Veneno em praças públicas gera pânico
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Veneno em praças públicas gera pânico

Cris Berger

31 de julho de 2022 | 12h50

As redes sociais e grupos de WhatsApp de tutores de cães da capital paulista, na última semana, foram invadidos com imagens de veneno de rato misturado com ração úmida nas Praça Rosa Alves da Silva (rua Machado de Assis) e Ayrton Senna (Avenida Curitiba, 290), na zona sul de São Paulo. 

Mensagens compartilhadas na redes sociais. Foto: Arquivo pessoal (Instagram)

Na quarta-feira (27/07), o cachorro SRD Noel ao sair da praça Ayrton Senna, caiu no chão subitamente e foi levado à clínica veterinária mais próxima. Apesar de ter sido atendido com rapidez, não resistiu e faleceu. Pelo resultado dos exames a suspeita é envenenamento.

Noel. Foto: Arquivo pessoal (Instagram)

O jornal de bairro “Notícias da Aclimação&Cambuci” publicou o registro da morte do cachorro de um morador de rua da Vila Mariana e colocou em alerta os frequentadores da Rosa Alves, que estão receosos em voltar a frequentar a praça com seus cães.

Existe um clima de tensão no ar, a notícia de veneno nas praças públicas tem deixado muitos tutores em pânico: “Frequentamos muitos parques e praças, a Cherry é curiosa, ela poderia se envenenar facilmente. Estou horrorizada e preocupada. Daqui pra frente, nossos passeios serão diferentes”, desabafa a arquiteta Priscila Joma.

Informações e canais de denúncia

Conversamos com a médica veterinária Natália Ardizon, da clínica Salute Animale, sobre tipos de  intoxicação, como identificar e agir perante um envenenamento. Também pedimos uma orientação sobre o que fazer nestes casos para a Prefeitura de São Paulo. E por último, mas não menos importante,  escutamos a visão jurídica do advogado e professor Jardel Oliveira, que é membro da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas.  

Intoxicações

As intoxicações, que podem ser fatais nos animais, acontecem de diversas formas: por plantas tóxicas, superdosagem de medicação e antiparasitários, remédios de humanos (como paracetamol e diclofenaco), materiais de limpeza, drogas ilícitas (maconha, sintéticos, cocaína) e pesticidas de pragas domésticas (baratas, mosquitos, formigas). Além do veneno do rato, que é o mais temido e letal.

Há casos e casos. Quando o tutor presencia a ingestão e busca atendimento veterinário imediato, as chances de salvar o pet são maiores, porém a quantidade ingerida e o estado clínico do cachorro são determinantes na sua recuperação. Você está em uma corrida contra o tempo, portanto, não demore, busque atendimento veterinário imediato, que neste momento, não precisa ser o seu veterinário preferido. A rapidez é o que vale. 

A veterinária Natália Ardizon não recomenda nenhum procedimento doméstico para amenizar o veneno: “Não dê água ou leite, receitas caseiras das nossas avós, porque vai piorar o quadro, pois o veneno será absorvido mais rápido. Apenas um veterinário poderá ajudá-lo”, alerta. 

Veneno de rato

O veneno do rato é quase uma sentença de morte, pois causa uma falha na metabolização hepática do animal que impede a cascata de coagulação provocando que o cachorro e gato tenham hemorragias generalizadas pelo corpo, vistos pelo sangramento nasal e no ouvido, assim como, hematomas na pele. Além de tremores. De 15 a 30 minutos, após ingerido, o animal pode mostrar sinais de envenenamento. 

Veneno: girassol de rato encontrado na praça Alves Rosa. Foto: Arquivo pessoal

O que você pode fazer

Busque identificar o que o pet ingeriu, pois isso vai auxiliar na definição do tratamento: há medicações específicas para cada tipo de intoxicação. Se o tutor não faz ideia, o protocolo será guiado pelo estado clínico. 

Digamos que você está em um sítio, no meio do mato, longe de uma clínica veterinária e levará algum tempo até chegar até ela, o que pode fazer para amenizar a ação do veneno? Enquanto está a caminho do médico, dê para o seu pet carvão ativado (de uso veterinário) que ajuda a reduzir as toxinas, radicais livres e bactérias. Conforme indica a bula: dilua 2 sachês em 80 ml de água até 20 quilos. Vale já ter na farmacinha de primeiros socorros do seu cachorro. 

Como denunciar para Prefeitura de São Paulo

A Prefeitura de São Paulo disponibiliza atendimento telefônico pelo número 156, aplicativo SP156 e site https://sp156.prefeitura.sp.gov.br/portal para fazer denúncias e chamar o serviço de zeladoria que vai até à praça fazer a devida investigação. Também deve ser denunciado ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) pelo telefone (11) 3338.0155 ou pelo site da delegacia eletrônica de proteção animal https://www.webdenuncia.org.br/depa

Visão jurídica

A lei aplicada aos casos de envenenamento está descrita no artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais n° 9.605/98 e configura como crime contra a fauna. Em 2020, com a aprovação da Lei Sansão, a pena aumentou para até 5 anos de reclusão para quem maltratar cães e gatos. 

O advogado Jardel Oliveira aconselha: “Em casos de suspeita de envenenamento em que o animal venha a óbito é necessário o atendimento veterinário para identificar a substância causadora da morte. Nesse caso, tire fotos do animal, do local onde foi encontrado e leve o alimento possivelmente ingerido para que o veterinário constate a substância causadora, uma vez que a substância utilizada pode ser de uso ou comercialização proibida, como no caso do “chumbinho”, o que gera responsabilidade penal e civil tanto para quem adquiriu quanto para quem vendeu ilegalmente, pois a comercialização do chumbinho configura Crime contra a Saúde Pública previsto nos arts. 273, § 1º-B, I, IV e art. 274, ambos do Código Penal Brasileiro, com penas que podem variar de 10 a 15 anos e multa”.

Registrar um boletim de ocorrência, em uma delegacia, é fundamental para penalizar os agressores. É necessário instaurar um inquérito policial e reunir provas. O ideal seria ter fotos ou filmagens dos autores dando iscas, petiscos ou espalhando o veneno em locais públicos como praças e parques. No caso do Noel, mesmo que não existam tais evidências documentadas, os exames feitos na clínica veterinária antes de ele morrer, são suficientes para provar que foi vítima de um ataque de envenenamento. “Com a comunicação da notícia crime e registro do boletim de ocorrência, o delegado deve proceder com a investigação”, salienta Jardel.

Este crime não pode ficar impune. O Noel merece justiça e nenhum outro cão e gato devem correr o risco de perderem a vida por frequentar um espaço público devido a crueldade alheia. Nossas vozes devem ser a deles. Espero que o medo se transforme em indignação e que a opinião pública pressione as autoridades para o culpado ser encontrado e mostrar que crimes contra nossos pets não serão tolerados. 

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