontrava um desodorante, um Avanço local que fosse… Nada, só tubinhos de aerosol contendo perfumes delicados, doces, florais. Perfumes bons até, mas que não venciam o tal oleozinho indiano. Que não era prático, diga-se – toda vez eu tinha de colocar três gotinhas dele numa vasilha com água para depois aplicar a mistura – mas ainda assim ele levava vantagem sobre os perfumes industrializados porque tinha lá sua cor local.

Passei rapidamente por Délhi, depois por Bangalore e voltei a Délhi sempre de olho numa alternativa. E nada aparecia. Nesse meio tempo, meu oleozinho ia ficando cada vez mais insuportável. Não agüentava mais conviver com ele tão intimamente. Só olhar o frasco me causava uma repulsa profunda. Tentei ir na raça. Mas a Índia é muito quente e eu não tinha tempo de tomar cinco banhos por dia…

Cedi ao meu óleo até que ontem, no fim do dia, decidi ir a Connaught Place – uma grande praça rodeada por prédios neo-clássicos que ocupam quarteirões inteiros com lojas de marca internacionais, restaurantes e pequenos comércios locais. Assim que cheguei eu vi, sem ter ainda descido do táxi, uma miragem. Uma loja de perfumes com produtos do mundo todo. Ela tinha todos aqueles perfumes de grife que inebriam os sentidos, mas eu não estava nem aí para eles. Uma pequena prateleira, colocada na entrada da loja pequenina, estava repleta de desodorantes de todas as cores, formatos, marcas e perfumes. Há muito tempo eu não era tomado por uma felicidade tão completa.

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