Séries políticas dão poder às mulheres, mas nunca o cargo
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Séries políticas dão poder às mulheres, mas nunca o cargo

Clarice Cardoso

01 de abril de 2014 | 15h30

Clarice Cardoso

Não é de agora que a Casa Branca e a política de mentirinha viraram temas para os roteiristas. Todo mundo lembra de The West Wing, mas estão no ar hoje série como House of Cards, Scandal e Veep, que são as de que vou falar agora.

Talvez por ter recentemente assistido às três últimas, talvez porque seja mesmo um tema premente, chamou-me a atenção a presença de fortes personagens femininas. Ao menos nos dois primeiros casos, são mulheres dotadas de raciocínio político frio e analítico, às vezes cruel. São movidas pela ganância, têm sede de poder. Nos episódios mais recentes, sobressaem-se aos homens que estão à sua volta e, mesmo tomadas por emoções, estas não prejudicam seus julgamentos e é esse pragmatismo que permite que conduzam a trama e o País daquele reino fictício.

Nos dois primeiros casos são mulheres que, ao fim e ao cabo, comandam o jogo político. É interessante ver personagens femininas ricas nesses papéis, mas há aqui um grande porém: tudo o que fazem, fazem nos bastidores. E reforçam aquela frase de que “por trás de um grande homem, há uma grande mulher”. Por mais que sejam elas as responsáveis por boa parte do seu sucesso, os rostos e os nomes que acompanham os cargos oficiais ainda são masculinos.

Se na vida real há tantas mulheres em cargos oficiais (temos uma presidente mulher no Brasil, e há ainda Michelle Bachelet e Angela Merkel, para citar as duas mais óbvias que surgem à mente), por que não na ficção norte-americana? Não estou aqui avaliando o desempenho político de nenhuma delas na política real, apenas atentando para o fato de que não seria de forma alguma inverossímil, nos dias de hoje, se algo assim acontecesse nas séries. 

Mais: seria desejável, pois ajudaria a derrubar estereótipos que há anos impedem o desenvolvimento profissional feminino em todos os níveis do mercado de trabalho.

No mundo das séries, como no dos preconceitos, a mulher tem de ser feminina, delicada. Se aparentemente não é, há de ter algo que justifique. É assim que, em House of Cards e em Scandal, a racionalidade e ganância em mulheres são minimizadas por traumas passados que obrigaram as personagens a serem assim. Nenhum homem precisa se justificar, mas a mulher, ah, a mulher sim. Quando Scandal ameaçou mudar essa história, deixando a vice-presidente lançar-se como candidata à presidência, ela logo se transformou numa lunática religiosa. Dentro daquele universo específico, uma mulher presidente não pode ser levada a sério.

Em Veep, a situação seria pior se não se tratasse de uma sátira. Selina é a vice-presidente, mas vive frustrada com aparições públicas menores e tarefas chatas com que o presidente não quer lidar. As piadas da comédia giram em torno do fato de ela ter um título que não lhe confere poder algum. A salvação do humor dessa ótima série está aí. “O presidente ligou?”, é o bordão que Selina repete o tempo todo para a secretária. Não, nunca liga. E por que o faria?

Mas vejamos essas mulheres uma a uma.

 

Claire Underwood, de House of Cards

 

Claire Underwood, de House of Cards

A personagem vivida por Robin Wright começa a série do Netflix no comando de uma organização não governamental que precisa fazer cortes de pessoal. Delega a tarefa a uma funcionária que passa o dia demitindo os colaboradores um a um para, no fim do dia, ser ela também demitida. Está exposto o método de trabalho de Claire, que não parará diante de nada para conseguir o que quer. Lady Macbeth. Conspira com o marido, o protagonista Frank Underwood, em seus planos para dominar a Casa Branca. Ele é consegue, e começa a atual temporada como vice-presidente. Para isso, ela teve de abrir mão da ONG, mas não de suas aspirações.No decorrer dos episódios, Claire se revela a personagem mais instigante de House of Cards. Mas a frieza e as manipulações que inventa não podem ser fruto apenas de ambição no mundo das séries de TV. Então é criado um drama pessoal que justifique o “embrutecimento” de seu lado, digamos, feminino. Ela foi vítima de um estupro na faculdade, fez alguns abortos para que o casal pudesse se dedicar à carreira política de Frank. Ser apenas a esposa que sorri e posa para fotos não é o papel que criou para si, não lhe basta. Uma jornalista a provoca em um episódio: ‘Ser a mulher do vice-presidente significa estar sempre um passo atrás…” Claire dá um sorriso que é mais irônico do que doce: “Eu não me vejo nessa posição”. Wright é estonteante no papel do tubarão político, e com isso ganhou um Globo de Ouro em janeiro. Um movimento inteligente seria se, agora, com tudo o que aconteceu no final da temporada, Frank passasse a ser uma escada para suas aspirações e conquistas. Veremos se é por esse caminho que a série caminhará.

