Guia: é mesmo preciso?
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Guia: é mesmo preciso?

Cris Berger

23 de maio de 2022 | 06h00

Até o sábado 14 de maio, a guia do cachorro para mim servia para não perder a Ella (minha sócia pet e filha canina) de vista. Desbravadora e curiosa, apesar das patinhas tortinhas, adora farejar e, em segundos, some. Ninguém vê. Outro motivo que a guia sempre foi útil: evitar que ela coma algo que faça mal, pois estamos falando de um aspirador de pó em potencial. Claro, que na calçada, perto da rua, a guia presa no meu corpo e na sua coleira a mantém longe dos carros. Nunca me passou pela cabeça que tivesse a importante missão de proteger os cães de serem mordidos e de morderem. Nunca.

Os cães Ella e Beethoven em uma pousada pet friendly. Foto: Cris Berger

Ataques de outros cães?

Nunca fomos atacadas na rua por outro cão sem guia. Inclusive, perto da minha casa, sempre passa um cachorrinho sem guia caminhando ao lado do seu tutor e eu penso: que perigo, se um carro sair de uma garagem pode atropelá-lo ou ele pode ver um gato ou qualquer outra coisa “interessante” e atravessar a rua. Um ataque de outro cão? Não, na minha mente “ingênua” e histórico de vida não havia esse perigo.

A mordida 

Eu estava em um hotel pet friendly com a Ella e resolvi ler um livro dentro do ofurô ao ar livre. Como de praxe, coloquei o colchonete da Ella no chão, ela se deitou em cima dele e tirou um dos seus habituais cochilos. Eu estava lendo virada para a sua direção, ou seja, ela estava no meu ângulo de visão, não iria sumir em um de seus passeios sorrateiros. 

De repente, vejo um cachorro correndo solto. Ele parecia estar se divertindo muito. A Ella também viu e levantou as orelhinhas. O que eu fiz? Pedi para o meu namorado pegar a guia e colocar nela. O cachorro logo a viu e se aproximou. Perguntei para o tutor se o cão era sociável. Sua resposta: “depende, se tiver bolinha”. Não tinha e a Ella gosta de cachorros. Então, vamos apresentá-los. A Ella na guia, ele não. Na primeira cheirada, tudo foi bem. Outro cachorro da família se aproximou e nessa hora, não sei o motivo, ele a mordeu. Meu namorado puxou a guia para trás e o tutor do cão o segurou. Porém, o estrago estava feito. A pele do sharpei, que é super fina, rasgou feio. Saldo: um corte perto do olho e dois fundos na bochecha. 

Os ferimentos da mordida na cachorra Ella. Foto: Cris Berger

A falta de limites dos tutores

Em uma praça de alimentação, onde pets são permitidos, da capital paulista a analista de sistemas Ni Koyama relata uma situação que a incomodou e provocou que deixasse o local. Duas crianças, sem a supervisão da mãe, estavam segurando um cachorro de porte pequeno,  que aproximou-se da sua mesa. Seu cão, que estava dormindo, não gostou e rosnou para ele. Quando estavam saindo do local, o cachorro veio mais uma vez e uma briga foi evitada porque ela puxou o seu pet pela guia. “Eu ia praticamente todos os dias lá, agora não vou mais. Vários amigos estão fazendo o mesmo. A falta de bom senso dos tutores está atrapalhando a convivência”. 

No mesmo local, ela viu outra cena que a brigada de incêndio teve que intervir. Um casal com três cães de porte médio e sem guias estava almoçando quando chegou um rapaz e sentou-se em uma mesa no meio da praça. Um dos cachorros foi até ele e pulou no seu colo. Assustado, pediu que o cachorro fosse preso na guia. A tutora não reagiu bem ao pedido, seu marido entrou na discussão com agressão verbal e empurrou o rapaz que caiu no chão. 

