Fogos e pets não combinam
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Fogos e pets não combinam

Cris Berger

01 de novembro de 2021 | 07h00

Quem tem um pet não vê beleza nos fogos de artifício por um simples motivo: seu cão não passa imune ao barulho. Grande parte dos cães e gatos fica assustada. Muitos fogem – há casos também de atropelamento. Sem falar nos cães de rua.

A Ella (minha sócia pet no blog e Guia Pet Friendly) sente medo, levanta as orelhas e fica alerta. Apesar de ela não demonstrar desespero, sei que não está confortável. Eu busco reagir com naturalidade e mostrar que está tudo bem.

O movimento

Em março de 2021, no Rio de Janeiro, foi criado o movimento #RioSemEstampidos que sugere o uso dos fogos silenciosos em prol da conservação do meio ambiente e saúde dos animais de estimação e silvestres, autistas, bebês, idosos, enfermos e pessoas com hipersensibilidade auditiva. 

O movimento pede que o poder público crie uma lei proibindo a utilização dos fogos tradicionais. Essa substituição resolveria 80% do impacto causado, pois a redução de ruído é expressiva. “É um problema social muito sério e totalmente evitável que visa proteger a saúde de todos e o meio ambiente”, salienta a arquiteta e radialista Adriana Cassas, que está à frente das reivindicações. 

O movimento carioca conta com apoio de ambientalistas e da classe médica veterinária, que enxergam a mudança como um ato de saúde única. A professora da Pós Graduação da Fiocruz e membro da Ceua da UFRRJ Norma Labarthe alerta:  “A pandemia de covid-19 nos obrigou a reconhecer a gravidade do dano que causamos a todas as formas de vida deste planeta. Quando veículos deixaram de circular, os céus voltaram a nos mostrar aves incríveis, as estradas ficaram cheias de animais terrestres e o mar cheio de vida. “

Ela também pontua as centenas de atendimentos a animais domésticos ou selvagens, após o disparo de estampidos. “Sou absolutamente favorável à modernização de nossas comemorações”.  

Cão desaparecido

Na madrugada de 19 de setembro, a border collie Lagertha dormia no quintal da sua casa quando escutou o estouro de fogos de artifício. Desesperada, escalou o muro de três metros de altura e correu até o Leblon, onde foi vista pela última vez. Sua família tinha consciência do seu medo e nas datas e ocasiões em que os barulhos aconteciam, a deixavam ficar dentro de casa. “Ela nunca havia fugido, não imaginei que poderia escalar o muro. Os fogos foram no meio da madrugada, não esperávamos”, conta o estudante de psicologia Pedro Roxo Py, tutor da cachorrinha desaparecida. Ela ainda não foi encontrada.

 

Lei aprovada e projetos tramitando

Em um país como o Brasil, onde 53% dos lares possuem cães e gatos (dados Radar pet 2020 -SINDAN), a necessidade de legislação sobre o tema é inevitável. Vide a Lei Municipal 16897/18 do vereador Xexéu Tripoli, aprovada em maio de 2018, e a Estadual 17389/21, em julho de 2021, dos deputados Bruno Ganem e Maria Lúcia Amary, ambos de São Paulo, que proíbem os fogos barulhentos. Confira o que a lei municipal determina: Ficam proibidos a queima, a soltura, a comercialização, o armazenamento e o transporte de fogos de artifício de estampido e de qualquer artefato pirotécnico de efeito sonoro ruidoso no Estado de São Paulo. Os fogos de vista, assim denominados aqueles que produzem efeitos visuais sem estampido, estão excetuados das proibições.

Embora na prática ainda se ouça os fogos em dias de jogo, nota-se uma diminuição nos ruídos com a legislação. “Os paulistas estão dando um exemplo de como legislar a favor da vida”, ressalta Adriana.

No Senado, há o projeto do senador Fabiano Contaratto. O Rio de Janeiro, que tem o apoio da Comissão de Direitos Animais da OAB/Rj,  encontra-se na fase de discussão com a Câmara Municipal. “Uma comemoração tem que ser feliz para todos. A Holanda discute a proibição total dos fogos. A Olimpíada de Tóquio foi com drones. A criatividade e o talento humano não têm fim, basta que sejam usados para o bem coletivo”, defende a advogada Andrea Cassas, que também faz parte do movimento.

Novos tempos

A consciência social, a preocupação com o meio ambiente e também a presença dos pets como integrantes da família brasileira provocam que a indústria e a sociedade se adaptem aos novos tempos e assumam os fogos silenciosos, mesmo sendo mais caros. “As pessoas não imaginam que possa haver um espetáculo lindo com soluções mais sustentáveis, como drones e fogos silenciosos”, pondera a empresária Miriam Cassas, que é mais um braço do movimento. 

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