  

Olivia Pope, de Scandal

Olivia Pope, de Scandal

Os primeiros episódios apresentam a personagem de Kerry Washington como uma especialista em gerenciar crises. Com punhos de ferro, comanda uma equipe não de funcionários, mas de “gladiadores de terno”. Qualquer tipo de crime ou passo fora da linha que possa virar uma tragédia midiática é resolvida brilhantemente por Olivia. Ela pensa e age rápido, dá ordens com firmeza. Até a página dez. Até que entra em cena seu passado profissional e amoroso. Até que entra em cena o presidente dos Estados Unidos. Como parte de sua equipe de campanha, Pope envolveu-se não só num esquema de fraude eleitoral, mas também com ele, Fitzgerald Grant, sexualmente. Desde que isso é revelado e sempre que os dois se encontram, some a moça segura e entra em cena a mulherzinha apaixonada. Alguns chamarão isso de romantismo. Outros, de burrice estratégica. Ou só de burrice. O único que parece entender o absurdo de tão abrupta mudança é o pai de Olivia, um vilão, mas que verbaliza minhas frustrações com sua personagem: “Pense com a cabeça!”. A mensagem que fica no subtexto é que uma mulher apaixonada não terá clareza para tomar decisões profissionais, mesmo que isso implique o futuro dos Estados Unidos da América. Um preconceito que, infelizmente, ainda se vê expresso aqui e ali.

Mellie Grant, de <em>Scandal

 

Mellie Grant, de Scandal

Do lado oposto de Olivia está a primeira-dama interpretada por Bellamy Young. Ela sabe do caso entre o presidente e Pope, e suas tentativas de interrompê-lo marcaram suas primeiras aparições. Foi quando começou a demonstrar sua inteligência extraordinária, seu profundo conhecimento do jogo político e sua própria ganância que se tornou a personagem mais rica da série. Sustento que é mais interessante que a própria protagonista. Enquanto Pope e Grant se perdem em cenas em que juram um amor improvável, juvenil, é Mellie quem está tramando manobras pelos corredores da West Wing, colocando em prática esquemas e comandando a situação. Tudo isso enquanto posa para a imprensa como a primeira-dama perfeita, a mãe amorosa, a esposa ideal. Mais uma vez, a TV americana não permitiria que uma mulher demonstrasse ambição pura e simples. Mellie precisou também ganhar um trauma pessoal que justificasse a dureza de seu caráter e seu foco em manter-se no poder: foi estuprada pelo pai do marido. “Se você soubesse dos sacrifícios que tive de fazer, das coisas que tive de abrir mão, e dos pedaços de mim que entreguei por sua causa”, ela diz ao marido. É por isso que tolera seu comportamento errático, e é por isso que se recusa a abrir mão do casamento. Não é desejo de poder puro, é o preço que pagou por ele.

 

Selina Meyer, de Veep

Selina Meyer, de Veep

Julia Louis-Dreyfus transformou em sátira toda essa situação numa das melhores comédias no ar hoje. Ela é a vice-presidente dos Estados Unidos! Mas o que isso significa? Que ela tem de ir a feiras de ciências escolares, eventos no interior vestida a caráter, fazer discursos em tom de stand-up e lidar com uma equipe que é, para o dizer o mínimo, extremamente desqualificada. Ela quer ter mais poder, ela se sente isolada do presidente – e está. Ele nunca a procura, e ela vive a eterna espera de suas ligações (assim como o cara que some depois do primeiro encontro, o presidente nunca ligou para ela no dia seguinte ao da eleição). Selina, por sua vez, só dá foras, e passa os dias tentando resolver as crises midiáticas em que se envolvem e que a transformam sempre em memes na internet. A série da HBO é uma versão de uma produção britânica (mais uma!), chamada  The Thick of It, e volta a ser exibida nos Estados Unidos no próximo dia 6 de abril.

 

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PS: Para ser justa, em 2005 Geena Davis estrelou Commander in Chief, em que vivia a primeira presidente mulher. Não vale menção não só porque não está no ar mais, mas especialmente porque o roteiro era uma bobagem.

 

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