Thor em um local pet friendly. Foto: arquivo pessoal

Em uma pousada pet friendly do interior de São Paulo, a gerente comercial Amanda Cammarota presenciou uma cena que a chocou. Os hóspedes estavam sentados tomando o café da manhã quando um husky siberiano aproximou-se de um SDR para cheirá-lo. O cachorro que foi abordado, não gostou, mordeu seu pescoço e não soltou. Foram necessários o husky ser pego no colo e levantado alto e o SRD quase sufocado para soltá-lo. O tutor do cão, depois do episódio e a pedido dos funcionários da pousada, colocou uma focinheira nele, mas deixou o estabelecimento argumentando que não queria seguir a utilizando no seu pet.

Amanda, que estava em uma mesa próxima, presenciou o desespero dos tutores do cão atacado, seu marido prestou auxílio e, no final, desabafa: “depois deste dia carrego um sachê de pimenta do reino na bolsa para proteger meus cães de um eventual ataque, pois provoca que o cachorro espirre e abra a boca. É ridículo pensar que até isso temos que carregar para salvar nossos cães da irresponsabilidade dos outros”.

 

Amanda com seus cães Espeto e Fina. Foto: Arquivo pessoal

O comerciante Luiz Higa Júnior tem três cachorros: dois goldens e uma SRD. Em alguns momentos ele deixa um dos goldens sem guia, mas é a favor do uso dela na maior parte das vezes. “Quando estamos caminhando na rua sempre fiscalizo se há outros cães e pessoas. Solto apenas em locais que conheço muito bem”. Justamente por já ter presenciado brigas entre cães em cachorrodromos, prefere ir a parques mais isolados com seus cães. Em hotéis os deixa sem guia em gramados e trilhas, mas nunca no café da manhã e salienta que está sempre atento a qualquer movimento suspeito. 

Os cães Bob e Maria sempre na guia e Marley solto. Arquivo: foto pessoal

O que a Amanda, a Ni e o Luiz têm em comum? Opinam que falta responsabilidade por parte de alguns tutores e se incomodam com isso. O que me faz pensar: está na hora de termos uma lei estabelecendo deveres e obrigações aos locais pet friendly e tutores? Acredito que sim.  

A lei

A lei Estadual 11.531/03 e Municipal 13.131/01 determinam que todos os cães usem guias e coleiras nas áreas verdes (parques e praças) e espaços públicos da capital paulista. E as raças pit bull, rottweiller, mastim napolitano, american staffordshire terrier e raças mestiças, focinheira. Assim como os cães devem ser conduzidos por pessoa com idade e força suficiente. Além da obrigatoriedade da placa de identificação, presa na coleira. Quem faz a fiscalização é a Guarda Civil Metropolitana (GMC). 

A advogada Vágila Frota do Canal Direito Animal Brasil  reforça que a lei sem educação não tem eficiência. “Precisamos da disciplina de direito animal na rede pública para formar humanos conscientes. E que os estabelecimentos, que são ou querem ser pet friendly, invistam em duas áreas: advocacia preventiva especializada e assessoria pet friendly”, enfatiza.  

Locais pet friendly que liberam o uso da guia

A pousada Gaia Viva,  localizada em Igaratá, abriu suas portas em 2013 e recebe cerca de mil cachorros por ano. Ela faz uma triagem, em forma de entrevista por WhatsApp e e-mail, antes do check in acontecer e são categóricos sobre a importância dos cães serem sociáveis. Além de deixarem claro que caso haja um indício de agressividade, a hospedagem será finalizada e o valor pago não será devolvido. “Já houve rusgas, sim, mas nossa equipe estava presente e controlou a situação imediatamente. O que evita brigas ou desentendimentos é justamente uma equipe grande, com 56 funcionários, todos bem treinados em comportamento canino, além de atividades diárias que socializam os cães”, relata Konrad Bruch, um dos criadores e donos da pousada que oferece piscina climatizada e tratada com ozônio, trilhas, lago com stand up paddle, pedalinhos e caiaque e pista de agility para os pets.

Cachorro nadando no lago da pousada Gaia Viva. Foto: Cris Berger

O hotel Surya-pan, que fica no alto das montanhas paulistas, em Campos do Jordão, é outro hotel que permite os pets ficarem sem guia. No começo ele recebia casais em busca de um local romântico. Com o passar do tempo, este público foi ganhando a presença dos pets e hoje é maioria. Desde que começaram a receber cães, contrataram monitores para acompanhar os pets nas trilhas e fiscalizar quanto estão soltos no gramado, piscina e lago. “Assim como os estabelecimentos infantis tem monitores, os locais que recebem pets precisam ter os deles. Estes profissionais devem fazer um curso com uma autoridade de comportamento animal. Os tutores precisam entender que as regras foram criadas para proteger a relação entre todos e estão em constante evolução”, opina Fernando Hernandes, dono do hotel.

Cachorro correndo no gramado do hotel Surya-Pan. Foto: Cris Berger

Na zona norte da capital paulista, a engenheira química Karen Fujiwara, em setembro de 2020, abriu as portas do maior parque indoor da América Latina, com 2.5000 metros quadrados chamado Cachorrodomo. Nele, os cães podem ficar soltos e nadar na piscina. Além de correrem e fazerem o “Desafio do Super Cão”, que é um circuito de agility por onde o cachorro precisa de destreza para completá-lo. Karen relata que nunca houve uma briga séria entre os 14 mil cães que recebeu até hoje, apenas estranhamentos e conta com uma equipe de 6 monitores para evitar confrontos. “Os cachorros chegam ansiosos. Entrar sem guia é muito melhor do que com guia, pois a tensão do tutor não é passada para o cão. Temos um monitor treinado em comportamento animal, logo na entrada, observando a chegada e o comportamento do tutor e do cão. A gaiola, que separa a porta da entrada da parte de dentro, é muito importante para nós porque já realizamos a primeira triagem. Nem todos os tutores estão abertos a receber orientações, pois eles acham que sabem tudo”, revela. 

Cães soltos no Cachorrodromo. Foto: Cris Berger

Respeito ao próximo

É unânime entre as pousadas e hotéis mistos, que recebem hóspedes com e sem pets, exigir o uso da guia. O motivo é óbvio: o respeito ao próximo deve imperar para que tudo funcione bem. Há pessoas com medo de cachorro e outras que simplesmente não gostam e elas devem ser respeitadas. 

Um bom exemplo do quanto os pets estão sendo vistos como potenciais hóspedes é o projeto Better Cities for Pets da Mars Petcare, que nasceu nos Estados Unidos e chegou ao Brasil em 2021. Através dele, 300 hotéis da rede Accor estão recebendo treinamento, placas de sinalização e orientação de como formular uma regra pet adequada. 

Além da tradicional hospitalidade que os hotéis devem entregar para os hóspedes acompanhados de seus cães, está a importância de preservar a segurança de todos. O pilar safety é tão importante quanto entregar uma experiência prazerosa, até porque uma coisa está diretamente relacionada à outra.     

Mundo dos pequenos

A spitz alemã Cherry de quase 3 anos faz parte dos cães que não tem uma história triste para contar. Sua tutora, a engenheira civil Priscila Joma frequenta festas de aniversário de cachorros, cachorrodromos e hotéis pet friendly e nunca levou um susto. “A Cherry tem uma vida social intensa. Eu sempre analiso o ambiente antes de tirar ela da guia. Estou sempre de olho e se algum cachorro vem com uma brincadeira mais pesada e vejo que ela está desconfortável, imediatamente intervenho”, pontua Priscila.

Cherry em uma das suas atividade sociais. Foto: Arquivo pessoal

 

Apesar de até agora tudo ter dado certo, a Priscila como boa parte dos tutores de cães de pequeno porte, olham os maiores com respeito e um pouco de medo. “Se eu vejo um cachorro de raça com um potencial de mordida forte sem focinheira ou guia, não fico no ambiente” pondera. Por isso, alguns parques de São Paulo oferecem espaços cercados para os menores e outros para os maiores. O problema é que não há respeito e os portes acabam se misturando. Mas, sem dúvida, é uma iniciativa válida. 

Equipamento de segurança

A educadora canina Manu Moraes, que há 25 anos trabalha orientando seus alunos (humanos) a como conduzirem seus cachorros para se tornarem cães urbanos equilibrados, é especialista em reatividade e salienta a importância de sabermos dividir os espaços públicos. “No momento em que um cachorro sai da casa em que ele vive, tudo que faz é responsabilidade do tutor. Se ele correr atrás de um gato, de outro cachorro ou até de uma pessoa, a culpa é sua. Portanto, usar a guia, que é um equipamento de segurança, previsto por lei, é um ato de respeito ao próximo”.

 

A educadora canina Manu Moraes. Foto: arquivo pessoal

Ela também reforça a importância de terem regras para as pessoas frequentarem locais pet friendly como um restaurante, hotel ou praça. “Se vamos encontrar outros animais e pessoas, devem haver regras universais de conduta. Se não vira um caráter subjetivo e os problemas serão garantidos. 

Reatividade

No trabalho da Manu está dessensibilizar o cão reativo e alertar os tutores para não deixarem um cão sociável vir a ser agressivo. É bacana ter um cachorro sociável, mas isso não é uma realidade coletiva, por isso, os tutores de cachorros bonzinhos precisam preservá-los e assim evitar que um comportamento reativo seja ativado. “Uma situação desagradável aqui, outra ali. Uma hora ou outra, ele reage. Quando escuto um tutor dizer que seu cão atacou do nada, sei que uma série de pequenos fatores ou um grande gatilho gerou este indesejável comportamento”, ensina. 

Quem tem um cão dócil pode facilmente cometer o erro de ultrapassar a linha divisória e invadir o quadrado alheio, portanto, mesmo que seu cachorro goste de interagir com outros cães, não deixe ele chegar de forma abrupta, pois não sabemos como o novo amigo vai reagir. Caso se assuste, esteja em um momento de relaxamento, roendo um osso, com seu brinquedo ou simplesmente não goste de chegadas afoitas pode retribuir o contato inesperado com uma rosnada ou mordida. É ruim para ele e também para o “cão vereador”, que poderá ter a reatividade despertada. “São várias caixinhas que se abrem. Na rua o adequado é nenhum cachorro abordar outro desconhecido”, pondera Manu.  

Lembrando que é comum um cão se tornar reativo depois de um episódio de ataque. Por apenas um incidente, ele pode deixar de ser tolerante e sociável e este comportamento escalar muito rápido. Segundo a educadora canina, por mais que isso não seja desejável faz parte da natureza do animal. 

Depois de uma situação conflito, os cachorros reagem de maneiras distintas. Portanto, é importante observar como eles se portam nos passeios futuros e se haverá mudanças de comportamento. Eleja um profissional experiente para o acompanhar, evite eventos com cães que você não conhece e promova encontros com os melhores amigos. Neste momento, um cachorro desconhecido é uma roleta russa. 

Como evitar conflitos

É importante conhecermos nossos cães, de forma sincera e honesta, sem fantasiar. Apesar de serem nossos filhos, são animais. Não que o ser humano com sua racionalidade seja melhor, convenhamos. Ao estudarmos comportamento canino, não para ser um profissional, mas melhores tutores, começamos a entender os sinais que os cães emitem e, com isso, evitamos problemas previamente anunciados.  

Tratando da guia, como regra geral, o ideal é: todo mundo na guia ou solto. O problema de estarem sem guia é o risco de uma briga acontecer com ferimentos sérios, sem falar em uma situação extrema de óbito. 

Movimento pet friendly

O movimento pet friendly, nos últimos anos, se popularizou no Brasil e isso é ótimo, mas para que siga crescendo de forma saudável é necessário tutores conscientes e consequentemente cães comportados, regras bem claras ditadas pelos estabelecimentos, leis normatizando os direitos e deveres dos locais e pais de pets. Chegou a hora de uma nova cultura ser disseminada, a cultura do respeito e educação.

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